Senador publicou vídeo de manifestação realizada durante o processo de impeachment do ex-presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol como se retratasse protestos contra a visita de Lula ao país
Da Redação, com informações do ICL Notícias
A visita oficial do presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, ao Brasil foi acompanhada ao vivo pela TV Atitude Popular, que transmitiu a cerimônia de recepção e os compromissos oficiais de Lula em Brasília. Poucas horas depois, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) compartilhou nas redes sociais um vídeo do evento acompanhado de uma legenda enganosa, sugerindo que as imagens mostravam um protesto contra o presidente brasileiro. Na realidade, o vídeo registra a chegada da comitiva sul-coreana e não qualquer manifestação popular.
No entanto, a gravação não tem relação com Lula nem com sua agenda internacional. Verificações realizadas por veículos de imprensa mostraram que o vídeo foi registrado anteriormente e retrata manifestações ligadas à crise política sul-coreana que culminou no impeachment do então presidente Yoon Suk Yeol. As imagens passaram a circular nas redes brasileiras acompanhadas de uma legenda enganosa, sugerindo que milhares de pessoas estariam nas ruas para rejeitar a presença de Lula.
Visita teve foco em comércio e tecnologia
Lula recebeu nesta semana o presidente da Coreia do Sul, Lee Jae Myung, em Brasília, durante visita oficial destinada ao fortalecimento das relações bilaterais. Os dois governos anunciaram a criação de um grupo de trabalho para acelerar as negociações de um acordo comercial entre o Mercosul e a Coreia do Sul. Também foram assinados memorandos de cooperação nas áreas de tecnologia, energia, educação, esporte, indústria e exploração espacial, além da confirmação de uma missão sanitária sul-coreana para avaliar a abertura do mercado daquele país à carne brasileira.
Durante a cerimônia, Lula destacou o crescimento do comércio entre os dois países, que alcançou cerca de US$ 11 bilhões em 2025, e afirmou que a parceria deverá ser ampliada nos próximos anos.
Vídeos antigos voltam a circular em campanhas
O episódio ilustra uma estratégia recorrente nas disputas políticas nas redes sociais: reutilizar imagens reais, mas retiradas de seu contexto original, para atribuir um significado diferente ao fato retratado.
Nesse tipo de desinformação, o conteúdo visual não é necessariamente falso. O problema está na legenda ou na narrativa que acompanha a publicação, levando o público a acreditar que o vídeo registra um acontecimento diferente daquele em que foi produzido.
A circulação desse tipo de material tende a aumentar durante campanhas eleitorais, justamente porque vídeos curtos costumam gerar forte impacto emocional e alcançar grande disseminação antes que sua origem seja verificada.
Não é a primeira controvérsia da campanha
A publicação ocorre poucos dias depois da convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Na ocasião, o evento exibiu um vídeo produzido com inteligência artificial simulando uma mensagem de Jair Bolsonaro aos apoiadores. O uso da tecnologia levantou questionamentos de especialistas em Direito Eleitoral sobre a aplicação das regras do Tribunal Superior Eleitoral para conteúdos sintéticos em campanhas.
Os dois episódios reforçam que a comunicação digital deverá ocupar papel central na disputa presidencial de 2026, aumentando também o desafio de verificar a autenticidade e o contexto de vídeos compartilhados nas redes sociais.
Não é a primeira vez que um Bolsonaro interage com imagens de Lula
O episódio também resgatou uma situação curiosa envolvendo outro integrante da família Bolsonaro. Em julho de 2018, Eduardo Bolsonaro chamou atenção ao curtir, em seu perfil oficial no Instagram, uma fotografia do então ex-presidente Lula caminhando sem camisa em uma praia do Piauí. Na época, Lula estava preso em Curitiba e suas redes sociais eram administradas por sua equipe de comunicação. A imagem trazia uma mensagem de incentivo aos apoiadores da campanha “Lula Livre”.
A curtida passou despercebida pelos seguidores até ser noticiada pela imprensa. Poucos minutos depois da divulgação do caso, Eduardo removeu o “like” da publicação e nunca apresentou uma explicação pública para o episódio.
O caso voltou a ser lembrado após Flávio Bolsonaro compartilhar um vídeo da recepção oficial ao presidente da Coreia do Sul acompanhado de uma legenda enganosa, sugerindo que as imagens mostravam uma manifestação contra Lula. Embora os episódios sejam de natureza distinta, ambos ilustram como publicações relacionadas ao presidente acabam repercutindo até mesmo entre integrantes da família Bolsonaro, seja por interações involuntárias, seja pela circulação de conteúdos retirados de contexto.



