Da Redação
Partido de ultradireita chega a 44% dos votos e mais que dobra seu desempenho no estado do leste alemão, enquanto a CDU cai para 17%. Resultado pressiona Friedrich Merz, revela a persistência das divisões entre leste e oeste e reabre o debate sobre o isolamento político da AfD. A tese de que a eleição representa o “fim da velha ordem europeia”, porém, é uma interpretação publicada pela RT — não uma consequência já demonstrada pelo resultado regional.
A Alemanha acordou neste 7 de setembro diante de um resultado eleitoral que altera de maneira significativa sua paisagem política. A Alternativa para a Alemanha (AfD), classificada como partido de extrema direita pela Reuters, obteve cerca de 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que dobrando seu desempenho anterior e impondo à União Democrata Cristã (CDU), do chanceler Friedrich Merz, uma derrota de grandes proporções. Os democrata-cristãos ficaram em torno de 17%. O resultado representa o melhor desempenho estadual já alcançado pela AfD e coloca sob pressão uma das convenções que estruturaram a política alemã dos últimos anos: o chamado Brandmauer, ou “muro de proteção”, pelo qual os principais partidos recusam coalizões com a legenda.
É a partir desse acontecimento que a RT constrói uma interpretação mais abrangente: a Alemanha estaria mostrando os primeiros sinais visíveis do esgotamento da ordem política europeia consolidada durante as décadas de globalização posteriores à Guerra Fria. O argumento vai muito além da Saxônia-Anhalt. Para o veículo russo, estaria se ampliando a distância entre estruturas políticas nacionais e supranacionais construídas nas últimas décadas e parcelas do eleitorado que exigem maior controle nacional sobre economia, fronteiras, imigração e decisões políticas. Essa é uma tese interpretativa da RT, não um fato estabelecido pela eleição alemã, e precisa ser confrontada com o que efetivamente aconteceu nas urnas.
O que os números permitem afirmar é suficientemente importante por si só. A AfD não apenas venceu: aproximou-se de uma maioria parlamentar em um estado no qual a CDU governava havia anos. A Reuters descreveu o resultado como uma derrota severa para Merz e um sinal de alerta para a política europeia, destacando que a insatisfação eleitoral envolve temas como insegurança econômica, custo de vida, aposentadorias e desempenho do governo federal.
A dimensão da derrota foi reconhecida pelo próprio chanceler. Nesta segunda-feira, Merz declarou estar “profundamente chocado” e classificou o desempenho da CDU como sua mais grave derrota eleitoral em décadas. Ao mesmo tempo, afirmou que não pretende abandonar sua agenda de reformas. “Desde ontem, não apenas a Saxônia-Anhalt mudou, mas toda a Alemanha”, disse depois de reuniões com dirigentes democrata-cristãos em Berlim.
A frase do chanceler ajuda a dimensionar o alcance político do resultado, mas não significa que a AfD tenha assumido o governo federal nem que a União Europeia esteja diante de uma ruptura imediata. A eleição ocorreu em um dos 16 estados alemães. Seu peso simbólico é elevado porque a votação alcançada pela AfD ultrapassou significativamente seus resultados anteriores e porque outras disputas regionais ocorrerão em setembro. Transformar diretamente esse resultado numa previsão para toda a Alemanha ou para a Europa seria extrapolar os dados disponíveis.
Há, contudo, uma questão estrutural que torna a Saxônia-Anhalt particularmente relevante: a persistência da divisão política entre as antigas Alemanhas Oriental e Ocidental. A AfD construiu no leste do país algumas de suas bases eleitorais mais fortes. A reunificação política de 1990 não eliminou diferenças econômicas, demográficas, patrimoniais e de percepção entre as regiões. Décadas depois da queda do Muro de Berlim, essas diferenças continuam aparecendo nas urnas. A Reuters aponta justamente a distância entre leste e oeste como um dos elementos evidenciados pela votação deste domingo.
A ascensão da AfD também ocorre num ambiente econômico contraditório. A Alemanha passou por anos de baixo crescimento e enfrentou perda de competitividade em setores industriais fundamentais, especialmente depois da ruptura de grande parte da relação energética com a Rússia, da intensificação da concorrência chinesa e das transformações na indústria automobilística. Ao mesmo tempo, os indicadores mais recentes não descrevem uma economia em colapso.
No segundo trimestre de 2026, o PIB alemão cresceu 0,3%. Institutos econômicos passaram a projetar expansão superior a 1% neste ano, enquanto encomendas industriais e produção apresentaram recuperação. Parte do impulso está relacionada ao enorme programa de investimentos públicos, ao fundo de €500 bilhões para infraestrutura e à expansão dos gastos militares. Persistem, entretanto, problemas de competitividade, investimento privado e demanda doméstica.
