Atitude Popular

Venezuela em estado de defesa: como Maduro reforça Exército e Milícia para proteger a soberania bolivariana

Da Redação

Diante da escalada militar dos EUA no Caribe e de operações encobertas na região, Caracas lançou uma mobilização nacional: exercícios, doutrina de defesa territorial, integração milícia-exército, aquisição de sistemas antiaéreos e uma estratégia híbrida para resistir a qualquer tentativa de coerção externa ou mudança de regime.

1. O novo contexto geopolítico e a escalada militar dos EUA

Em 26 de outubro de 2025, a Venezuela se encontra em um dos momentos mais tensos de sua história recente. O aumento da presença de forças navais e aéreas dos Estados Unidos na região do Caribe, os exercícios militares realizados próximos às águas venezuelanas e as operações de inteligência contra aliados de Caracas despertaram alertas máximos no alto comando bolivariano.

Para o governo de Nicolás Maduro, o cerco não é apenas militar — é político, econômico e psicológico. As sanções impostas por Washington e seus aliados europeus, combinadas com a guerra informacional nas redes, configuram uma ofensiva híbrida cujo objetivo seria sufocar a Revolução Bolivariana e abrir caminho para uma transição de regime.


2. Reestruturação das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB)

Desde o início de 2025, a Venezuela vem passando por uma profunda reestruturação de sua defesa. O Exército, a Força Aérea, a Marinha e a Guarda Nacional Bolivariana foram reorganizados para formar um comando conjunto de prontidão permanente.

Essa estrutura se apoia em quatro eixos principais:

  1. Defesa territorial descentralizada – divisão do país em “Zonas de Defesa Integral” (ZODI), cada uma com autonomia logística e operacional.
  2. Integração da Milícia Bolivariana – os milicianos, antes com papel simbólico, agora atuam como força auxiliar permanente.
  3. Autossuficiência logística – fábricas militares nacionais foram reativadas para reduzir dependência de importações.
  4. Modernização bélica – sistemas antiaéreos e antinavio de curto e médio alcance foram redistribuídos ao longo da costa caribenha.

O ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, descreve essa nova doutrina como uma “guerra de todo o povo”: uma estratégia em que cada cidadão é parte da defesa nacional.


3. A Milícia Bolivariana: o exército invisível do povo

Criada por Hugo Chávez em 2008, a Milícia Nacional Bolivariana alcançou em 2025 seu auge organizativo. Estima-se que milhões de venezuelanos integrem suas fileiras, com treinamento básico em táticas de resistência urbana, sabotagem, primeiros socorros e logística de combate.

O papel da milícia é atuar como colchão de defesa popular, dificultando qualquer tentativa de ocupação prolongada. Em caso de ataque estrangeiro, cada bairro, vila e comunidade deve se tornar um foco de resistência.

Nos últimos meses, exercícios conjuntos entre milicianos e unidades regulares foram realizados em 23 estados do país, simulando cenários de desembarque inimigo e ataques a infraestrutura crítica. O governo também promoveu campanhas de conscientização sob o lema: “A pátria se defende com o coração e o fuzil”.


4. A doutrina da guerra assimétrica

O Exército venezuelano adotou oficialmente uma doutrina de guerra assimétrica: em vez de buscar confrontos diretos com potências militares superiores, a estratégia se concentra em infligir danos constantes, dificultar o avanço inimigo e prolongar o conflito até que o custo político e econômico da intervenção se torne insustentável.

Essa doutrina inclui:

  • Dispersão de arsenais e centros de comando para evitar ataques concentrados.
  • Defesa aérea por camadas, com sistemas portáteis operados por milicianos.
  • Operações de sabotagem logística em territórios ocupados.
  • Uso de drones de baixo custo para reconhecimento e ataque rápido.
  • Ciberdefesa e contrainteligência digital coordenadas pelo Comando Estratégico Operacional.

Segundo fontes do Ministério da Defesa, a meta é tornar a Venezuela “inencontrável e invencível” — um território onde o inimigo não possa ocupar nem governar.


5. O papel das Forças Armadas como pilar da Revolução Bolivariana

Na Venezuela, a defesa da pátria e a defesa da Revolução são conceitos indissociáveis.
O Exército não é apenas uma instituição de Estado, mas uma força política e ideológica comprometida com o projeto bolivariano.

Nos discursos recentes, Maduro tem reforçado que a FANB “não é uma força neutra” e que sua missão histórica é garantir a continuidade do socialismo e a soberania contra o imperialismo. Essa união entre civis e militares constitui o núcleo da chamada “União Cívico-Militar”, princípio doutrinário criado por Chávez para blindar o país de golpes e intervenções externas.


6. A defesa integral e a inteligência popular

A nova fase da mobilização venezuelana também aposta em inteligência popular descentralizada.
Com o uso de aplicativos, rádios comunitárias e redes locais, comunidades costeiras e fronteiriças informam sobre movimentos suspeitos de aeronaves e embarcações. Essa rede de vigilância civil é parte do conceito de “defesa integral”, em que cada cidadão tem papel ativo na segurança do território.

Paralelamente, foram ativadas brigadas de comunicações e logística popular, encarregadas de manter o fluxo de informação em caso de bloqueios de internet ou ataques cibernéticos.


7. Cooperação militar internacional e apoio do Sul Global

Apesar do isolamento imposto pelo Ocidente, a Venezuela mantém cooperação com aliados estratégicos como Rússia, China e Irã.
Essas parcerias incluem manutenção de equipamentos, transferência de tecnologia e treinamento técnico.

Ao mesmo tempo, o governo reforça laços com países latino-americanos alinhados ao eixo multipolar, defendendo a criação de uma “doutrina de defesa continental”, capaz de reagir a agressões extrarregionais — uma ideia que ecoa entre setores militares do ALBA e do BRICS ampliado.


8. O papel simbólico e moral da defesa bolivariana

Mais do que uma estrutura militar, o sistema de defesa venezuelano é apresentado como expressão direta do projeto histórico iniciado por Simón Bolívar: a construção de uma pátria livre de dominação estrangeira.
A retórica bolivariana transformou a defesa nacional em um ato de fé política. A resistência é, simultaneamente, um gesto militar e espiritual.

O governo sustenta que “quem toca a Venezuela toca o coração da América Latina”, reafirmando a ideia de que uma agressão ao país seria, na prática, um ataque à autodeterminação dos povos do Sul.


9. O preço da resistência

A estratégia bolivariana é ousada, mas também custosa.
A economia ainda enfrenta limitações severas, a manutenção de tropas exige recursos constantes e a mobilização popular tem impactos sociais — especialmente em regiões pobres onde a milícia é vista tanto como força de proteção quanto como instrumento de controle político.

Ainda assim, o discurso oficial mantém-se firme: a soberania não é negociável. O governo sabe que, para o imperialismo, o que está em jogo não é apenas o petróleo venezuelano, mas o exemplo de um país que resiste fora da órbita de Washington.


10. Conclusão

A Venezuela de 2025 é um país em estado de prontidão permanente.
Diante de uma nova corrida militar no Caribe, o Estado bolivariano aposta em uma defesa híbrida: exército profissional, milícias populares, inteligência descentralizada e guerra assimétrica.

O objetivo é claro — dificultar qualquer invasão, preservar a soberania e garantir a sobrevivência da Revolução Bolivariana.
Para Maduro e os generais bolivarianos, a luta não é apenas pela integridade territorial, mas pelo direito de existir como nação independente em um mundo ainda regido pela lógica das potências.

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