“Temos um agente do golpe nas eleições agora”, afirma Luciana Bauer

Em debate sobre a crise no STF, analistas relacionam a atuação de André Mendonça ao ambiente eleitoral e alertam para o avanço da extrema direita nas plataformas digitais

Da Redação

A crise que atingiu o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal deixou de ser apenas um conflito entre autoridades e passou a representar, na avaliação de analistas, um risco para a estabilidade institucional e para as condições em que será realizada a eleição presidencial de 2026. O confronto entre ministros, a divulgação de documentos e as decisões que atingiram a direção da PF entraram no centro da disputa política a menos de um mês da votação.

A análise foi apresentada em uma transmissão especial da TV Código Aberto, realizada na noite de terça-feira (8), em parceria com a TV Travessia, Rádio e TV Atitude Popular, Satélite de Ideias, Visão Caleidoscópica e Pensando o Brasil e o Mundo. O programa recebeu Luciana Bauer e Gisele Agnelli e contou com comentários de Ludmila Cindra, da Rede Lawfare Nunca Mais, do pesquisador Reynaldo Aragon, do jornalista e advogado Luís Delcides e do jornalista Ricardo Silveira.

A conversa partiu de uma questão central: o Brasil enfrenta uma divergência jurídica administrável ou os primeiros movimentos de uma ruptura capaz de comprometer o processo eleitoral? Ao longo do programa, os participantes relacionaram a crise institucional às investigações do Banco Master, ao crescimento da extrema direita no ambiente digital e à pressão dos Estados Unidos sobre decisões estratégicas do Estado brasileiro.

As hipóteses formuladas durante o debate foram apresentadas como interpretações políticas das convidadas e dos comentaristas. Parte das acusações feitas contra autoridades, agentes econômicos e governos estrangeiros exige comprovação pelas instituições competentes e não foi tratada no programa como resultado de decisão judicial definitiva.

Luciana Bauer acusa Mendonça de atuar politicamente

Luciana Bauer afirmou que as decisões de André Mendonça precisam ser examinadas em relação à proximidade das eleições e à trajetória do ministro, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Na avaliação dela, a quantidade e a gravidade das possíveis irregularidades jurídicas apontadas na atuação do magistrado sugerem um objetivo político.

“Ao que tudo indica, o ministro Mendonça opera no campo puramente político. Ele há muito tempo desistiu do campo jurídico”, declarou.

A analista sustentou que o conflito não começou com as decisões mais recentes. Para ela, o bolsonarismo preservou posições dentro do Estado mesmo depois do fracasso da tentativa de golpe e da derrota eleitoral de Bolsonaro. Esses agentes continuariam presentes em órgãos do Judiciário, da Polícia Federal e de outras instituições.

“Nós debelamos o golpe, mas não debelamos todos os golpistas que foram colocados para esse esquema”, afirmou.

Luciana argumentou que as decisões atribuídas a Mendonça podem produzir nulidades capazes de comprometer investigações relevantes. Ela citou procedimentos relacionados ao Banco Master e às fraudes contra aposentados e pensionistas do Instituto Nacional do Seguro Social.

Em sua avaliação, o ministro teria retirado provas de seus procedimentos originais e concentrado documentos em seu gabinete, criando dúvidas sobre a preservação da cadeia de custódia. A afirmação foi apresentada durante o programa como uma interpretação jurídica de Luciana e não como conclusão definitiva do STF.

“As nulidades são tantas e batem tão de frente com a institucionalidade do Supremo que só pode ser um caso muito bem pensado para, a 30 dias da eleição, restabelecer o golpe que seu benfeitor Bolsonaro não conseguiu realizar”, acusou.

Ao responder a uma pergunta enviada pelo público, Luciana foi ainda mais direta: “Temos um agente do golpe nas eleições agora, 30 dias antes das eleições”.

Banco Master estaria no centro de uma disputa mais ampla

Luciana apresentou a hipótese de que o caso Banco Master ultrapassa os limites de uma investigação financeira convencional. Segundo ela, o modelo de funcionamento atribuído ao banco teria semelhanças com sistemas internacionais utilizados para movimentar recursos, financiar projetos políticos e estabelecer relações entre empresários, autoridades e organizações criminosas.

A analista citou os casos do Banco Ambrosiano e do Banco da Sicília como referências históricas de instituições financeiras envolvidas em redes de lavagem de dinheiro e relações com grupos mafiosos.

“A hipótese que tenho sobre o Master é que, quando Bolsonaro ascende ao poder, uma elite política associada ao crime organizado encontra formas de lavar dinheiro e de se perpetuar no poder”, afirmou.

