Presidenta do Sindicato dos Aeroviários do Ceará denuncia precarização extrema, monopólio da terceirizada de solo e risco de tragédias aéreas em entrevista à Rádio e TV Atitude Popular
A rotina de quem embarca em um avião costuma terminar na porta da aeronave: sente, aperte o cinto, aguarde o pouso e siga para a esteira de bagagens. O que fica invisível para a maioria dos passageiros é justamente o que hoje mais preocupa quem trabalha nos bastidores dos aeroportos. A presidenta do Sindicato dos Aeroviários do Ceará, Sonia Maia, resume esse quadro com um alerta duro: segundo ela, “a aviação está gritando por socorro, porque a joia da coroa tá sendo massacrada todo dia”.
As denúncias foram feitas em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, exibido em 18 de novembro, apresentado por Sara Goes, com comentário do professor e sindicalista Antonio Ibiapino. Ao longo de quase uma hora, Sonia descreveu um cenário de terceirização agressiva, salários corroídos, assédio, sucateamento de equipamentos e riscos sistemáticos à segurança de voo, que, na avaliação dela, não dizem respeito apenas à categoria, mas a toda a sociedade.
Do glamour à invisibilidade
Sonia lembra que o imaginário sobre a aviação foi moldado por décadas de glamour: companhias “de elite”, pilotos vistos como heróis, comissárias transformadas em símbolo de elegância. Nos bastidores, porém, a engrenagem que torna qualquer voo possível é bem menos romântica.
Ela separa os papéis para o público leigo: aeroportuários são os que trabalham na infraestrutura do aeroporto; pilotos e comissários são aeronautas; já quem prepara a aeronave no solo, faz limpeza, abastecimento, manuseio de bagagens e equipamentos é aeroviário. É essa base, afirma, que hoje está no limite.
“A aviação ela não é lugar para passagem, para subemprego”, diz Sonia. “Quem tudo produz e quem tudo faz é o aeroviário. O piloto nada mais é do que um trabalhador de luxo. Ele chega com sua tripulação e assume a aeronave que está aprontada em perfeito estado pelo aeroviário.”
Segundo ela, a política nacional da categoria deixou de representar os trabalhadores, empurrando os estados a se emanciparem. Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Alagoas já haviam feito esse movimento quando o Ceará decidiu seguir o mesmo caminho. Sonia assumiu a presidência em 2019 e, após quatro anos e meio demitida, obteve na Justiça sua reintegração e o registro do sindicato estadual em 4 de dezembro de 2024.
“Eu me tornei a primeira mulher a desmembrar um estado na categoria aeroviária dentro do Brasil, primeira mulher a registrar”, afirma, ressaltando que a conquista veio em meio a intensa perseguição patronal.
Terceirização, “colaboradores” e a conta que não fecha
Um dos pontos centrais da denúncia é a terceirização do chamado handling, a operação de solo. Segundo Sonia, essa mudança não apenas precarizou salários e condições de trabalho como desmontou a identidade de classe dos aeroviários.
Ela critica a substituição da palavra “trabalhador” por “colaborador” nos contratos e no discurso empresarial. “Colaborador é aquele que colabora com a fortuna do patrão”, dispara, ao explicar que a linguagem não é neutra: ao se ver como colaborador de uma marca e não como trabalhador, o funcionário perde referência de direitos, de sindicato, de negociação coletiva.
Sonia cita o caso da empresa terceirizada responsável pelo serviço de solo no Aeroporto de Fortaleza, que, segundo ela, monopoliza o handling para as principais companhias aéreas que operam no estado. De acordo com a dirigente, só nessa base são cerca de 420 trabalhadores submetidos a perdas salariais e de benefícios que ela classifica como “saque na mão grande”.
