Em entrevista ao programa Café com Democracia, o artista e pesquisador Wildson França relembra sua trajetória, fala sobre o trabalho em hospitais, combate ao racismo na palhaçaria e destaca o legado de Benjamin de Oliveira para a cultura brasileira
Da Redação
O palhaço e pesquisador Wildson França, conhecido artisticamente como Palhaço Wil Wil das Candongas, foi o convidado do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na TV Atitude Popular, para falar sobre os dez anos de sua trajetória artística e sua pesquisa dedicada a Benjamin de Oliveira, considerado o primeiro grande palhaço negro do Brasil. Durante a entrevista, o artista relembrou os desafios do início da carreira, refletiu sobre o papel social da arte e denunciou os efeitos do racismo estrutural na cultura brasileira.
Ao longo da conversa, Wildson também compartilhou experiências vividas em apresentações em hospitais públicos e privados, defendeu o acesso democrático à cultura e destacou a importância de resgatar a memória de Benjamin de Oliveira, personagem fundamental da história do circo nacional, mas ainda pouco conhecido pelo grande público.
Dos trens ao reconhecimento artístico
Wildson contou que iniciou sua carreira em março de 2015, realizando apresentações nos trens da Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro. A escolha do nome artístico surgiu como uma homenagem bem-humorada ao humorista Mussum e ao universo popular.
Segundo ele, os primeiros espetáculos ajudaram a complementar a renda familiar em um período de dificuldades financeiras, mas também revelaram que a palhaçaria poderia se transformar em uma profissão.
Ao longo da década seguinte, acumulou apresentações em festivais, teatros, unidades do Sesc, escolas, praças e projetos culturais, além de consolidar um trabalho contínuo em hospitais e desenvolver pesquisas sobre a história do circo brasileiro.
“A arte tem que ser uma ação pública e democrática”
Para Wildson França, a arte deve ser compreendida como um direito da população, da mesma forma que educação, saúde e alimentação.
“Eu entendo que arte tem que ser uma das ações públicas e democráticas. As pessoas têm que ter direito à arte como têm direito a comer, a beber, a dormir e a ter um lar.”
Na avaliação do artista, levar espetáculos às ruas, comunidades e espaços públicos fortalece tanto o público quanto os próprios artistas, permitindo que a cultura alcance pessoas que normalmente não frequentam teatros ou grandes centros culturais.
O riso como instrumento de cuidado
Uma das partes mais emocionantes da entrevista foi dedicada ao trabalho desenvolvido em hospitais infantis.
Wildson relatou que, ao longo dos anos, testemunhou inúmeras situações em que a presença do palhaço transformou o ambiente hospitalar e ajudou crianças e familiares a enfrentarem momentos difíceis.
Ele lembrou o caso de um pai que o procurou para agradecer porque sua filha voltou a sorrir depois de uma internação.
“Saber que melhorou o dia de alguém sempre foi muito maravilhoso. É uma alegria que não cabe no chapéu.”
Segundo o pesquisador, o trabalho não beneficia apenas as crianças, mas também pais, profissionais de saúde e todos que convivem naquele ambiente.
Racismo ainda limita artistas negros
Durante a entrevista, Wildson afirmou que o racismo continua sendo um obstáculo na trajetória de artistas negros, inclusive dentro da palhaçaria.
Ele relatou episódios em que foi subestimado por ser um palhaço negro e defendeu políticas permanentes de combate ao racismo estrutural.
“Eu sofri alguns momentos porque me ignoravam, me subestimavam como se eu não fosse palhaço.”
Na sua avaliação, ainda há um apagamento histórico das contribuições de artistas negros para a cultura brasileira, realidade que também atingiu Benjamin de Oliveira.
Benjamin de Oliveira: um pioneiro ainda pouco conhecido
Grande parte da entrevista foi dedicada à trajetória de Benjamin de Oliveira, considerado por Wildson uma das figuras mais importantes da história do circo brasileiro.
Nascido em Minas Gerais, Benjamin tornou-se ator, cantor, diretor, dramaturgo, compositor e palhaço, participando da consolidação do circo-teatro no país e abrindo caminho para diversos artistas brasileiros.
Segundo o pesquisador, Benjamin conviveu com nomes como Chiquinha Gonzaga, João da Baiana, Oscarito, Procópio Ferreira e Aracy Cortes, além de estar entre os primeiros artistas negros a ganhar destaque positivo na imprensa nacional e no cinema brasileiro.
Wildson destacou ainda que Benjamin precisou pintar o rosto de branco para conseguir atuar em determinados espaços, evidenciando a dimensão do racismo vivido naquele período.
Sonhos para o futuro
Depois de dez anos de carreira, Wildson afirma que seu principal objetivo é ampliar o acesso das crianças às artes circenses.
Entre os projetos estão a criação de uma escola de circo, o fortalecimento das atividades culturais na Baixada Fluminense e a circulação nacional do espetáculo dedicado à vida de Benjamin de Oliveira.
Também pretende ampliar ações voltadas para crianças em situação de vulnerabilidade, utilizando o circo como ferramenta de inclusão social e formação artística.
Ao encerrar a entrevista, o artista deixou uma mensagem de incentivo às novas gerações.
“É importante mostrar às crianças que elas podem ser aquilo que quiserem, desde que estudem e lutem para conquistar seu espaço.”
Referências
- Benjamin de Oliveira — artista circense brasileiro, ator, cantor, dramaturgo e diretor (1870–1954).
- Chiquinha Gonzaga — compositora e maestrina brasileira.
- João da Baiana — sambista brasileiro.
- Oscarito — ator e humorista brasileiro.
- Procópio Ferreira — ator e diretor teatral brasileiro.
- Bibi Ferreira — atriz, cantora e diretora teatral brasileira.
- Aracy Cortes — atriz e cantora brasileira.
- Abdias do Nascimento — escritor, artista e fundador do Teatro Experimental do Negro.
- Hermínia Silva — pesquisadora e biógrafa de Benjamin de Oliveira.
- Daniel Lopes — pesquisador da história do circo brasileiro.
- Chacrinha — apresentador de televisão brasileiro.
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