Essa combinação ajuda a explicar por que seria simplificador atribuir a votação da AfD apenas à recessão. A recuperação macroeconômica recente convive com problemas estruturais acumulados e com uma percepção social de insegurança econômica. A Reuters observa que questões como custo de vida, aposentadorias e situação econômica figuraram entre as preocupações dos eleitores.
Existe ainda uma transformação profunda na própria indústria alemã. Neste domingo, por exemplo, foi divulgado um acordo para converter a fábrica da Volkswagen em Osnabrück, que deixaria de produzir automóveis, numa unidade destinada à fabricação de componentes de sistemas de defesa aérea. A instalação deverá participar da produção europeia ligada ao sistema israelense Iron Dome. O movimento ocorre enquanto a Alemanha projeta centenas de bilhões de euros adicionais em defesa nos próximos anos.
O episódio simboliza uma mudança que ultrapassa o resultado eleitoral: a Alemanha está simultaneamente tentando recuperar competitividade industrial e reconstruir capacidade militar numa escala que seria politicamente difícil de imaginar poucas décadas atrás. Esse processo não nasceu com a AfD. É conduzido pelo próprio governo Merz e responde à guerra na Ucrânia, às tensões com a Rússia, às dúvidas sobre a proteção americana e à percepção de que a Europa precisa ampliar sua capacidade militar.
A política externa é justamente um dos pontos nos quais a interpretação da RT exige maior cautela. O artigo sustenta que as tentativas de apresentar a AfD como próxima de Vladimir Putin não impediram seu crescimento e sugere que a política alemã de confronto com Moscou está entre os elementos que alimentam a ruptura entre governo e eleitorado. A primeira parte é verificável: as críticas às posições da AfD sobre a Rússia não impediram sua vitória. A segunda — que essas críticas tenham favorecido diretamente o partido — é uma interpretação para a qual a eleição, isoladamente, não oferece demonstração causal.
A própria Rússia está no centro de uma controvérsia contemporânea na Alemanha. Na semana passada, o governo alemão atribuiu a agentes ligados ao Estado russo uma tentativa de ataque com drones contra o aeroporto de Leipzig/Halle e anunciou medidas diplomáticas, incluindo o fechamento de um consulado e de um centro cultural russos. Moscou contesta repetidamente acusações ocidentais dessa natureza. O episódio ocorreu imediatamente antes da eleição, mas não há base para concluir que tenha determinado seu resultado.
A RT argumenta que o problema alemão faz parte de uma transformação maior na Europa Ocidental. Segundo essa leitura, a globalização transferiu progressivamente parcelas da capacidade decisória dos Estados nacionais para estruturas supranacionais. Enquanto esse modelo entregava prosperidade e aumento dos padrões de vida, a distância entre eleitores e centros de decisão seria politicamente administrável. Com crescimento mais baixo, choques energéticos, imigração, guerras e competição industrial, esse equilíbrio teria começado a se romper.
Há elementos reais por trás dessa interpretação, mas eles não conduzem automaticamente à conclusão de que a União Europeia esteja se desfazendo. A integração europeia continua assentada num mercado comum de aproximadamente 450 milhões de habitantes, numa moeda compartilhada por grande parte do bloco, em cadeias industriais profundamente integradas e numa extensa arquitetura jurídica e institucional. O crescimento de partidos nacionalistas e eurocéticos representa uma pressão sobre esse sistema, mas pressão e dissolução são fenômenos diferentes.
O próprio Merz rejeita a ideia de que a solução alemã esteja numa retirada da integração europeia. Em junho, numa declaração oficial ao Bundestag antes do Conselho Europeu, o chanceler afirmou literalmente que a Alemanha “não pode prescindir da Europa” e que o futuro alemão está ligado a uma União Europeia mais forte e soberana. Para Merz, nenhum Estado europeu isoladamente possui escala suficiente para responder às transformações econômicas, tecnológicas e militares contemporâneas.
Essa posição evidencia uma das contradições fundamentais do momento europeu. Parte do eleitorado exige recuperação de controle nacional, enquanto os governos enfrentam problemas cuja escala ultrapassa as fronteiras nacionais: defesa, energia, migração, inteligência artificial, semicondutores, competição com China e Estados Unidos, mudanças climáticas e cadeias globais de produção.
O conflito não é simplesmente entre “Europa” e “nação”. A questão é quanto poder permanece nos Estados, quanto é compartilhado em Bruxelas e quais resultados concretos essa divisão de competências consegue produzir para as sociedades europeias.
