Psicóloga Christina Sutter analisa os efeitos psíquicos e sociais da guerra, alerta para a banalização da barbárie e discute como a desumanização corrói os fundamentos éticos da vida coletiva
O programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido na segunda-feira (6), debateu o tema “De Gaza a Teerã: o contágio da desumanização” com a psicóloga Christina Sutter, em uma conversa sobre os impactos subjetivos, políticos e civilizatórios dos conflitos contemporâneos. A edição, apresentada por Sara Goes, com comentários de Sandra Helena, tomou como ponto de partida o genocídio em Gaza, a escalada militar no Oriente Médio e a forma como a violência prolongada vem alterando a sensibilidade moral das sociedades.
Psicóloga, mestre em Psicologia pela Unifor, especialista em Filosofia e Epistemologia da Psicologia, com trajetória ligada à psicoterapia familiar, à abordagem sistêmica e à psicologia humanitária, Christina levou ao programa uma reflexão que uniu clínica, filosofia, biologia e crítica política. Ao longo da entrevista, ela sustentou que a naturalização do horror não é apenas um efeito colateral da guerra, mas um sintoma profundo de erosão daquilo que reconhecemos como humanidade.
Segundo Christina Sutter, a repetição diária de imagens de destruição, sofrimento e morte, somada ao silêncio ou à cumplicidade de parte das potências internacionais, vem produzindo um deslocamento perigoso nos afetos coletivos. Em vez de indignação universal diante da dor de civis, o que se vê cada vez mais é a comemoração da vingança e a suspensão da compaixão.
“Talvez estejamos atravessando uma linha vermelha enquanto humanidade”, afirmou. Para ela, essa percepção se tornou ainda mais nítida após a circulação de comentários nas redes sociais celebrando bombardeios contra cidades israelenses como forma de revanche pelos crimes cometidos em Gaza. Christina observou que, por trás da revolta compreensível diante do massacre palestino, emergiu algo mais inquietante: a aceitação da dor do outro como castigo merecido.
“Você também tem vítimas inocentes do lado de Israel. E você tem zero compaixão a essas vítimas”, disse. A psicóloga frisou que esse fenômeno não elimina a responsabilidade histórica e política do Estado de Israel pelo massacre em curso, mas revela que a lógica da desumanização já contaminou amplamente a percepção pública, corroendo a capacidade de distinguir justiça de revanche, solidariedade de punição coletiva.
Ao buscar entender como uma sociedade que carrega a memória do Holocausto pode reproduzir práticas de extermínio, Christina apresentou hipóteses que articulam trauma histórico, colonialismo e paranoia institucionalizada. Uma delas é que Israel, como Estado colonial, opera dentro de uma lógica já conhecida na história moderna: a necessidade de reduzir o povo colonizado a uma condição sub-humana para legitimar expulsão, limpeza étnica, roubo de território e aniquilação.
“Você desumaniza para poder aniquilar, para poder matar, para poder roubar”, resumiu. Nesse ponto, a entrevistada evocou autores como Judith Butler, Ilan Pappé e Gabor Maté para argumentar que a negação da humanidade do outro é condição necessária para o funcionamento de projetos coloniais. Sem isso, a violência perderia sua moldura de legitimidade.
Christina também apontou que o trauma histórico vivido pelos judeus europeus não desaparece com a fundação de um Estado, mas pode ser politicamente manipulado e convertido em dispositivo permanente de medo. Segundo ela, a ideia de que há inimigos por todos os lados e de que a sobrevivência depende da eliminação preventiva do outro foi alimentada por décadas e incorporada à formação social e educacional israelense.
“A ideia é que nós estamos cercados de inimigos e nós precisamos nos proteger deles. E qual é a melhor maneira de se proteger do inimigo? É acabar com eles”, afirmou. Para a psicóloga, essa engrenagem não anula a tragédia do antissemitismo histórico, mas mostra como o sofrimento pode ser capturado por uma racionalidade de guerra e convertido em justificação para novas brutalidades.
Um dos momentos mais fortes da entrevista foi quando Christina relacionou esse processo ao colapso da empatia. Sem recorrer à ideia de monstros ou à demonização simplista, ela afirmou que a própria experiência extrema de desumanização pode produzir sujeitos com a capacidade empática profundamente lesionada. Isso, segundo ela, ajuda a compreender por que tantos algozes narram seus crimes sem culpa, remorso ou hesitação.
