Caravana do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação reúne movimentos sociais, comunicadores e ativistas do Nordeste para debater soberania digital, plataformas e democracia
Da Redação
O programa Vozes Pela Democracia, produzido pela Atitude Popular em parceria com o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), debateu nesta semana a realização da terceira Caravana pelo Direito à Comunicação, que acontecerá no último sábado de maio, em Recife, na sede do Sinttel-PE, sindicato dos trabalhadores em telecomunicações de Pernambuco.
A edição contou com a participação da jornalista e professora da UFC Helena Martins e do jornalista, escritor e ex-vereador Ivan Moraes. Durante a conversa, os convidados defenderam a necessidade de ampliar a organização popular em torno da pauta da democratização da comunicação diante do avanço das plataformas digitais, da concentração midiática e da influência das big techs sobre os processos políticos contemporâneos.
A caravana já passou por Porto Alegre e Belém. Agora, desembarca em Recife com uma programação que inclui rodas de diálogo, oficinas práticas e uma plenária conjunta dos comitês do FNDC de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. O encontro pretende reunir sindicatos, coletivos periféricos, movimentos feministas, organizações populares e comunicadores independentes.
Helena Martins afirmou que as caravanas funcionam como espaços de mobilização política e atualização das pautas ligadas ao direito à comunicação.
“Esse incômodo precisa ser transformado em ação organizada. O FNDC atua há quase 40 anos nessa luta, e as caravanas são espaços para mobilizar localmente, compreender os novos desafios e fortalecer as organizações”, afirmou.
A pesquisadora destacou que os debates sobre comunicação hoje ultrapassam a crítica tradicional aos monopólios da mídia e passam também pela discussão sobre plataformas digitais, vício algorítmico, desinformação e impactos territoriais da economia digital.
Segundo Helena, a instalação de data centers em cidades brasileiras já produz efeitos sociais, ambientais e econômicos concretos.
“Há uma intenção de discutir como a instalação de data centers e os processos da comunicação contemporânea afetam os territórios. No Ceará, por exemplo, já acompanhamos esse debate em Caucaia”, observou.
Ela também defendeu que o direito à comunicação deve ser entendido como uma condição necessária para a garantia de outros direitos sociais e democráticos.
“O direito à comunicação é fundamental para garantir todos os outros direitos”, declarou.
Comunicação, eleições e inteligência artificial
Durante a entrevista, Ivan Moraes alertou para os riscos da inteligência artificial e da manipulação digital nas eleições de 2026. Para ele, o Brasil atravessa um momento especialmente delicado por causa da fragilidade da regulação das plataformas e da baixa capacidade de fiscalização do sistema eleitoral diante das novas tecnologias.
“Se a gente já teve a eleição do Twitter, a eleição do WhatsApp e antes a eleição do Facebook, este ano a gente vai ter a eleição da inteligência artificial”, afirmou.
Ivan criticou as normas aprovadas pelo Tribunal Superior Eleitoral para o uso de conteúdos produzidos com IA nas campanhas eleitorais. Segundo ele, as regras são frágeis e facilmente contornáveis por redes clandestinas de desinformação.
“As recomendações do TSE são muito frouxas e muito difíceis de fiscalizar”, disse.
Ele citou o risco da circulação de vídeos falsos produzidos com inteligência artificial poucas horas antes da votação.
“Ninguém impede que um vídeo apócrifo rode no WhatsApp com coisas absurdas feitas por inteligência artificial 24 horas antes da eleição”, alertou.
O jornalista também relacionou a crise democrática brasileira ao poder político e econômico das plataformas digitais controladas por grandes conglomerados estrangeiros.
“As redes têm dono. Muitas vezes estamos trabalhando para bilionários que têm interesses políticos e eleitorais no mundo inteiro”, afirmou.
Ao comentar o avanço da extrema direita internacional e o alinhamento ideológico das big techs, Ivan fez referência ao empresário Elon Musk e ao crescimento de discursos autoritários nas plataformas digitais.
Plataformização e precarização do trabalho
Outro tema central do debate foi a relação entre comunicação, plataformas digitais e precarização do trabalho.
Helena Martins argumentou que a chamada “plataformização” está destruindo direitos trabalhistas históricos e reorganizando o mundo do trabalho em benefício das grandes empresas de tecnologia.
“Boa parte dos trabalhadores está sendo cada vez mais precarizada pelas plataformas que não são regulamentadas”, afirmou.
Ela citou o caso dos motoristas de aplicativos, que entregam parte significativa de sua renda para empresas que não possuem frota nem vínculo empregatício formal com os trabalhadores.
“A plataforma não tem carro, não faz praticamente nada além de intermediar o contato, mas fica com uma parcela enorme do valor produzido”, criticou.
A secretária-geral do FNDC também relacionou o tema à campanha pelo fim da escala 6×1 e pela redução da jornada de trabalho sem redução salarial. Segundo ela, a mídia corporativa atua historicamente contra os interesses da classe trabalhadora.
“Existe uma cobertura cotidiana que constrói uma ideologia contrária aos interesses dos trabalhadores”, afirmou.
Nordeste reunido pela democratização da comunicação
Ivan Moraes destacou que a etapa de Recife terá caráter regional e deve reunir representantes de diversos estados do Nordeste.
Segundo ele, haverá participação de movimentos quilombolas, coletivos de comunicação periférica, organizações de mulheres e militantes vindos do interior dos estados nordestinos.
“A gente quer compreender melhor a interseção entre o direito à comunicação e os demais direitos”, afirmou.
O jornalista também defendeu a construção de formas de comunicação fora das grandes plataformas digitais.
“Tenho apostado muito em um jogo definido pelas nossas próprias regras, inclusive fora do ambiente digital”, disse.
Ao final da entrevista, os participantes reforçaram o convite para a caravana e defenderam a ampliação da participação popular na luta pela democratização da comunicação.
“Todas as lutas se encontram no direito à comunicação”, resumiu Ivan Moraes.
Referências
- Comunicações em Tempos de Crise
- Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
- Centro de Cultura Luiz Freire
- DiraCom – Direito à Comunicação e Democracia
- Sinttel-PE
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