Luciana associou esse processo à flexibilização dos mecanismos de controle durante o governo Bolsonaro e à gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central. Segundo ela, mudanças administrativas e regulatórias teriam criado um ambiente favorável ao crescimento do Banco Master.

Ela também relacionou o caso aos métodos empregados internacionalmente por organizações de extrema direita para financiar campanhas digitais, contratar estrategistas e manter recursos em paraísos fiscais. A analista mencionou o livro Moneyland para explicar como dinheiro de origem opaca pode atravessar fronteiras, influenciar eleições e sustentar projetos de poder.

Para Luciana, as investigações precisam esclarecer a extensão das relações políticas e econômicas do Banco Master. Ela observou que os fatos apurados não envolvem apenas o funcionamento de uma instituição financeira, pois podem revelar redes de financiamento e influência que atravessaram diferentes órgãos do Estado.

Gisele Agnelli alerta para vantagem digital de Flávio Bolsonaro

Gisele Agnelli concentrou sua análise no impacto da sucessão de escândalos sobre a opinião pública e as pesquisas eleitorais. Ela evitou discutir o mérito jurídico das decisões do STF e apresentou dados sobre o desempenho das campanhas no ambiente digital.

Segundo informações citadas por Gisele e atribuídas a um índice de monitoramento elaborado pelo Instituto Atlas em parceria analítica com o Ipespe, Flávio Bolsonaro alcançou 46 pontos no ambiente digital em agosto, contra 35 do Presidente Lula.

A metodologia apresentada no programa considera conversas sobre as campanhas, desempenho dos canais dos candidatos, menções feitas por influenciadores, tom das publicações e buscas realizadas na internet.

“O Flávio não está apenas produzindo mais atenção. Ele está conseguindo atravessar essas crises sem perder o domínio do ambiente digital”, avaliou.

Gisele destacou que Flávio sofreu desgaste após a divulgação dos áudios relacionados ao filme Dark Horse e às conversas com Daniel Vorcaro, mas recuperou espaço rapidamente. Mesmo diante das controvérsias envolvendo o Banco Master, a proporção de menções negativas ao candidato teria caído de 45% para 36%.

O Presidente Lula, por sua vez, ampliou alcance e volume de menções, mas chegou a 47% de negatividade no indicador citado pela analista. Para Gisele, parte do eleitorado associa diretamente Alexandre de Moraes ao governo Lula, ainda que o ministro do STF não seja integrante do Executivo ou da campanha presidencial.

A associação favorece a estratégia adversária de transferir para Lula o desgaste decorrente da crise do Supremo. Desse modo, decisões de Moraes, acusações contra o ministro e conflitos internos da Corte passam a ser utilizados para atingir eleitoralmente o Presidente.

Campanha da extrema direita foi concebida para as redes

Gisele identificou uma diferença importante entre as estratégias das principais candidaturas. A campanha de Lula mantém uma organização tradicional e incorpora ferramentas digitais. A de Flávio Bolsonaro, segundo ela, foi concebida prioritariamente para o ambiente digital e depois integrada à televisão e às atividades convencionais.

“A campanha do Lula é tradicional e também tem o digital. A de Flávio é totalmente voltada para o digital e agrega TV e campanha política tradicional”, explicou.

A extrema direita construiu uma rede de distribuição formada por influenciadores, lideranças religiosas, políticos e grupos fechados. Nesse circuito, a mensagem não chega ao eleitor apenas como propaganda oficial de uma candidatura. Ela é compartilhada por amigos, parentes, pastores ou pessoas consideradas confiáveis.

Uma peça publicada pelo comitê eleitoral tende a ser reconhecida como publicidade. Quando o mesmo conteúdo chega por meio de alguém próximo, pode ser recebido como recomendação pessoal ou confirmação de uma crença já existente.

“A mensagem recebida pelo eleitor, quando vem da campanha, é interpretada como propaganda. Quando vem de um amigo, de um pastor ou de uma pessoa próxima, funciona como validação social”, afirmou Gisele.

Ela observou que o PT investiu mais em impulsionamento até aquele momento, enquanto o PL combinou a comunicação oficial com uma rede de influenciadores e recortes preparados para circular espontaneamente. Os dados apresentados indicariam que essa segunda estratégia estava produzindo resultados melhores.

“Se a gente soma os políticos de direita, eles ganham com muita diferença da esquerda no engajamento”, alertou.

Esse desempenho ajuda a explicar, segundo Gisele, por que as controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro não provocaram uma queda duradoura e por que as simulações de segundo turno passaram a mostrar uma disputa mais apertada.