Pela conta apresentada na entrevista, a negativa do pagamento de domingos em dobro retira cerca de 400 reais por mês de cada aeroviário. No vale-alimentação, que deveria chegar “cheio” ao trabalhador, haveria um desconto informal de aproximadamente 200 reais na cesta básica. Na prática, seriam 600 reais a menos por mês por pessoa, o que, multiplicado pelos 420 funcionários, significa algo em torno de 252 mil reais mensais de recursos que deixam de ir para o bolso de quem trabalha e alimentam o caixa da empresa. Em um ano, passa de 3 milhões de reais.
Sonia relata ainda casos em que trabalhadores acidentados em serviço vão parar no hospital público já à noite, têm o atendimento registrado a partir de meia-noite, e, nesse intervalo, perdem o direito imediato à cesta básica. “A empresa, na cara de pau, não respeita a dor do trabalhador”, denuncia, contando que, em um caso narrado no programa, a cesta só foi devolvida dois meses depois, com o aeroviário quebrado, com dois filhos pequenos, “agonizando” à espera do benefício.
“O sentimento que nós temos não é só de escravidão, é de estarmos abandonados, largados às traças. E como presidenta desse sindicato, eu não fui eleita para isso. Eu não desmembrei esse estado para isso.”
Dejetos na pista, maquinário sucateado e risco de tragédias
Se a questão salarial já seria grave, Sonia afirma que a situação do maquinário e das condições de trabalho no solo avança para o campo da segurança de voo e da saúde pública.
Ela descreve equipamentos “em ponto de destroço”, veículos atravessando a pista e furando aeronaves e cita um caso recente em que, segundo o sindicato, uma aeronave teve a decolagem vetada porque a empresa teria tentado esconder o furo na estrutura. “Se essa aeronave sai furada, ou ela poderia ter causado um acidente por dentro da aeronave, ou depois que a aeronave subisse a aeronave abria com todo mundo a bordo”, alerta.
Sonia explica que o trabalho de remoção de resíduos e higienização das aeronaves, conhecido como QTU, também está precarizado. O equipamento que deveria garantir a remoção segura de dejetos estaria, segundo ela, “furado, dando banho de dejetos em todo mundo e sendo espalhado pela pista”. O quadro preocupa pela combinação de risco sanitário com risco operacional.
A dirigente insiste que acidente aéreo não é destino, mas resultado de uma cadeia de falhas que pode ser interrompida. “Avião não é feito para cair. O homem é que derruba”, afirma. “Um avião não cai por menos de sete motivos. E esses sete motivos, sempre que acontece um acidente, além de não serem explicitados, são maquiados.”
Ela lembra tragédias passadas e ressalta que os impactos ultrapassam tripulação e passageiros. “O acidente aéreo ele não é seletivo. Ele mata o pobre, ele mata o rico. Ele mata a autoridade, ele mata o simples. Ele mata inclusive quem não tem nada a ver com a situação”, diz, citando o acidente de 2007 em Congonhas, que vitimou também pessoas em solo.
“Quando a aviação está em risco, está sofrendo não só o aeroviário, o trabalhador de solo, mas a sociedade como um todo, porque ninguém tá preparado para receber um avião no quintal da sua casa, nem na sala da sua casa.”
A mesa histórica das três mulheres e o Ministério Público
No centro recente da disputa, está a atuação de uma procuradora do Ministério Público do Trabalho, identificada por Sonia como Cristiane. Segundo a presidenta do sindicato, após oito anos de tentativas frustradas, foi essa procuradora que conseguiu colocar, pela primeira vez, empresa e sindicato frente a frente em uma mesa de negociação.
Ela narra que a audiência foi “um momento histórico”, por reunir uma procuradora, uma gestora da empresa e uma presidenta de sindicato, todas mulheres. Na reunião, o sindicato levou fotos, vídeos e registros do sucateamento de equipamentos e das denúncias de assédio moral no pátio.
Sonia relata que a própria procuradora teria se espantado com a gravidade das informações, ao ponto de dizer que só tomou dimensão do problema ao ouvir a dirigente falando em um programa de rádio. “Alguém tinha que me ouvir e a minha categoria tá em sofrimento. Quando a minha categoria tá em sofrimento, eu vou buscar a solução seja onde for”, contou a sindicalista.
