Trump perde poder, mas mantém suas armas

A conquista da Câmara e do Senado pelos democratas altera profundamente a correlação de forças em Washington, amplia a fiscalização sobre Donald Trump e dificulta sua agenda legislativa. Entretanto, o presidente conserva importantes instrumentos de política externa, inclusive poderes sobre tarifas, sanções e decisões militares. Para o Brasil de Lula, a derrota republicana abre novas possibilidades de interlocução, mas não elimina automaticamente as pressões comerciais e geopolíticas americanas.

Da Redação

A derrota de Donald Trump nas eleições legislativas de 3 de novembro de 2026 inaugurou uma nova etapa na política americana e alterou as condições em que os Estados Unidos exercerão sua influência internacional. Pela primeira vez desde o início de seu segundo mandato, o presidente republicano terá de governar diante de um Congresso controlado integralmente pela oposição democrata, depois de uma votação que produziu mudanças expressivas na Câmara dos Representantes, no Senado e em estados historicamente conservadores. O resultado representa uma transformação institucional importante, mas seus efeitos sobre a política externa, as relações com o Brasil e a capacidade de ação presidencial exigem uma análise que ultrapasse a celebração da vitória eleitoral.

A conquista democrata das duas Casas foi confirmada pela Associated Press e pela Reuters na madrugada de quarta-feira, 4 de novembro. A oposição avançou em territórios que haviam apoiado Trump por margens expressivas em 2024, demonstrando o desgaste de uma administração pressionada pelo aumento do custo de vida, pela guerra contra o Irã e por questionamentos sobre a condução do governo. A derrota reduziu a capacidade republicana de controlar simultaneamente a elaboração das leis, a fiscalização parlamentar e a confirmação de autoridades federais.

Entretanto, os Estados Unidos não adotam um sistema parlamentarista, no qual a perda de maioria legislativa normalmente pode determinar a substituição do governo. Seu sistema presidencialista estabelece mandatos próprios para o Executivo e o Legislativo, permitindo que partidos diferentes controlem essas instituições. Trump continuará na Presidência até janeiro de 2029, exercendo competências constitucionais importantes, mesmo diante de uma oposição fortalecida.

Essa distinção foi destacada pela professora de Relações Internacionais Fernanda Medeiros, do Centro Universitário de Brasília, em entrevista publicada nesta quarta-feira pelo Brasil 247. A pesquisadora explicou que a vitória democrata amplia os mecanismos disponíveis para fiscalizar e limitar determinadas decisões presidenciais, mas ressaltou que o alcance efetivo dessas mudanças dependerá da atuação dos parlamentares. Também advertiu que o resultado não garante a redução das tarifas comerciais aplicadas contra produtos brasileiros nem uma transformação imediata das relações diplomáticas entre Brasília e Washington.

A análise parte de uma característica fundamental do sistema político americano: o presidente dispõe de instrumentos executivos que não dependem, em todas as circunstâncias, de aprovação legislativa prévia. Ordens executivas, regulamentos administrativos e competências delegadas pelo próprio Congresso permitem que a Casa Branca implemente diferentes políticas. Entretanto, essas decisões permanecem submetidas à Constituição, às leis existentes e ao controle judicial.

O alcance da nova maioria democrata será especialmente importante na elaboração da legislação federal. Para aprovar novas leis, o governo precisará negociar com uma Câmara e um Senado controlados por seus adversários. Propostas tributárias, modificações estruturais em programas governamentais e iniciativas que dependam de autorização legislativa enfrentarão obstáculos adicionais. A oposição poderá impedir a tramitação de determinadas medidas, exigir alterações e utilizar o processo orçamentário para negociar prioridades.

O controle do orçamento constitui um instrumento de grande importância. O Congresso participa da autorização de despesas e do financiamento de órgãos federais. Essa competência permite examinar programas governamentais, impor condições legais e discutir a utilização de recursos públicos. Entretanto, sua aplicação exige negociação entre as Casas e o Executivo, especialmente porque a aprovação de leis orçamentárias continua sujeita ao procedimento constitucional.

Nesse contexto, a nova composição poderá produzir tanto acordos quanto impasses. O presidente conserva o poder de veto sobre projetos aprovados pelo Congresso. Para superar esse veto, deputados e senadores precisam reunir dois terços dos votos em cada Casa, exigência superior à maioria simples que normalmente permite controlar os trabalhos legislativos. Portanto, a vitória democrata não autoriza concluir que a oposição poderá transformar livremente suas propostas em legislação.

O resultado mais imediato poderá aparecer na fiscalização parlamentar. As comissões da Câmara e do Senado possuem atribuições para realizar audiências, solicitar documentos e investigar diferentes atividades da administração federal. A nova maioria poderá examinar decisões relacionadas à guerra contra o Irã, à política comercial, à imigração, aos contratos governamentais e à atuação de autoridades indicadas por Trump.

