Da Redação
A área técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não identificou, no canal de WhatsApp “Exército do Lula”, as publicações com informações falsas apontadas pela campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para justificar o pedido de suspensão do espaço. A conclusão consta de um relatório da Assessoria Especial de Enfrentamento à Desinformação, elaborado a pedido do presidente da Corte, ministro Kassio Nunes Marques, e divulgado nesta segunda-feira (12).
Segundo a análise técnica, não foram encontradas, entre 2 e 11 de outubro, reproduções das afirmações questionadas pela campanha do senador. O resultado contraria um dos principais argumentos usados para justificar a ordem de suspensão do canal, administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) e utilizado para mobilizar apoiadores do Presidente Lula no segundo turno.
A equipe examinou mensagens, textos, prévias de links, títulos e miniaturas de vídeos vinculados às publicações, além de áudios que puderam ser transcritos. O relatório ressalva, porém, que parte do conteúdo divulgado anteriormente foi apagada e que nem todos os vídeos puderam ser integralmente analisados. Por isso, a conclusão se limita ao material que a equipe conseguiu examinar, no período delimitado.
Denúncia de Flávio citava benefícios sociais e acusações contra o senador
A campanha de Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral alegando que o canal era utilizado para disseminar desinformação contra o candidato. Entre os exemplos apresentados estavam afirmações de que o senador reduziria aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), cancelaria o reajuste do Bolsa Família, teria envolvimento com milícias ou defenderia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Com base nessas acusações, Flávio pediu a suspensão do canal e de um perfil associado a Janones, além da remoção de publicações e da interrupção de impulsionamentos eleitorais. A ação também atribui ao deputado a organização de uma estrutura coordenada de mobilização digital e busca responsabilizar o Presidente Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin, sob a alegação de que teriam conhecimento da operação e se beneficiariam dela.
O relatório técnico, entretanto, não localizou no período examinado as reproduções das afirmações indicadas pela campanha. A constatação enfraquece o fundamento específico usado para sustentar que esses conteúdos continuavam circulando no canal, mas não encerra a investigação judicial nem resolve todas as alegações apresentadas na ação.
Relatório aponta mobilização coordenada e linguagem polarizadora
Embora não tenha encontrado as publicações apontadas como falsas, a equipe técnica identificou características da operação que considera relevantes para a avaliação dos riscos eleitorais. O documento menciona a concentração da administração em um único responsável, o envio de orientações sincronizadas para os participantes e a capacidade de mobilizar grandes volumes de compartilhamentos em curto período.
O canal também utiliza expressões como “missões”, “soldados” e “exército” para convocar apoiadores a divulgar conteúdos. De acordo com a análise, esse padrão de comunicação, associado à linguagem polarizadora, pode estimular uma lógica de confronto entre grupos políticos. A equipe, contudo, não equiparou essas características à comprovação de que as informações falsas denunciadas por Flávio tenham sido publicadas no espaço.
O relatório também registra limitações para reconstruir o histórico completo das mensagens. Parte das publicações de setembro havia sido apagada, o que impediu uma verificação integral de conteúdos anteriores ao período analisado. A distinção é relevante porque a ausência de determinadas postagens entre 2 e 11 de outubro não permite afirmar que nenhum conteúdo irregular tenha circulado em qualquer momento anterior.
Decisões divergentes provocam disputa dentro do TSE
A divulgação do relatório ocorre após uma sequência de decisões divergentes sobre o funcionamento do canal. No domingo (11), Kassio Nunes Marques determinou a suspensão do “Exército do Lula”, atendendo ao pedido da campanha de Flávio Bolsonaro. A ordem previa a interrupção das publicações e da entrada de novos participantes.
Horas depois, o corregedor-geral eleitoral e relator da ação, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, derrubou a determinação e restabeleceu o funcionamento do canal. Cueva considerou insuficientes os elementos apresentados para justificar uma medida tão abrangente e encaminhou a questão para apreciação do plenário do tribunal. O restabelecimento não autorizou a republicação de conteúdos falsos já examinados pela Justiça Eleitoral.
A divergência colocou em discussão os critérios para restringir ferramentas inteiras de comunicação política durante a campanha. De um lado, a campanha de Flávio sustenta que a mobilização coordenada pode servir à disseminação de desinformação e ao abuso dos meios de comunicação. De outro, a análise técnica não encontrou, no período verificado, as afirmações específicas que fundamentaram o pedido de suspensão.
Canal ultrapassa 3 milhões de participantes
O “Exército do Lula” cresceu rapidamente após o primeiro turno e ultrapassou 3 milhões de participantes. A estrutura é utilizada para distribuir materiais de campanha e orientar apoiadores sobre como ampliar a circulação de conteúdos em redes sociais e aplicativos de mensagens.
A dimensão do canal é um dos fatores que aparecem no relatório técnico como motivo de atenção, em razão do potencial de disseminação rápida de mensagens. Esse alcance, por si só, não comprova a prática de irregularidades, assim como a ausência das publicações específicas identificadas pela campanha de Flávio não elimina a necessidade de examinar eventuais conteúdos ilícitos que venham a ser apresentados.
A ação eleitoral continua em tramitação no TSE. O relatório da área técnica servirá como subsídio para as próximas decisões, mas caberá à Justiça Eleitoral avaliar as provas, as manifestações dos envolvidos e a proporcionalidade de eventuais medidas. Até o momento, a análise técnica não confirmou a circulação, no período examinado, das fake news específicas apontadas pela campanha do senador.
Robôs e disparos em massa marcaram campanhas de Bolsonaro
O uso de redes coordenadas para impulsionar conteúdos políticos já esteve no centro de denúncias envolvendo Jair Bolsonaro. Em 2018, reportagem da Folha de S.Paulo revelou a contratação de disparos em massa pelo WhatsApp contra o então candidato Fernando Haddad (PT), com suspeitas de financiamento empresarial irregular. Em 2019, o UOL identificou que grupos e contas associados à disseminação de mensagens pró-Bolsonaro continuavam ativos após a eleição.
A CPMI das Fake News também investigou redes de perfis falsos e contas automatizadas usadas para promover pautas bolsonaristas e atacar adversários e instituições. Esses precedentes reforçam a importância de aplicar critérios iguais a diferentes campos políticos. No caso do “Exército do Lula”, porém, a área técnica do TSE informou que não encontrou, no período analisado, as publicações específicas apontadas por Flávio Bolsonaro como falsas.
Entenda a disputa pelo canal Exército do Lula
O Instagram da Atitude Popular publicou uma análise rápida sobre a disputa judicial envolvendo o canal de WhatsApp “Exército do Lula”. O conteúdo explica a decisão que determinou a retirada do canal do ar e sua rápida reversão, que permitiu a continuidade do funcionamento do espaço.
A sequência de decisões gerou insegurança entre participantes do canal e impulsionou a migração de usuários para o canal oficial do Presidente Lula. A análise apresenta os principais acontecimentos e ajuda a compreender os desdobramentos da disputa na Justiça Eleitoral.
Exército de Lula: canal de André Janones no WhatsApp
Para acompanhar as publicações, basta acessar o endereço do canal e selecionar a opção para segui-lo no WhatsApp.