Extrema direita transformou grupos fechados em espaços de mobilização

Os participantes destacaram que a força digital da extrema direita não depende apenas de grandes perfis públicos. A circulação ocorre principalmente em comunidades fechadas, nas quais as pessoas compartilham valores, referências religiosas e identidades políticas.

Nesses espaços, acusações e versões parciais são repetidas até adquirirem aparência de consenso. Uma decisão judicial complexa pode ser reduzida a uma frase, uma imagem ou um vídeo curto, eliminando o contexto jurídico e facilitando sua utilização eleitoral.

Gisele afirmou que a extrema direita compreendeu melhor esse processo e desenvolveu formas de adaptar a comunicação a diferentes públicos. O resultado é uma campanha permanente, menos dependente do horário eleitoral ou das entrevistas concedidas pelos candidatos.

A estratégia também dificulta o enfrentamento público. Parte das mensagens circula em grupos de família, congregações religiosas e comunidades locais que não podem ser acompanhados por ferramentas convencionais de monitoramento.

Luciana relaciona bolsonarismo e lavajatismo

Luciana Bauer afirmou que o atual conflito no Supremo precisa ser analisado a partir da influência política da Operação Lava Jato sobre integrantes do sistema de Justiça e da Polícia Federal.

“O bolsonarismo é filho do lavajatismo. O lavajatismo está no centro dessa briga no Supremo”, declarou.

Segundo ela, práticas como produção de dossiês, vazamentos seletivos e investigações orientadas para provocar consequências políticas não desapareceram com o encerramento da operação. Esses métodos teriam sido incorporados por setores das instituições e continuariam sendo utilizados nas disputas atuais.

Luciana defendeu uma espécie de processo de transição democrática capaz de retirar agentes comprometidos com rupturas institucionais de posições sensíveis. Ela comparou o desafio brasileiro aos processos de desnazificação ocorridos na Europa depois da Segunda Guerra Mundial.

“Por que nós não fizemos uma justiça de transição para tirar todos os golpistas? Por que entramos no pensamento mágico de que uma simples decisão do Supremo contra uma cúpula retiraria o mal de uma tentativa de golpe?”, questionou.

A analista ponderou que uma ruptura não é construída apenas pelas principais lideranças. Ela depende de servidores, autoridades e setores sociais dispostos a reproduzir uma ideologia contrária ao regime democrático.

Defesa das instituições não significa apoio incondicional a ministros

Durante o debate, Reynaldo Aragon criticou setores da esquerda que passaram a tratar a defesa de Alexandre de Moraes como prioridade política, mesmo quando essa postura cria dificuldades para a campanha do Presidente Lula.

Segundo ele, é possível defender o STF, a Polícia Federal e as garantias constitucionais sem transformar qualquer autoridade em figura imune a críticas. A preservação institucional não exige apoio irrestrito às decisões individuais dos ministros.

“Tenho visto em grupos de WhatsApp da esquerda pessoas defendendo mais Alexandre de Moraes do que o Presidente Lula, a campanha e o projeto de governo do Presidente Lula”, afirmou.

Reynaldo defendeu que a esquerda separe a proteção das instituições da defesa pessoal de Moraes. Na avaliação dele, o centro da campanha precisa ser o projeto representado por Lula e sua participação na construção de uma ordem internacional multipolar.

“Perder o Presidente Lula neste momento não é perder apenas o Brasil. É um mundo democrático, livre e com uma nova governança global que perde com a derrota dele”, declarou.

O pesquisador também criticou a tentativa de destruir instituições sob o argumento de que precisam ser reformadas. Para ele, uma posição genuinamente conservadora deveria preservar os órgãos existentes, disputar seus rumos e corrigir suas falhas.

“Ser conservador é conservar as instituições. Você disputa e transforma, mas não destrói. O que Mendonça fez foi implodir uma instituição que, com todos os seus problemas, é uma das garantias da nossa soberania”, afirmou.

Pressão externa pode se alimentar da crise brasileira

Reynaldo relacionou o conflito institucional à construção, nos Estados Unidos, de uma narrativa que apresenta o Brasil como um país submetido a um sistema interno de vigilância.

Segundo ele, Alexandre de Moraes deixou de ser descrito apenas como símbolo de um suposto regime de censura e passou a ser associado à ideia de um “Estado profundo” brasileiro. Essa mudança poderia ser utilizada para justificar sanções, pressões diplomáticas e interferências sobre decisões do Judiciário.

“Isso deixa de ser apenas uma disputa em torno de decisões do Supremo e passa a criar terreno político para justificar pressão externa sobre o Brasil, sobre o Judiciário e, no limite, sobre a própria soberania nacional”, alertou.

