Da Redação
Presidente norte-americano publicou uma classificação na qual aparece sozinho no nível máximo da história presidencial dos Estados Unidos. Lincoln, Washington e Franklin Roosevelt ficaram abaixo dele, enquanto Obama e Biden foram classificados como “fracassos”. Levantamentos acadêmicos especializados, porém, chegaram a uma conclusão radicalmente diferente sobre seu primeiro mandato.
Donald Trump voltou a transformar sua própria figura em tema central da política norte-americana. Nesta quinta-feira (27), o presidente dos Estados Unidos publicou na Truth Social uma classificação dos ocupantes da Casa Branca na qual se apresenta, sozinho, como o “maior” presidente da história do país, colocando-se acima de personagens como Abraham Lincoln, George Washington e Franklin D. Roosevelt.
A imagem compartilhada por Trump organiza os presidentes em seis categorias, que vão de “The Greatest” — “O Maior” — até “Failures”, ou “Fracassos”. No topo há apenas um nome: Donald Trump. Logo abaixo, na categoria “Great”, aparecem Abraham Lincoln, George Washington, Franklin D. Roosevelt, Woodrow Wilson, Thomas Jefferson e Andrew Jackson. Theodore Roosevelt, Grover Cleveland, John Adams e James K. Polk foram colocados entre os “quase grandes”, enquanto Bill Clinton aparece entre os presidentes considerados medianos.
Na extremidade inferior da classificação aparecem dois adversários políticos contemporâneos de Trump: Barack Obama e Joe Biden. Ambos foram colocados entre os “fracassos”, juntamente com Jimmy Carter, Ulysses S. Grant e Warren Harding. A lista, porém, está longe de ser completa: apresenta apenas 34 presidentes e deixa de fora nomes historicamente importantes, entre eles Ronald Reagan, Dwight Eisenhower, John F. Kennedy, Richard Nixon, George H.W. Bush e George W. Bush.
O mais curioso é a origem do quadro. Segundo a RT, a imagem aparentemente deriva de uma classificação histórica publicada pela revista LIFE em 1948, baseada num levantamento conduzido pelo historiador de Harvard Arthur Schlesinger Sr. com 55 especialistas em história norte-americana. A estrutura original dividia os presidentes entre “grandes”, “quase grandes”, “medianos”, “abaixo da média” e “fracassos”. A versão divulgada por Trump foi modificada, incorporando presidentes posteriores e acrescentando uma nova categoria acima de todas as outras justamente para colocar o atual ocupante da Casa Branca isoladamente no topo.
A publicação aconteceu depois que a CNN apresentou uma pesquisa da Elon University sobre a relação dos republicanos com seus presidentes históricos. Nesse levantamento, 53% dos republicanos entrevistados apontaram Trump como o presidente republicano que mais admiram, muito acima de Ronald Reagan, citado por 18%, e Abraham Lincoln, mencionado por 8%. O analista Harry Enten, da CNN, chamou atenção para a dimensão da vantagem de Trump dentro do eleitorado partidário.
Esse dado ajuda a explicar a publicação. Mais do que uma discussão acadêmica sobre história presidencial, o quadro divulgado por Trump funciona como uma representação da posição que ele ocupa dentro do Partido Republicano contemporâneo. Sua influência sobre a legenda e sobre uma parcela expressiva do eleitorado conservador norte-americano é distinta da avaliação que historiadores e cientistas políticos fazem de seu desempenho presidencial.
E é justamente quando se compara essas duas dimensões que surge o aspecto mais interessante da história.
O Presidential Greatness Project, levantamento acadêmico coordenado pelos cientistas políticos Brandon Rottinghaus e Justin Vaughn, chegou a um resultado praticamente inverso ao quadro publicado pelo próprio Trump. Na edição de 2024, 154 especialistas em política presidencial foram convidados a avaliar os presidentes numa escala de zero a cem. Trump recebeu 10,92 pontos e ficou em 45º lugar, na última posição. Abraham Lincoln liderou o levantamento com 95,03 pontos, seguido por Franklin D. Roosevelt, com 90,83, e George Washington, com 90,32.
Portanto, existem aqui duas coisas completamente diferentes que não devem ser confundidas. A classificação publicada por Trump é uma peça escolhida e divulgada pelo próprio presidente, sem metodologia acadêmica apresentada. O Presidential Greatness Project é uma pesquisa entre especialistas, com metodologia explicitada e resultados publicados posteriormente em periódico acadêmico. Nenhuma dessas classificações constitui uma medida objetiva e definitiva de quem foi “o melhor presidente” da história — avaliações históricas dependem dos critérios utilizados e podem mudar ao longo do tempo —, mas somente a segunda resulta de um levantamento sistemático entre especialistas.