Para ela, o próximo passo é ampliar a pressão, chamando não apenas o Ministério Público do Trabalho, mas Ministério Público Federal, governo estadual e órgãos de aviação civil. “A gente precisa chamar todo mundo e dizer assim: quando a aviação está em risco, está sofrendo a sociedade como um todo”, reforça.
Pandemia, Bolsonaro e a conta que sobrou para os aeroviários
Em um dos trechos mais duros da entrevista, Sonia relaciona o quadro atual à política trabalhista e econômica do governo Jair Bolsonaro. Ela lembra a medida provisória editada durante a pandemia, que permitiu cortes de jornada e salários, e diz que muitos aeroviários que ganhavam entre 2.800 e 3 mil reais tiveram sua renda reduzida a pouco mais de mil reais.
Ela afirma que a categoria foi uma das mais prejudicadas pelo fechamento de fronteiras e pela paralisação do turismo e não poupa palavras ao avaliar o ex-presidente. “Eu não sou obrigada a me comover por quem nunca sentiu nada pelo sofrimento alheio”, diz. Em seguida, conclui: “No momento em que ele resolver desencarnar e deixar a gente em paz, que a terra lhe seja pesada. Bolsonaro para mim é lixo.”
O comentarista Antonio Ibiapino, por sua vez, contextualiza o ataque aos direitos trabalhistas em uma perspectiva histórica, lembrando a reforma da Previdência e a reforma trabalhista apoiadas pelos governos Michel Temer e Jair Bolsonaro. Ele também resgata episódios clássicos do movimento operário, como a “revolta dos merdeiros” e a origem da palavra greve na França, para defender a importância da organização coletiva e sugerir que os aeroviários retomem o caminho da mobilização de base.
Greves no exterior e isolamento no Brasil
Questionada pela apresentadora sobre greves de controladores de voo e comissários em países como Canadá e Estados Unidos, Sonia reconhece que há uma crise internacional no setor, mas ressalta que, no Brasil, o quadro é ainda mais grave justamente porque a fiscalização é mais frágil e a organização sindical vem sendo sistematicamente atacada.
“Lá, onde as regras são bem mais cumpridas, quando vem explodir, aqui tá muito pior”, resume. Ela afirma que, até o momento, o sindicato cearense não possui uma articulação orgânica com entidades internacionais, mas considera fundamental que a sociedade entenda que a combinação entre aumento da demanda por voos, lucros bilionários e terceirização agressiva cria um ambiente explosivo.
“Conversa com patrão tem que ser avião no chão”
A paciência, avisa a presidenta, está no limite. Ao falar da negociação coletiva com a patronal nacional, Sonia critica a proposta baseada apenas no repasse do INPC e em um reajuste de 3% no vale-alimentação, enquanto se cobra da categoria escalas de 44 horas semanais em um contexto mundial em que se discute redução de jornada para menos de 30 horas.
Ela considera a oferta “desrespeitosa” e envia um recado direto às empresas aéreas. “O que eu quero responder para o SNEA e para todas as outras gigantes é que, para mim, conversa com patrão tem que ser avião no chão”, afirma. Segundo ela, só quando a “rampa” parar, isto é, quando o fluxo de pousos e decolagens for interrompido por mobilização trabalhista, o setor vai se ver obrigado a discutir de verdade salários, jornadas e segurança.
Ao final da entrevista, Sonia agradece o espaço e reforça que não fala apenas em nome dos aeroviários que aparecem nas fotos de campanhas internas, mas sobretudo dos invisíveis que recebem “banho de dejetos” na pista, bebem água clorada sob sol de 60 graus e voltam para casa exaustos, com medo de que o próximo acidente envolva um colega, um passageiro ou um bairro inteiro.
“Quando você tira a dignidade do trabalhador, você tá tirando a vontade dele de viver e de prestar um bom serviço”, resume. Para ela, defender a causa dos aeroviários é, no fim das contas, defender cada pessoa que entra em um aeroporto acreditando que sua viagem está segura.
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