Conversas de abril de 2024 mostram empresário Flávio Carneiro apontando Fabiano Zettel como interlocutor próximo de Jair Bolsonaro e registram pressão do ex-banqueiro sobre manifestações do deputado. Documentos também revelam contatos envolvendo o pastor André Valadão e a preocupação com a repercussão de um fórum jurídico patrocinado pelo Master em Londres.
Da Redação
Mensagens atribuídas ao ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, revelam uma articulação envolvendo empresários, lideranças religiosas e interlocutores políticos para conter a repercussão negativa de um evento jurídico realizado em Londres, em abril de 2024. Em uma das conversas, Vorcaro afirmou ter custeado os voos do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), enquanto seu interlocutor, o empresário Flávio Carneiro, sugeriu recorrer a Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro, por sua proximidade com Jair Bolsonaro. Os diálogos, recuperados em reportagem publicada nesta sexta-feira, 23 de outubro, pelo Brasil 247, acrescentam informações sobre a rede de relações políticas e empresariais estabelecida em torno do Banco Master e sobre as tentativas de administrar críticas públicas à instituição financeira.
O episódio ocorreu em 29 de abril de 2024, quando o banco enfrentava questionamentos sobre o patrocínio ao 1º Fórum Jurídico Brasil de Ideias, realizado na capital britânica com a participação de autoridades brasileiras, incluindo ministros de tribunais superiores. As críticas ganharam repercussão depois que Nikolas Ferreira compartilhou publicações sobre o evento e questionou as circunstâncias das viagens de integrantes do Judiciário. O deputado, que mantinha vínculos com setores políticos e religiosos próximos ao banqueiro, tornou-se motivo de preocupação para Vorcaro e pessoas ligadas à sua estrutura de comunicação.
Às 17h09 daquele dia, Flávio Carneiro enviou uma mensagem sugerindo que Fabiano Zettel utilizasse sua proximidade com Jair Bolsonaro para tentar interromper as críticas. No diálogo, Carneiro chamou Bolsonaro de amigo de Zettel e manifestou irritação com a repercussão do assunto. A afirmação é relevante porque apresenta Zettel como possível intermediário político, mas não demonstra que o ex-presidente tenha recebido a solicitação, participado da articulação ou determinado qualquer medida contra as publicações.
Pouco depois, às 17h31, Vorcaro respondeu com uma declaração sobre o deputado: “Esse nikolas eu banquei todos os voos dele”. Na sequência, mencionou a possibilidade de divulgar a informação. Carneiro sugeriu então que o parlamentar fosse orientado a interromper os ataques.
O trecho não identifica quais viagens teriam sido pagas, quantos deslocamentos estavam envolvidos nem o valor total dos serviços. A afirmação também não comprova que Nikolas tenha assumido qualquer compromisso político em troca do transporte. Entretanto, ela reforça o interesse em esclarecer as relações financeiras e pessoais entre o deputado e o grupo empresarial ligado ao Master.
As mensagens haviam sido reveladas originalmente, em setembro, pela jornalista Juliana Dal Piva, do ICL Notícias. A reportagem desta sexta-feira recupera os diálogos e destaca a referência à proximidade de Zettel com Bolsonaro.
O contexto das conversas permite compreender por que as publicações do deputado provocaram preocupação no grupo de Vorcaro. O fórum realizado em Londres reunira figuras influentes do sistema político e jurídico brasileiro, entre elas o ex-presidente Michel Temer, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Gilmar Mendes. O evento também contou com a participação de representantes empresariais e políticos de diferentes campos.
O Banco Master figurava entre os patrocinadores, mas sua participação financeira não havia sido amplamente divulgada inicialmente. A revelação do patrocínio ampliou os questionamentos sobre a transparência das relações entre instituições privadas e integrantes do sistema de Justiça, particularmente diante da existência de processos de interesse de empresas do setor financeiro nos tribunais superiores.
O comparecimento de autoridades a eventos acadêmicos ou jurídicos financiados por empresas privadas não constitui, isoladamente, irregularidade. A avaliação de possíveis conflitos de interesse depende das circunstâncias de financiamento, da divulgação dos patrocinadores, das regras aplicáveis e de eventual relação entre benefícios recebidos e decisões institucionais.
A controvérsia, porém, levou Vorcaro a mobilizar diferentes interlocutores na tentativa de reduzir os efeitos negativos sobre a imagem do banco.
Além de Flávio Carneiro, o banqueiro manteve contatos com Ana Matos, então responsável pela comunicação e pelo marketing do Master, e com o pastor André Valadão, liderança da Igreja Batista da Lagoinha, denominação à qual Nikolas Ferreira é ligado.
Segundo a investigação publicada pelo ICL Notícias, Vorcaro procurou Valadão para pedir ajuda na interlocução com o deputado. O pastor respondeu que conversaria com Nikolas, enquanto o banqueiro demonstrava preocupação com as consequências políticas das críticas.
A troca de mensagens indica que Vorcaro considerava importante preservar o relacionamento com parlamentares capazes de dar repercussão nacional a assuntos relacionados ao banco.