“Não estou dizendo que são monstros. São humanos”, observou. “Foi retirado dessas pessoas a capacidade de empatizar e de ter compaixão pelo que eles sofreram”. A fala surgiu no contexto de sua referência ao documentário Tantura, que reúne depoimentos de antigos participantes do massacre de palestinos em 1948 e mostra, décadas depois, a persistência de uma memória narrada sem arrependimento.
Para elaborar esse raciocínio, Christina recorreu ainda à literatura. Ao mencionar Frankenstein, de Mary Shelley, ela interpretou a criatura rejeitada como metáfora de um ser ao qual se nega reconhecimento e pertencimento. Ao ser tratado como não humano, disse ela, o sujeito tende a devolver ao mundo a violência de que foi alvo.
“Tu retira a humanidade do outro que o outro vai querer se vingar”, afirmou. A imagem serviu como chave para pensar tanto os ciclos históricos de opressão quanto a dinâmica psíquica que transforma humilhação, exclusão e trauma em desejo de retaliação.
Mas a reflexão de Christina foi além do Oriente Médio. Ela alertou para o risco de que a banalização da barbárie deixe de ser percebida como exceção e passe a funcionar como regra tácita da convivência global. Quando a dor deixa de mobilizar cuidado e passa a ser celebrada, argumentou, não estamos apenas diante de uma crise geopolítica, mas de uma mutação ética de largo alcance.
A partir de autores como Humberto Maturana, a psicóloga sustentou que a experiência humana se funda biologicamente em relações de dependência, acolhimento e cooperação. Em sua leitura, aquilo que nos caracteriza como humanos não é a força, a competição ou a violência, mas a capacidade de reconhecer o outro como legítimo outro no espaço comum de convivência.
“O amor é a aceitação do outro como legítimo outro no meu espaço de convivência”, disse, retomando a formulação de Maturana. Foi a partir desse ponto que Christina formulou uma das teses centrais da entrevista: se a desumanização se torna natural, contínua e justificável, o que está em risco não é apenas a paz entre povos, mas a própria continuidade do humano tal como o conhecemos.
“Se essa linhagem não for conservada, ela desaparece”, alertou, referindo-se à ideia de que a humanidade depende da preservação histórica de vínculos de cuidado, solidariedade e reconhecimento. Sua pergunta, ao fim, foi tão filosófica quanto política: que tipo de humanidade pode emergir quando a compaixão é dissolvida, o direito humanitário se torna letra morta e o extermínio passa a ser racionalizado em nome de identidades, medos e vinganças?
Ao longo do debate, também vieram à tona temas como o esvaziamento das convenções internacionais, o descrédito dos marcos jurídicos criados após a Segunda Guerra Mundial e o uso político de narrativas religiosas ou civilizacionais para sustentar novos ciclos de guerra. Christina não tratou esses elementos como aspectos isolados, mas como partes de um mesmo processo de decomposição moral e simbólica.
Sua análise recolocou, em termos urgentes, uma pergunta que a guerra em Gaza impôs ao mundo: o que resta de nossa humanidade quando o massacre é televisionado, comentado em tempo real e, ainda assim, tolerado? Mais do que oferecer respostas fechadas, a psicóloga propôs que essa interrogação seja enfrentada com seriedade, antes que o sofrimento alheio deixe de ser escândalo e se torne apenas paisagem.
Livros e filmes mencionados
- Frankenstein; or, The Modern Prometheus, de Mary Shelley (livro, 1818)
- Frankenstein (2025), dirigido por Guillermo del Toro
- Tantura (documentário, 2022), dirigido por Alon Schwarz
Baseado na pesquisa do historiador Teddy Katz sobre o massacre de Tantura (1948) - Hotel Rwanda (filme, 2004), dirigido por Terry George
Inspirado em fatos reais do genocídio em Ruanda (1994)
Livro relacionado: An Ordinary Man (2006), de Paul Rusesabagina e Tom Zoellner - A árvore do conhecimento (1995) e Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano (2004), de Humberto Maturana (com Francisco Varela no primeiro)
Obras fundamentais para a noção de “biologia do amar”, citada na análise sobre a constituição do humano
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