Na avaliação do pesquisador, golpes contemporâneos não precisam começar com intervenção militar. A deterioração gradual da credibilidade das instituições, somada à disseminação da imagem de um país em colapso, pode abrir espaço para pressões externas apresentadas como necessárias.

Reynaldo ressaltou que a existência de vários fatores simultâneos não comprova um comando único. O risco estaria na convergência entre conflitos internos, interesses econômicos, operações informacionais, sanções e disputas eleitorais.

Brasil tornou-se estratégico para os Estados Unidos

A transmissão também discutiu os interesses econômicos e geopolíticos dos Estados Unidos no Brasil e na América Latina. Reynaldo afirmou que Washington procura manter acesso a reservas minerais, fontes de energia e mercados agrícolas num momento de perda relativa de influência internacional.

Ele recordou a decisão do primeiro governo Lula de rejeitar a Área de Livre Comércio das Américas, a Alca, em 2005. Também mencionou as negociações recentes sobre minerais críticos e a pressão para reduzir a participação chinesa em projetos brasileiros.

“Dominar o Brasil é uma garantia para os Estados Unidos tentarem manter sua influência por mais algum tempo num mundo em crise”, afirmou.

Reynaldo relacionou o interesse norte-americano ao crescimento das relações comerciais entre Brasil e China, à expansão do agronegócio brasileiro e ao papel do país no fornecimento de petróleo. Para ele, uma vitória de Lula representaria uma derrota política para Donald Trump porque preservaria a autonomia brasileira e sua participação no processo de formação de um mundo multipolar.

O pesquisador também alertou, como hipótese, para a possibilidade de incidentes de segurança nas fronteiras brasileiras serem explorados politicamente antes da eleição. Ele citou a presença militar norte-americana em países vizinhos e a situação da região da tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.

A hipótese não foi acompanhada, durante o programa, de documentos que demonstrassem a preparação concreta de uma operação. Foi apresentada como cenário de risco a ser acompanhado.

Data centers entram no debate sobre soberania

Na parte final do programa, Reynaldo criticou o modelo aprovado pelo Congresso para incentivar a instalação de data centers no Brasil. Ele considerou necessária a expansão da infraestrutura computacional, mas questionou a concessão de benefícios a grandes empresas estrangeiras sem garantias suficientes de soberania sobre dados, equipamentos e sistemas.

“Precisamos de data centers. Essas infraestruturas são fundamentais para a democracia, para a soberania e para o desenvolvimento. O que precisamos é ter soberania de fato sobre elas”, explicou.

Segundo o pesquisador, o país precisa controlar data centers, serviços de nuvem, fibras ópticas e redes de satélites para reduzir sua dependência tecnológica. Ele também cobrou que os projetos considerem consumo de energia, impacto ambiental e transição energética.

Reynaldo defendeu que o Presidente Lula vete o texto aprovado e proponha um modelo que utilize os recursos para desenvolver capacidade tecnológica nacional. Em sua avaliação, o programa, tal como aprovado, corre o risco de financiar infraestruturas controladas por empresas estrangeiras.

O pesquisador elogiou, por outro lado, o planejamento de dois supercomputadores no Brasil, um em Macaíba, no Rio Grande do Norte, e outro no Rio de Janeiro. Segundo ele, a utilização de fornecedores diferentes e de tecnologias abertas pode criar redundância e reduzir a dependência de um único país ou fabricante.

Próximas semanas exigirão estratégia

Os participantes concluíram que a crise institucional terá papel decisivo na reta final da campanha. As decisões do STF, as investigações da Polícia Federal e a cobertura dos grandes veículos serão utilizadas para construir narrativas eleitorais e influenciar eleitores pouco familiarizados com os detalhes jurídicos dos processos.

Gisele Agnelli ressaltou que as pesquisas devem ser observadas com atenção, especialmente porque o desempenho digital de Flávio Bolsonaro revela uma capacidade de recuperação maior do que a demonstrada por seus adversários.

Luciana Bauer defendeu uma reação institucional às decisões que considera ilegais e politicamente orientadas. Para ela, tratar o conflito como divergência rotineira entre ministros pode subestimar sua gravidade.

Reynaldo Aragon pediu que a campanha do Presidente Lula não perca o foco e que a esquerda evite transformar a defesa de autoridades do STF em seu principal tema eleitoral.

“O desafio é muito grande. As próximas semanas serão de guerra e precisamos agir com estratégia”, concluiu.

Referências

Moneyland: por que ladrões e trapaceiros controlam o mundo e como recuperar o controle, de Oliver Bullough

Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, mencionado no debate pela formulação sobre o “homem cordial”

Reflexões de Antonio Gramsci sobre a crise entre uma ordem que perdeu força e outra que ainda enfrenta obstáculos para surgir

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