Por Sara Goes
Quando a campanha “O Pix é Nosso” ganhou as ruas, ela acertou em um ponto fundamental. O Brasil construiu uma das mais sofisticadas infraestruturas públicas de pagamento do planeta. Em poucos anos, o Pix reduziu custos, ampliou a inclusão financeira e diminuiu a dependência de redes privadas internacionais de cartões. Trata-se de uma inovação estatal que merece ser defendida.
Mas há uma pergunta que raramente aparece nesse debate: o que acontece com o dinheiro depois que ele passa pelo Pix?
A resposta não é tão simples quanto parece.
O Pix resolveu um problema de transferência. Não resolveu, necessariamente, um problema de desenvolvimento local. Em muitos casos, pode até ter acelerado um fenômeno antigo: o vazamento da riqueza produzida nos territórios populares para grandes grupos econômicos nacionais e internacionais.
Uma família recebe seu salário ou benefício social. Em segundos, utilizando o Pix, compra produtos em grandes plataformas digitais, assina serviços de streaming, faz pagamentos a empresas sediadas em outras cidades ou países. O dinheiro sai do bairro quase na mesma velocidade em que chegou. A tecnologia que eliminou a distância também eliminou parte das barreiras que mantinham a circulação econômica dentro das comunidades.
Não há nada de errado no Pix. O problema é imaginar que ele seja suficiente. Durante décadas, os bancos comunitários e as moedas sociais desenvolveram uma resposta para um desafio que o sistema financeiro tradicional nunca conseguiu enfrentar: como fazer a riqueza permanecer circulando onde ela é produzida.
A lógica é simples. Quando uma moeda social é utilizada em um bairro, em uma periferia ou em um município, ela estimula que comerciantes, produtores e consumidores realizem suas trocas dentro daquele território. O objetivo não é substituir o real nem criar uma economia paralela. O objetivo é fortalecer a economia local.
Experiências como a do Banco Palmas, em Fortaleza, e do Banco Mumbuca, em Maricá, demonstraram que é possível utilizar tecnologia financeira para ampliar a renda, fortalecer pequenos negócios e criar circuitos econômicos mais resistentes à concentração de riqueza. Por isso, a defesa da soberania financeira brasileira não pode terminar no Pix.
O Pix representa a soberania da infraestrutura nacional de pagamentos. As moedas sociais representam a soberania econômica dos territórios. Uma não substitui a outra. O mesmo país que defende sua autonomia diante das grandes corporações financeiras internacionais deveria defender também o direito de bairros populares, municípios e comunidades tradicionais construírem seus próprios instrumentos de desenvolvimento econômico.
A história brasileira oferece um paralelo conhecido. Durante décadas, a campanha “O Petróleo é Nosso” não significou apenas defender a existência de petróleo. Significou afirmar que uma riqueza estratégica deveria servir ao desenvolvimento nacional. oje, o debate precisa avançar para uma nova formulação.
O Pix é nosso. Mas as moedas sociais também são. Ambos fazem parte da mesma disputa por soberania. Um protege a capacidade do Brasil controlar sua infraestrutura financeira. O outro protege a capacidade das comunidades controlarem seu próprio destino econômico. Defender apenas o Pix é defender metade da soberania.
A outra metade está nos bairros, nas periferias, nos assentamentos, nas pequenas cidades e nos bancos comunitários que insistem em provar que desenvolvimento não é apenas produzir riqueza. É decidir onde ela fica.










