Da Redação
A escalada das tensões entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo com a decisão do presidente norte-americano, Donald Trump, de ampliar e consolidar sua política tarifária contra produtos brasileiros. As novas medidas aprofundam um conflito que deixou de ser apenas comercial e passou a envolver disputas sobre tecnologia, soberania regulatória, política industrial e o espaço geopolítico ocupado pelo Brasil no cenário internacional.
As tarifas foram anunciadas no âmbito de investigações conduzidas pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da legislação comercial norte-americana. O governo Trump justificou a medida alegando supostas práticas comerciais consideradas desleais, incluindo questionamentos ao sistema brasileiro de pagamentos Pix, ao mercado de etanol, à proteção da propriedade intelectual, ao combate ao desmatamento e até decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas à regulação das plataformas digitais.
Brasil entra no centro da estratégia comercial norte-americana
As novas sobretaxas chegam a 25% para determinados produtos brasileiros e podem ser acumuladas com outra tarifa de 12,5% prevista em uma investigação paralela relacionada a cadeias produtivas e trabalho forçado, elevando a incidência total para até 37,5% em parte das exportações.
Segundo dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), cerca de 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos passam a ser diretamente atingidas pelas novas medidas. Ainda assim, aproximadamente 52,7% das vendas brasileiras permanecem fora das novas sobretaxas, incluindo produtos como café, carnes, aeronaves, celulose, frutas e suco de laranja.
Os segmentos mais afetados incluem máquinas e equipamentos, madeira, móveis, calçados, confecções, gorduras e óleos vegetais, além do açúcar, que enfrenta tributação específica.
Muito além das tarifas
Embora o discurso oficial norte-americano apresente a medida como resposta a supostos desequilíbrios comerciais, o embate ultrapassa questões tarifárias.
Entre os pontos criticados pelos Estados Unidos está o Pix, sistema de pagamentos instantâneos desenvolvido pelo Banco Central do Brasil. O relatório do USTR sustenta que o modelo brasileiro favoreceria injustamente esse sistema em relação a operadores privados internacionais, tema que passou a integrar a disputa comercial entre os dois países.
Também aparecem no relatório críticas relacionadas à política de etanol, à legislação anticorrupção brasileira, à propriedade intelectual e ao ambiente regulatório digital.
Governo brasileiro reage
A resposta do governo brasileiro tem combinado diplomacia, medidas de apoio aos setores produtivos e ações jurídicas internacionais.
Nesta semana, o Itamaraty formalizou um pedido de consultas aos Estados Unidos no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), argumentando que as novas tarifas violam compromissos multilaterais assumidos por Washington no âmbito do GATT e das regras da própria organização.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro mantém a possibilidade de utilizar a Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025, mas até o momento tem evitado uma resposta imediata baseada em retaliações tarifárias, priorizando negociações diplomáticas e mecanismos multilaterais.
Empresas também pressionam Washington
A ofensiva tarifária encontrou resistência não apenas no Brasil.
Durante a investigação conduzida pelo USTR, dezenas de empresas norte-americanas e multinacionais apresentaram manifestações contrárias à adoção das tarifas. Grandes grupos alertaram que a medida pode elevar custos de produção, pressionar preços para consumidores norte-americanos e provocar desorganização em cadeias globais de suprimentos.
Entidades empresariais brasileiras e norte-americanas também defenderam a manutenção do comércio bilateral e argumentaram que diversos setores estratégicos dos próprios Estados Unidos dependem de insumos produzidos no Brasil.
Disputa que mistura economia e geopolítica
A nova rodada do conflito ocorre em um momento de reorganização das cadeias globais de produção e de crescente utilização da política comercial como instrumento de pressão geopolítica.
Especialistas observam que, além da proteção da indústria norte-americana, as medidas adotadas pela administração Trump dialogam com uma estratégia mais ampla de reposicionamento econômico dos Estados Unidos diante da competição internacional e da disputa tecnológica entre grandes potências. Nesse contexto, temas como sistemas nacionais de pagamento, soberania digital, política industrial e autonomia regulatória passaram a integrar a agenda comercial internacional.
Enquanto as negociações seguem abertas, a tendência é que o contencioso entre Brasília e Washington continue sendo acompanhado de perto pelos setores exportadores, pelo mercado financeiro e pelos organismos multilaterais, tornando-se um dos principais focos das relações bilaterais entre os dois países nos próximos meses.