O estudo acadêmico é particularmente interessante porque avaliou também o efeito da orientação política dos participantes. Embora diferenças ideológicas tenham produzido variações importantes em determinados casos, Trump permaneceu no grupo inferior mesmo quando os pesquisadores separaram os especialistas por orientação. O levantamento mostrou, portanto, que a avaliação negativa não desaparecia simplesmente quando eram observados especialistas conservadores.
Há outro elemento importante. Rankings presidenciais não são fotografias permanentes da história. Presidentes sobem e descem conforme novas pesquisas aparecem, documentos são abertos e os critérios utilizados pelos historiadores mudam. No levantamento de 2024, por exemplo, Barack Obama alcançou a sétima posição, enquanto Ulysses S. Grant chegou à 17ª. Andrew Jackson, por outro lado, caiu significativamente em comparação com pesquisas anteriores.
Isso acontece porque a reputação histórica de um presidente é continuamente reconstruída. Políticas econômicas, guerras, direitos civis, corrupção, funcionamento das instituições, capacidade administrativa e consequências de longo prazo são reinterpretadas por gerações posteriores. Um presidente extremamente popular entre seus contemporâneos pode ser reavaliado décadas depois, assim como governantes criticados em seu próprio tempo podem ter aspectos de suas administrações reconsiderados.
Trump apresenta uma dificuldade adicional para qualquer avaliação histórica definitiva: sua presidência ainda está acontecendo.
O levantamento de 2024 avaliou essencialmente o legado de seu primeiro mandato, encerrado em janeiro de 2021. Trump retornou à Casa Branca em janeiro de 2025 e está atualmente em seu segundo mandato. Isso significa que qualquer classificação histórica produzida antes de sua volta ao poder necessariamente não incorpora as consequências completas da atual administração. A própria publicação acadêmica do Presidential Greatness Project, divulgada em abril de 2026, analisa os resultados da pesquisa realizada em 2024.
O contraste entre a percepção de Trump dentro de sua base política e sua avaliação entre especialistas também ajuda a explicar uma característica central da política norte-americana atual. Para milhões de republicanos, Trump não é simplesmente mais um presidente conservador: tornou-se a principal referência política do partido. A pesquisa da Elon University citada pela CNN, na qual ele aparece muito à frente de Reagan entre os presidentes republicanos mais admirados, é uma expressão dessa transformação.
Isso não equivale, entretanto, a um consenso da sociedade norte-americana. Pesquisas nacionais de aprovação medem outra coisa — a avaliação contemporânea do exercício do cargo — e mostram um país profundamente dividido em relação ao presidente. Uma pesquisa do Pew Research Center realizada entre 6 e 12 de julho de 2026 mostrou níveis muito elevados de aprovação de Trump entre os segmentos republicanos mais conservadores, ao mesmo tempo em que registrou queda em relação ao início do segundo mandato.
A publicação desta semana é reveladora justamente porque mistura essas diferentes dimensões: história, comunicação política e identidade partidária. Trump não está esperando que historiadores decidam qual será seu lugar na memória norte-americana. Ele procura construir publicamente sua própria interpretação de sua presidência enquanto ainda exerce o poder.
Nesse sentido, colocar-se acima de Lincoln e Washington possui enorme força simbólica. Washington ocupa um lugar fundador na história dos Estados Unidos. Lincoln conduziu o país durante a Guerra Civil e tornou-se associado à preservação da União e à abolição constitucional da escravidão. Franklin Roosevelt comandou os Estados Unidos durante a Grande Depressão e a maior parte da Segunda Guerra Mundial.
Trump decidiu colocar todos eles abaixo de si.
A história acadêmica disponível, pelo menos até agora, oferece uma leitura bastante diferente. O levantamento especializado mais conhecido citado na própria cobertura da RT coloca Lincoln no topo e Trump no extremo oposto.
Mas talvez o aspecto politicamente mais significativo da publicação não esteja em descobrir quem ocupa a primeira ou a última posição de uma tabela. Está no fato de que Donald Trump, em pleno segundo mandato, decidiu transformar sua posição na história em parte de sua comunicação política presente.
Ao se proclamar o maior presidente que os Estados Unidos já tiveram, Trump não está apenas disputando aprovação.
Está disputando antecipadamente a narrativa sobre seu próprio legado.
E essa disputa continuará muito depois de sua saída da Casa Branca, quando historiadores tiverem distância temporal suficiente para avaliar não apenas seu primeiro mandato, mas também as consequências institucionais, econômicas, sociais e internacionais de sua segunda passagem pela Presidência.
Até lá, permanecem duas imagens radicalmente diferentes: na classificação compartilhada por Donald Trump, ele aparece sozinho no topo; no Presidential Greatness Project de 2024, ficou sozinho na última posição, com 10,92 pontos em 100.
Entre uma imagem e outra existe algo maior do que uma simples divergência sobre presidentes.
Existe a batalha pela memória política dos Estados Unidos.