Em uma das conversas, o empresário procurou saber se Nikolas permanecia politicamente alinhado a ele ou se passaria a atuar como adversário.
O episódio não demonstra que o deputado estivesse formalmente subordinado ao banqueiro. Revela, contudo, uma expectativa de reciprocidade por parte de Vorcaro, que relacionava a ajuda prestada anteriormente ao comportamento público do parlamentar.
A informação adquire significado adicional quando confrontada com os registros de viagens realizadas durante a campanha presidencial de 2022.
Naquele ano, Nikolas participou de uma caravana de apoio à reeleição de Jair Bolsonaro que percorreu nove estados e o Distrito Federal, utilizando uma aeronave operada pela Prime Aviation, empresa de aviação executiva na qual Vorcaro mantinha participação societária.
O deslocamento ocorreu durante aproximadamente dez dias do segundo turno e incluiu a participação do pastor Guilherme Batista, também ligado à Igreja Batista da Lagoinha.
A utilização da aeronave foi revelada em março de 2026 por reportagem de O Globo, que examinou os vínculos entre o deputado, os participantes da caravana e o grupo empresarial.
Na ocasião, Nikolas afirmou que não sabia quem era o proprietário da aeronave quando aceitou participar das atividades e que somente posteriormente tomou conhecimento da relação de Vorcaro com a companhia.
O deputado também rejeitou a ideia de que o uso do avião demonstrasse envolvimento com as irregularidades investigadas no Banco Master.
A Prime You, nome comercial da Prime Aviation, informou que Vorcaro não era proprietário da aeronave específica e que os voos eram realizados regularmente sob o regime de táxi aéreo. Segundo a empresa, o banqueiro mantinha participação societária minoritária, sem controle da companhia, e deixou o quadro de sócios em setembro de 2025.
Essas informações precisam ser consideradas na avaliação do caso. A utilização de uma aeronave operada por uma empresa da qual Vorcaro era sócio não comprova, por si só, que ele tenha custeado pessoalmente todos os deslocamentos. A declaração posterior do próprio banqueiro constitui um elemento adicional, mas ainda seria necessário verificar contratos, notas fiscais, pagamentos e responsáveis pelo fretamento.
Também existem questões relacionadas à prestação de contas eleitoral, uma vez que despesas utilizadas em atividades de campanha podem estar sujeitas às regras de declaração e financiamento previstas na legislação. A existência de eventual irregularidade dependeria da identificação de quem contratou e pagou os serviços e de sua relação formal com as atividades eleitorais.
A reportagem do ICL acrescentou outros episódios à cronologia dos contatos.
Em abril de 2024, Vorcaro reclamou das publicações de Nikolas sobre o fórum londrino e buscou apoio de André Valadão para esclarecer a situação diretamente com o parlamentar. O pastor informou posteriormente que havia conversado com o deputado e que ele não conhecia o envolvimento do Banco Master no evento.
Segundo a reconstrução jornalística, Nikolas teria manifestado arrependimento pela publicação e indicado que procuraria contornar o problema.
Em 4 de maio de 2024, Flávio Carneiro informou a Vorcaro que havia conversado com o deputado e que uma das postagens fora retirada. O banqueiro procurou confirmar as circunstâncias e recebeu a informação de que a relação havia sido preservada.
A sequência é importante porque mostra uma atuação concreta de interlocutores privados para administrar publicações políticas nas redes sociais.
A retirada de uma postagem não constitui automaticamente uma irregularidade. Um parlamentar pode rever suas declarações, corrigir informações ou reconsiderar críticas. Entretanto, quando essa alteração ocorre em meio a solicitações de empresários que afirmam ter financiado benefícios anteriormente oferecidos ao agente político, surge uma questão legítima sobre a independência de sua atuação pública.
As conversas também evidenciam a relevância adquirida pelas redes sociais nas estratégias de comunicação corporativa. A equipe do Master acompanhava o alcance das publicações de influenciadores e parlamentares, avaliava seus efeitos sobre a reputação da instituição e discutia formas de intervenção.
Em reportagem publicada em 21 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou outros diálogos extraídos pela Polícia Federal do telefone de Vorcaro. Nas mensagens, o ex-banqueiro afirmou à sua assessora de comunicação que mantinha boa relação com Nikolas e não esperava que o parlamentar mencionasse diretamente o Master ao comentar o fórum de Londres.
A investigação também identificou conversas posteriores sobre publicações do influenciador Pablo Marçal, nas quais Vorcaro pediu à equipe que procurasse uma forma de abordar o assunto e reduzir os efeitos negativos sobre o banco.
Esses registros demonstram a existência de mecanismos organizados de acompanhamento de reputação e interlocução com figuras públicas. Não comprovam, isoladamente, uma operação ilegal de manipulação de informações.
Empresas podem desenvolver atividades legítimas de comunicação e responder a críticas. O limite jurídico depende dos meios empregados, da existência de eventuais pagamentos ou vantagens não declaradas e de possíveis atos destinados a ocultar informações relevantes ao público.