Essa capacidade de fiscalização possui importância especial depois de dois anos em que o Partido Republicano controlou as duas Casas. A proximidade política entre a maioria parlamentar e a Casa Branca limitou determinadas iniciativas de investigação, embora não tenha eliminado divergências internas. Com a oposição no comando, as comissões poderão estabelecer prioridades diferentes e ampliar o escrutínio sobre decisões anteriormente menos examinadas.

O Senado exercerá um papel adicional na confirmação de autoridades. A Casa possui competência para aprovar numerosas indicações presidenciais, incluindo magistrados federais, embaixadores e dirigentes de departamentos governamentais. Uma maioria democrata poderá rejeitar nomes apresentados por Trump, exigir negociações e dificultar a ocupação de cargos estratégicos. Caso surja uma vaga na Suprema Corte, a capacidade de confirmação senatorial será particularmente relevante.

Esses mecanismos representam limites institucionais concretos, mas não eliminam a autoridade do Executivo sobre a condução cotidiana da administração federal. Trump continuará dirigindo departamentos, representando o país internacionalmente e utilizando instrumentos legais que foram atribuídos à Presidência ao longo de décadas.

Na política externa, essa divisão adquire importância ainda maior. O presidente americano possui competências próprias para negociar com outros governos, conduzir relações diplomáticas e administrar diferentes aspectos da segurança nacional. O Congresso exerce influência sobre tratados, financiamento, legislação comercial e fiscalização, mas não assume automaticamente a condução diplomática quando o partido governista perde sua maioria.

Foi precisamente esse ponto que Fernanda Medeiros enfatizou na entrevista ao Brasil 247. Para a professora, uma maioria democrata poderá ampliar a pressão sobre Trump, mas a Presidência continuará controlando instrumentos relevantes de política externa. A mudança dependerá da capacidade dos parlamentares de transformar suas posições em medidas institucionais efetivas.

O relacionamento com o Brasil permite compreender essas limitações de maneira concreta. Desde julho de 2026, produtos brasileiros enfrentam novas tarifas estabelecidas pela administração americana. Washington anunciou uma cobrança de 25% sobre determinados bens, alegando práticas comerciais desleais, além de outra tarifa de 12,5% relacionada a acusações sobre insuficiência de controles contra produtos associados ao trabalho forçado.

O governo brasileiro contestou os fundamentos dessas medidas e iniciou procedimentos de negociação e questionamento no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Brasília sustenta que as restrições prejudicam empresas, trabalhadores e consumidores e que determinadas acusações apresentadas pelos Estados Unidos não correspondem à realidade das políticas brasileiras.

A disputa possui consequências econômicas importantes. Tarifas podem reduzir a competitividade de produtos brasileiros no mercado americano, modificar decisões de compra e afetar cadeias produtivas. Seus efeitos variam conforme a capacidade de absorção dos custos por importadores e exportadores, a existência de fornecedores alternativos e as condições de demanda. Também podem atingir consumidores americanos, quando parte das tarifas é incorporada aos preços finais.

A Câmara e o Senado possuem competência constitucional sobre o comércio exterior e a tributação. Entretanto, ao longo do tempo, o Congresso americano aprovou leis que delegaram ao presidente poderes específicos para modificar tarifas em determinadas circunstâncias. Essa distribuição de autoridade significa que uma maioria legislativa contrária às medidas não poderá necessariamente eliminá-las por uma decisão política simples.

Para modificar de maneira duradoura determinados instrumentos comerciais, poderá ser necessária a aprovação de novas leis. Se Trump vetar essas propostas, os democratas precisarão reunir maiorias qualificadas para superar sua oposição. Também poderão utilizar audiências, investigações e procedimentos de fiscalização para examinar os fundamentos das tarifas e seus efeitos econômicos.

A alternativa consiste na negociação direta com a Casa Branca. Nesse aspecto, a derrota republicana pode modificar o ambiente político, porque o presidente terá de considerar o desgaste de sua administração e a reorganização do Congresso. Entretanto, não existe garantia de que escolherá reduzir tarifas ou abandonar instrumentos comerciais que considera importantes para sua estratégia.

Fernanda Medeiros chamou atenção para essa diferença entre possibilidade e consequência automática. A pesquisadora reconheceu que uma derrota legislativa expressiva pode ampliar incentivos para negociar políticas economicamente impopulares, mas observou que a decisão dependerá da interpretação de Trump e de seus interlocutores.

O Brasil já possui canais formais de negociação abertos. Em setembro, os dois governos estabeleceram um grupo de trabalho para discutir possíveis entendimentos comerciais, incluindo questões tarifárias e não tarifárias. A iniciativa surgiu depois de contatos entre Lula e Trump e de reuniões envolvendo representantes dos ministérios responsáveis pela diplomacia e pelo comércio exterior.

