Antes de marcha em Porto Alegre, Presidente Lula anunciou que entregará ao TSE autorização para acesso a seus dados telefônicos e aos de seus cinco filhos. Petista também questionou a origem dos recursos usados pelo senador para comprar uma casa avaliada em R$ 10 milhões.
Antes de participar da marcha que reuniu milhares de pessoas em Porto Alegre, no domingo (19), o Presidente Lula lançou um desafio público a Flávio Bolsonaro (PL-RJ): que o senador autorize a abertura de seus sigilos e os de sua família, incluindo informações sobre suas empresas, para que a Justiça possa investigar a origem de seus patrimônios. Lula anunciou que entregaria ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um documento autorizando o acesso a seus dados telefônicos e aos de seus cinco filhos.
A declaração foi feita diante de apoiadores, no contexto da campanha do segundo turno das eleições presidenciais. Ao anunciar a iniciativa, Lula afirmou que pretende exigir transparência do adversário e contestou as acusações dirigidas a ele e a seus familiares durante a disputa eleitoral.
“É preciso, de uma vez por todas, acabar com, neste país, a história de ladrão ficar chamando gente honesta de ladrão”, declarou o Presidente Lula. Em seguida, defendeu que a Justiça investigue as informações apresentadas pelos dois lados e dê publicidade aos resultados, para que os eleitores possam avaliar a conduta dos candidatos.
O Presidente afirmou que entregará o documento ao TSE no dia seguinte ao pronunciamento e disse esperar que Flávio Bolsonaro adote a mesma iniciativa. O pedido, conforme explicou, envolve a abertura de informações pessoais e familiares, enquanto o desafio dirigido ao senador inclui os dados relativos às empresas da família Bolsonaro.
Lula questiona compra de imóvel por R$ 10 milhões
Durante a fala, Lula levantou dúvidas sobre a capacidade patrimonial do senador Flávio Bolsonaro e cobrou explicações sobre a compra de um imóvel avaliado em R$ 10 milhões, segundo o valor mencionado pelo próprio Presidente.
“Eu sou o presidente da República três vezes, moro num apartamento de 190 metros, comprado em 1998. Que cidadão que é senador da República, que ganha o mesmo salário que o presidente da República, possa comprar uma casa de R$ 10 milhões à vista sem explicar de onde veio o dinheiro?”, questionou.
A declaração foi acompanhada de críticas à trajetória política da família Bolsonaro. Lula também mencionou a atuação de milicianos ao defender que o Brasil não pode ter alguém ligado a esse universo no comando da Presidência da República.
O Presidente argumentou que os eleitores precisam conhecer a origem dos recursos e as informações patrimoniais dos candidatos antes de decidir o voto. Para ele, a disputa eleitoral deve ser tratada como uma escolha política sobre os rumos do país, e não como uma decisão sem consequências para a sociedade.
Lula também afirmou que esta será sua última disputa eleitoral e apresentou a iniciativa como uma defesa de sua reputação e da de seus familiares. Segundo ele, a abertura dos dados é uma resposta às acusações recorrentes contra seus filhos durante os períodos eleitorais.
“Eu não posso deixar que ladrão tente jogar a minha biografia no lixo”, disse.
O anúncio, no entanto, não significa que os sigilos tenham sido efetivamente abertos ou que uma investigação tenha sido instaurada a partir do pronunciamento. A iniciativa dependeria da entrega formal do documento e dos procedimentos cabíveis para o acesso e a eventual divulgação das informações. A abertura de dados também não representa, por si só, comprovação de irregularidades.
Marcha em Porto Alegre reforça mobilização eleitoral
A declaração ocorreu antes da marcha que levou milhares de apoiadores às ruas de Porto Alegre no dia 19 de outubro, em uma mobilização voltada à campanha de Lula no segundo turno. Ao se dirigir aos participantes, o Presidente recuperou suas ligações históricas com o Rio Grande do Sul e com o movimento sindical.
Lula recordou sua primeira visita à capital gaúcha, quando era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e veio acompanhar a posse de Olívio Dutra à frente do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre. Na ocasião, relatou ter conhecido também Tarso Genro, então advogado da entidade sindical.
O Presidente afirmou que mantém vínculos políticos e pessoais com o estado desde os anos 1980 e mencionou sua relação com lideranças sindicais gaúchas. A referência serviu de introdução ao chamado para ampliar a votação no segundo turno e derrotar o bolsonarismo.
Ao encerrar a fala, Lula pediu que os apoiadores participassem da caminhada e trabalhassem para ampliar o apoio à sua candidatura.
Presidente destaca medidas econômicas e propostas sociais
Além das críticas ao adversário, Lula apresentou medidas econômicas e propostas sociais que, segundo ele, integram as iniciativas de seu governo. Entre elas, mencionou ações voltadas a pessoas endividadas, a proposta de transferência de recursos para beneficiários que quitarem suas dívidas e a defesa de transporte público gratuito.
Na área de renegociação de débitos, o Presidente citou uma medida que, segundo sua descrição, envolveria a anistia de aproximadamente R$ 15 bilhões em dívidas e a compra de créditos com descontos elevados, permitindo que devedores tivessem condições de regularizar sua situação financeira. Também mencionou a possibilidade de um pagamento de R$ 5 mil para pessoas que saíssem do endividamento.
Os detalhes apresentados no pronunciamento precisam ser confrontados com os textos oficiais e com a tramitação das medidas citadas. A fala, isoladamente, não permite concluir quais propostas já estavam aprovadas, quais dependiam do Congresso Nacional e quais condições seriam exigidas para o acesso aos benefícios.
Lula também afirmou que encaminharia uma proposta de emenda à Constituição para viabilizar transporte gratuito nas cidades que contam com esse serviço. De acordo com o Presidente, os recursos poderiam vir de emendas parlamentares, com a destinação de parte dos valores atualmente controlados por deputados e senadores.
A proposta foi apresentada como uma forma de ampliar o acesso da população ao transporte e ao lazer, em um contexto no qual o governo também defende mudanças nas condições de trabalho e na organização da jornada semanal.
Ao concluir o pronunciamento, Lula voltou a convocar os apoiadores para a marcha em Porto Alegre e vinculou a mobilização à disputa eleitoral. A cobrança pela abertura de sigilos, por sua vez, colocou a transparência patrimonial no centro de seu confronto político com Flávio Bolsonaro, em uma campanha marcada por acusações recíprocas e pela disputa sobre a credibilidade dos candidatos.