Zettel, doações eleitorais e relações políticas
Fabiano Zettel ocupa posição importante nesse conjunto de relações. Cunhado de Daniel Vorcaro, ele manteve atividades empresariais e religiosas e passou a ser investigado no âmbito das apurações sobre o Banco Master.
Em janeiro de 2026, Zettel foi alvo de medidas da Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero, que investiga possíveis irregularidades envolvendo a instituição financeira e empresas associadas.
O empresário também foi um dos principais financiadores individuais de campanhas da direita em 2022. Segundo registros eleitorais examinados pela imprensa, destinou R$ 3 milhões à campanha presidencial de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo.
As doações, por si só, não configuram prática ilícita. A legislação brasileira permite contribuições de pessoas físicas a campanhas eleitorais, desde que observados os limites e procedimentos estabelecidos pela Justiça Eleitoral.
Sua relevância está no fato de integrarem a rede documentada de relações entre Zettel e lideranças políticas.
Nesse contexto, a mensagem de Flávio Carneiro tratando Bolsonaro como amigo de Zettel acrescenta uma declaração privada sobre a proximidade entre os envolvidos, mas não pode ser interpretada como prova independente de que o ex-presidente participasse das decisões ou interesses empresariais do Banco Master.
O mesmo cuidado se aplica à relação entre Nikolas e Vorcaro.
O deputado reconheceu a utilização da aeronave durante a campanha de 2022 e apresentou explicações sobre as condições do deslocamento. O banqueiro, em mensagem privada, afirmou ter bancado os voos. As duas informações precisam ser examinadas em conjunto, mas não permitem estabelecer automaticamente a existência de financiamento político irregular ou contrapartida.
O advogado Thiago Faria, ligado à representação de Nikolas, criticou os questionamentos apresentados pelo ICL em setembro e afirmou que a investigação jornalística retomava um assunto já esclarecido pelo deputado. Ele também contestou a afirmação de que Nikolas havia apagado publicações.
A reportagem original, entretanto, identificou mensagens nas quais interlocutores de Vorcaro afirmavam ter conseguido a retirada de uma postagem.
A divergência entre essas versões demanda verificação dos registros das redes sociais e das circunstâncias da publicação mencionada.
A Folha de S.Paulo também procurou Nikolas Ferreira, Pablo Marçal e a equipe de comunicação de Vorcaro para comentar os novos diálogos divulgados em outubro. Segundo o jornal, não houve resposta até a publicação.
A ausência de manifestação não representa reconhecimento das acusações.
A investigação sobre o Banco Master envolve um conjunto amplo de relações empresariais, operações financeiras e contatos com integrantes de diferentes correntes políticas. A identificação dessas conexões exige distinguir doações legais, relações pessoais, prestação de serviços, interesses comerciais e eventuais irregularidades comprovadas.
Essa diferenciação é necessária porque a proximidade entre empresários e autoridades pode decorrer de atividades legítimas, mas também pode criar riscos de conflitos de interesse quando benefícios privados estão associados a decisões públicas.
No episódio das viagens de Nikolas e das mensagens sobre o fórum de Londres, o que está documentado é a existência de deslocamentos realizados em aeronave de empresa ligada a Vorcaro, a declaração do banqueiro de que financiara os voos e os contatos promovidos para reduzir críticas ao evento patrocinado pelo Master.
Não há, nos trechos examinados, comprovação de que Jair Bolsonaro tenha intervindo pessoalmente para interromper as publicações nem de que Nikolas tenha praticado ato ilícito em troca dos deslocamentos.
A discussão pública, entretanto, pode avançar a partir de questões verificáveis: quem contratou e pagou a aeronave utilizada na campanha de 2022, qual foi o valor do fretamento, como a despesa foi registrada e quais relações financeiras foram mantidas entre os envolvidos.
Também é relevante esclarecer se houve atuação organizada para ocultar o patrocínio do Master ao evento jurídico e quais informações foram disponibilizadas às autoridades participantes.
A divulgação das mensagens ocorre em um momento de intensa repercussão política do caso Master, cuja investigação alcançou diferentes setores empresariais e institucionais do país.
O interesse público das revelações não depende de atribuir antecipadamente responsabilidade criminal às pessoas mencionadas. Está na possibilidade de examinar como recursos privados, relações pessoais e capacidade de mobilização política podem se cruzar em ambientes pouco transparentes.
As conversas de abril de 2024 mostram que Vorcaro acompanhava a atividade pública de Nikolas Ferreira e considerava os apoios prestados anteriormente relevantes para a manutenção dessa relação. Também revelam que seus interlocutores enxergavam em Fabiano Zettel um caminho de acesso ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Esses elementos justificam o aprofundamento das investigações sobre as condições dos pagamentos e sobre eventuais obrigações de transparência eleitoral.
Ao mesmo tempo, preservam a necessidade de distinguir fatos documentados, declarações privadas e hipóteses que ainda dependem de comprovação.
É essa separação que permitirá estabelecer se os acontecimentos representam apenas relações políticas e empresariais controversas ou se envolvem condutas que devem ser submetidas à responsabilização pelas instituições competentes.