Nesta quarta-feira, o governo brasileiro informou que espera receber até o início da próxima semana uma proposta americana com os setores que Washington pretende incluir em eventual acordo comercial. Segundo o ministro da Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, o documento deverá indicar áreas de interesse dos Estados Unidos, permitindo que o Brasil elabore uma contraproposta.

Esse desenvolvimento demonstra que a negociação bilateral possui dinâmica própria, paralela à reorganização do Congresso americano. O resultado eleitoral poderá influenciar o ambiente político das conversas, mas os interesses comerciais continuarão sendo definidos por empresas, setores produtivos, autoridades governamentais e instrumentos jurídicos específicos.

O principal desafio brasileiro será preservar sua capacidade de negociação sem aceitar compromissos incompatíveis com suas prioridades de desenvolvimento. Um acordo comercial pode criar oportunidades de acesso a mercados e investimentos, mas também pode envolver concessões sobre tarifas, regras técnicas e setores industriais sensíveis. A avaliação precisa considerar os efeitos sobre emprego, produção nacional, arrecadação e competitividade.

A política comercial constitui apenas uma das dimensões da relação entre Brasília e Washington. Tecnologia, defesa, infraestrutura digital, energia, recursos naturais e segurança regional também participam das negociações. Em diferentes áreas, os Estados Unidos possuem interesses estratégicos que podem permanecer relativamente estáveis apesar da alternância partidária no Congresso.

Essa continuidade decorre das características estruturais da política externa americana. O país mantém compromissos militares internacionais, grandes empresas com presença global, alianças diplomáticas e instituições que atuam para preservar interesses considerados permanentes. Governos republicanos e democratas apresentam diferenças importantes, mas também compartilham determinadas prioridades relacionadas à competição tecnológica, à segurança e à influência internacional.

Por essa razão, não seria correto interpretar a vitória democrata como garantia de abandono das pressões americanas sobre países latino-americanos. Parlamentares democratas podem divergir de Trump sobre métodos e objetivos específicos, mas determinadas posições sobre segurança regional, comércio e competição geopolítica atravessam as duas grandes organizações partidárias.

O Brasil terá de acompanhar a nova composição parlamentar de maneira cuidadosa, identificando interlocutores em diferentes comissões e áreas de interesse. A diplomacia presidencial permanece importante, mas o relacionamento entre os países envolve também o Congresso, agências reguladoras, administrações estaduais e representantes empresariais.

A derrota de Trump poderá ampliar a diversidade de canais políticos disponíveis ao governo brasileiro. Uma Câmara e um Senado controlados pelos democratas poderão oferecer espaços adicionais para discutir barreiras comerciais, mecanismos de cooperação científica e consequências econômicas de determinadas decisões americanas. Entretanto, a existência desses canais não garante convergência automática com as prioridades brasileiras.

O mesmo raciocínio se aplica à guerra contra o Irã. A nova maioria poderá ampliar a fiscalização das operações militares, questionar despesas e examinar a fundamentação jurídica de decisões presidenciais. O Congresso possui competências relacionadas ao financiamento das Forças Armadas e aos procedimentos legislativos referentes ao emprego militar. Contudo, o presidente continua exercendo a função constitucional de comandante em chefe.

Uma tentativa de restringir operações militares poderá enfrentar resistência presidencial, disputas judiciais e a necessidade de reunir maiorias legislativas suficientes. A mudança no Congresso amplia mecanismos de controle, mas não permite afirmar que a guerra será encerrada automaticamente ou que a administração abandonará suas prioridades estratégicas.

Essa distinção revela um dos aspectos mais importantes da eleição americana. O resultado modificou a distribuição institucional do poder, mas não eliminou a estrutura de interesses econômicos, militares e tecnológicos que influencia a política externa dos Estados Unidos. O novo Congresso poderá alterar decisões e ampliar o debate público, mas sua atuação ocorrerá dentro de instituições que preservam competências e interesses próprios.

Para os países do Sul Global, a consequência mais relevante poderá ser a abertura de novas possibilidades de negociação em um ambiente de maior disputa política interna americana. Entretanto, essas oportunidades precisarão ser avaliadas segundo as condições concretas de cada relação bilateral, sem pressupor que divergências partidárias em Washington representem automaticamente mudanças favoráveis aos interesses de outras nações.

A derrota republicana também poderá modificar a atenção dedicada pela Casa Branca a temas internacionais. Governos pressionados internamente podem procurar concentrar esforços em questões domésticas, mas também podem utilizar conflitos externos e iniciativas diplomáticas para demonstrar capacidade de liderança. Não existe uma relação automática entre desgaste eleitoral e redução da atuação internacional.

