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Varoufakis alerta: guerra contra o Irã expõe colapso neoliberal dos EUA

Da Redação

O economista Yanis Varoufakis afirma que a guerra contra o Irã revela o esgotamento do modelo neoliberal liderado pelos Estados Unidos. Segundo ele, a escalada militar expõe a fragilidade de economias desindustrializadas e pode desencadear uma crise energética e financeira com impactos globais.

A escalada militar envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã está produzindo efeitos que vão muito além do campo de batalha. Para o economista grego Yanis Varoufakis, o conflito revela algo mais profundo: o esgotamento estrutural do modelo neoliberal que dominou o Ocidente nas últimas décadas. Em entrevista recente ao jornalista Glenn Greenwald, o ex-ministro afirmou que a guerra expõe as contradições de um sistema econômico baseado na financeirização, na desindustrialização e na dependência de cadeias globais de suprimento cada vez mais vulneráveis.

Segundo Varoufakis, a crença de que os Estados Unidos poderiam manter sua hegemonia global apoiados principalmente em mercados financeiros, plataformas tecnológicas e superioridade militar começou a mostrar limites claros em conflitos prolongados. Ele argumenta que guerras modernas exigem capacidade industrial robusta, controle de cadeias produtivas e autonomia tecnológica, elementos que foram progressivamente enfraquecidos nas economias ocidentais após décadas de políticas neoliberais.

O economista observa que o Ocidente promoveu, desde os anos 1980, um processo intenso de desindustrialização. Grande parte da produção foi deslocada para países asiáticos enquanto as economias centrais passaram a depender cada vez mais do setor financeiro e da economia digital. Essa transformação foi vista por décadas como sinal de modernização econômica. No entanto, conflitos geopolíticos de grande escala tendem a recolocar no centro da estratégia internacional a capacidade produtiva real de um país.

Na visão de Varoufakis, a guerra atual evidencia essa fragilidade estrutural. O Irã, apesar de sofrer sanções severas por décadas, desenvolveu capacidades militares assimétricas e redes industriais adaptadas à guerra prolongada. Isso teria surpreendido parte da estratégia ocidental, que entrou no conflito com confiança de que poderia manter controle total sobre a escalada militar. A resposta iraniana, que inclui ataques a bases militares e infraestrutura energética na região, demonstra que o conflito pode rapidamente gerar custos econômicos e estratégicos muito maiores do que o previsto inicialmente.

O economista também sustenta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pode ter caído em uma armadilha estratégica ao se envolver em uma guerra sem uma estratégia clara de saída. Para Varoufakis, conflitos desse tipo tendem a produzir ciclos de escalada que ampliam custos militares, pressionam mercados de energia e desestabilizam a economia global.

Um dos efeitos imediatos apontados por analistas econômicos é o impacto sobre os preços do petróleo e a inflação global. A guerra no Oriente Médio ocorre em uma região que concentra algumas das principais rotas energéticas do planeta. Qualquer ameaça ao fluxo de petróleo no Golfo Pérsico pode provocar choques de preços capazes de afetar toda a economia mundial. Economistas alertam que a volatilidade energética pode gerar um cenário de estagflação, combinação de inflação elevada com crescimento econômico fraco.

Para Varoufakis, esse risco revela o caráter sistêmico da crise. Ele afirma que o neoliberalismo construiu uma economia global extremamente dependente de fluxos financeiros e cadeias de suprimento dispersas, mas sem garantir resiliência industrial suficiente para enfrentar choques geopolíticos. Quando conflitos militares atingem regiões estratégicas, como o Oriente Médio, as fragilidades desse modelo tornam-se imediatamente visíveis.

Outro ponto central da crítica do economista é o uso recorrente de narrativas humanitárias para justificar intervenções militares. Ele rejeita a ideia de que guerras conduzidas por potências ocidentais possam promover democracia ou direitos humanos. Em uma das passagens mais citadas da entrevista, Varoufakis afirma que as mulheres iranianas não precisam de “bombas lançadas por caças estrangeiros” para conquistar liberdade, criticando a instrumentalização política dessas causas.

Apesar das críticas duras ao Ocidente, Varoufakis também afirma não ter simpatia pelo regime iraniano. Ele descreve o governo de Teerã como autoritário, mas argumenta que a demonização absoluta do país ignora a história de intervenções externas na região e a complexidade política interna do Irã. Para ele, a escalada militar atual apenas agrava tensões históricas e fortalece dinâmicas autoritárias tanto no Oriente Médio quanto no próprio Ocidente.

A avaliação do economista insere o conflito em uma transformação mais ampla da ordem mundial. Ao mesmo tempo em que a guerra ameaça desestabilizar mercados de energia e cadeias comerciais, ela também expõe mudanças profundas na distribuição global de poder econômico e tecnológico. Países que mantiveram capacidade industrial significativa, especialmente na Ásia, tendem a ganhar vantagem em um cenário internacional cada vez mais marcado por competição geopolítica e crises sistêmicas.

Nesse sentido, Varoufakis conclui que o conflito não deve ser interpretado apenas como uma guerra regional. Para ele, trata-se de um sintoma de uma transição histórica mais profunda, na qual o modelo neoliberal que estruturou a economia global desde o final da Guerra Fria começa a mostrar sinais de esgotamento diante de um mundo cada vez mais fragmentado, industrialmente competitivo e geopoliticamente instável.