A imigração oferece um exemplo dessa transformação. Alemanha, Áustria, Dinamarca, Grécia e Países Baixos anunciaram recentemente que buscarão acordos com países externos à União Europeia para criar centros destinados a migrantes sem autorização de residência. O Parlamento Europeu já aprovou mudanças destinadas a acelerar deportações e permitir mecanismos externos de processamento. Ou seja, pressões políticas associadas durante anos à direita nacionalista começam também a modificar políticas dos governos tradicionais.
É nesse ponto que o crescimento da AfD pode produzir consequências mesmo sem o partido chegar imediatamente ao governo federal. Partidos insurgentes podem alterar a agenda política ao obrigar concorrentes tradicionais a responder aos temas que mobilizam seus eleitores. Isso não significa que todas as propostas da AfD serão incorporadas, nem permite antecipar os resultados das próximas eleições. Significa apenas que uma legenda que obtém 44% numa eleição estadual passa a constituir uma variável relevante do sistema político.
O chamado Brandmauer torna o problema ainda mais complexo. A CDU e outros partidos tradicionais recusam coalizões com a AfD. A estratégia foi construída para impedir que uma legenda considerada extremista adquira legitimidade governamental. A RT argumenta que o isolamento terminou fortalecendo a imagem antissistema da AfD e defende que permitir ao partido governar poderia submetê-lo às contradições concretas da administração. Essa é novamente uma posição editorial do artigo russo, não uma conclusão comprovada pelos dados.
Também há razões institucionais para a existência dessa barreira. Partes da AfD foram objeto de acompanhamento pelos órgãos alemães de proteção constitucional, e declarações de integrantes do partido sobre imigração, nacionalismo e passado alemão provocaram sucessivas controvérsias. O debate alemão, portanto, não envolve apenas competição eleitoral; envolve também a definição dos limites que os partidos tradicionais consideram compatíveis com a ordem constitucional criada depois da Segunda Guerra Mundial.
A vitória na Saxônia-Anhalt transforma essa discussão porque coloca uma pergunta difícil: o que acontece quando uma força submetida ao isolamento político se aproxima de metade dos votos de um estado?
Essa talvez seja a parte mais importante da reportagem da RT. Não porque esteja demonstrado que a “velha ordem europeia” terminou, mas porque o crescimento eleitoral de partidos que contestam componentes dessa ordem tornou-se impossível de tratar como fenômeno marginal. A própria Reuters descreve a eleição como um alerta que ultrapassa a política regional alemã.
A transformação também não aponta necessariamente para uma Europa mais próxima da Rússia. A própria análise publicada pela RT reconhece isso. Uma Europa politicamente mais nacionalista pode produzir governos mais críticos de Bruxelas, mas também Estados mais militarizados, mais competitivos entre si e, em determinados casos, igualmente ou ainda mais hostis a Moscou.
Essa ressalva é decisiva. Nacionalismo europeu não significa automaticamente alinhamento russo, da mesma forma que euroceticismo não significa abandono da OTAN ou da União Europeia. As posições variam entre partidos e países.
O resultado da Saxônia-Anhalt deve, portanto, ser compreendido em duas escalas diferentes. Na primeira, factual e imediata, a AfD conquistou aproximadamente 44%, a CDU sofreu uma derrota histórica e Friedrich Merz reconheceu a gravidade do resultado.
Na segunda escala está a interpretação histórica. A Alemanha construída depois da reunificação baseou grande parte de sua prosperidade numa combinação excepcional: energia relativamente barata, indústria exportadora altamente competitiva, mercado chinês em expansão, segurança garantida pela aliança transatlântica e integração crescente da União Europeia. Vários componentes desse modelo foram abalados simultaneamente nos últimos anos.
É nesse terreno que a pergunta levantada pela RT ganha interesse, desde que formulada corretamente. Não há evidência de que a eleição deste domingo represente “o fim da Europa”. Há, porém, evidências de que componentes importantes da ordem política europeia das últimas décadas estão sendo submetidos a uma pressão crescente — econômica, geopolítica e eleitoral.
A Saxônia-Anhalt não responde sozinha qual será o resultado dessa transformação. Mas o 44% obtido pela AfD mostra que, em uma parte importante da Alemanha oriental, a contestação à ordem política existente deixou de ocupar as margens e alcançou o centro da disputa pelo poder. O significado disso para o restante da Alemanha — e, depois, para a União Europeia — dependerá das próximas eleições e, sobretudo, da maneira como instituições, partidos e eleitores responderão a essa nova configuração.