A professora Fernanda Medeiros destacou essa incerteza ao considerar as possibilidades para os dois anos finais do mandato. Segundo sua análise, o cenário dependerá da postura assumida por Trump e da disposição dos democratas de utilizar os instrumentos conquistados. A nova maioria parlamentar poderá ampliar a fiscalização e as negociações, mas suas consequências concretas ainda não estão determinadas.

O resultado eleitoral também apresenta desafios para os próprios democratas. A oposição conquistou poder institucional em uma sociedade marcada por insatisfação econômica e divergências políticas profundas. Os eleitores que promoveram a mudança esperam respostas para questões relacionadas a preços, emprego, saúde e condições de vida. A capacidade de fiscalizar Trump não será suficiente, por si só, para resolver essas demandas.

A nova maioria precisará apresentar prioridades legislativas e negociar sua execução em um sistema que continua submetido ao poder de veto presidencial. A diferença entre controlar o Congresso e controlar o conjunto da política econômica será uma das principais características do período iniciado pela eleição.

Para o Brasil, a experiência oferece uma lição institucional importante: a capacidade de negociar com uma potência estrangeira não deve depender exclusivamente da identidade de seu presidente ou da composição partidária de seu Parlamento. Relações econômicas e diplomáticas sustentáveis exigem estratégia de Estado, diversificação de parceiros, conhecimento técnico e continuidade de políticas nacionais.

O governo Lula terá de avaliar as oportunidades abertas pela reorganização de Washington sem abandonar as iniciativas de diversificação econômica internacional. A ampliação das relações com países da América Latina, integrantes dos BRICS, economias asiáticas, africanas e europeias constitui parte de uma estratégia destinada a reduzir vulnerabilidades decorrentes da concentração de mercados e fornecedores.

Essa diversificação não significa romper relações com os Estados Unidos. A economia americana permanece importante para empresas brasileiras, investimentos e cooperação tecnológica. O objetivo de uma política externa orientada à autonomia consiste em ampliar alternativas e preservar capacidade de negociação, evitando dependência excessiva de decisões tomadas fora do território nacional.

A disputa comercial de 2026 demonstra a importância dessa capacidade. Tarifas impostas por uma grande economia podem afetar empresas e trabalhadores em outros países mesmo quando não existe uma relação direta entre as justificativas políticas apresentadas e as atividades econômicas atingidas. A existência de mercados alternativos, fornecedores diversificados e instrumentos de financiamento pode reduzir parte dessas vulnerabilidades.

O governo brasileiro também poderá utilizar mecanismos multilaterais para contestar medidas consideradas incompatíveis com compromissos internacionais. A participação na Organização Mundial do Comércio e em outros organismos permite apresentar argumentos jurídicos, solicitar consultas e procurar soluções negociadas. A eficácia desses instrumentos depende das regras existentes, da colaboração das partes e das condições políticas internacionais.

A nova composição do Congresso americano poderá influenciar esse ambiente, mas a decisão de modificar políticas específicas continuará condicionada a negociações e disputas institucionais. O resultado das urnas representa uma alteração importante, não uma garantia de convergência diplomática.

A questão fundamental está na diferença entre enfraquecimento político e perda de capacidade estatal. Trump sofreu uma derrota eleitoral relevante e passará a enfrentar controles legislativos mais intensos. Entretanto, continuará comandando a administração federal, dirigindo a política externa e utilizando instrumentos executivos previstos na legislação. Sua capacidade de ação será condicionada por uma nova correlação de forças, não simplesmente anulada.

Para os democratas, o desafio será transformar maiorias parlamentares em atuação institucional efetiva. Para a Casa Branca, será necessário administrar um ambiente em que decisões legislativas dependerão de negociações mais complexas. Para países como o Brasil, o momento exige acompanhar essas mudanças com atenção aos interesses econômicos e diplomáticos concretos.

A vitória democrata nas eleições de 3 de novembro modificou profundamente a política americana, mas não transferiu o controle da Presidência nem eliminou os instrumentos de poder disponíveis a Donald Trump. A nova maioria poderá investigar, bloquear indicações, fiscalizar despesas e dificultar projetos legislativos, enquanto o Executivo continuará exercendo competências importantes em comércio, segurança e relações internacionais. Para o Brasil, o resultado pode abrir novos canais de interlocução e ampliar a pressão política contra tarifas e medidas unilaterais, mas a redução dessas restrições dependerá de negociações e decisões específicas. A oportunidade estratégica consiste em utilizar a nova conjuntura para fortalecer a capacidade brasileira de negociação, preservar sua autonomia e ampliar alternativas de desenvolvimento em um sistema internacional cuja distribuição de poder permanece em transformação.