Da Redação
Historiador Evaldo Lima analisa o uso político das Copas do Mundo, do fascismo de Mussolini à influência de Donald Trump, e defende a retomada dos símbolos nacionais pela população brasileira
As relações entre futebol, poder e autoritarismo foram o tema da edição de 17 de junho do programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas. O convidado foi o historiador Evaldo Lima, que analisou como diferentes regimes políticos utilizaram a Copa do Mundo como instrumento de propaganda, controle simbólico e projeção internacional. A entrevista foi transmitida pela TV Atitude Popular.
Ao longo da conversa, Evaldo traçou um paralelo entre a Copa de 1934, organizada pela Itália fascista de Benito Mussolini, e a Copa de 2026, realizada nos Estados Unidos sob a presidência de Donald Trump. Segundo o historiador, grandes eventos esportivos jamais estão dissociados dos contextos políticos em que acontecem.
“O futebol pode ser usado pelo poder, mas também pode ser um espaço de memória, identidade, resistência e democracia”, afirmou.
Ao comentar o atual Mundial, Evaldo foi contundente ao afirmar que a competição ocorre sob forte influência política do governo norte-americano. Ele criticou episódios envolvendo delegações estrangeiras, denúncias de tratamento discriminatório e a postura da FIFA diante da administração Trump. Para o historiador, a entidade esportiva demonstra submissão a interesses políticos ao invés de defender os princípios universais do esporte.
O professor recordou que a instrumentalização política do futebol não é novidade. A Copa de 1934, vencida pela Itália, foi apresentada como uma demonstração da suposta superioridade do fascismo. Segundo ele, Mussolini transformou o torneio em um espetáculo de propaganda estatal, cercado por denúncias de pressão sobre árbitros e intimidação de adversários. “Copa ou morte”, teria sido a mensagem transmitida pelo ditador aos atletas italianos.
A entrevista também abordou a Copa de 1978, realizada durante a ditadura militar argentina. Evaldo destacou que centros clandestinos de tortura funcionavam próximos aos estádios enquanto o regime tentava melhorar sua imagem internacional por meio do torneio. O historiador lembrou ainda que o craque holandês Johan Cruyff recusou-se a disputar a competição em protesto contra o regime argentino.
Outro ponto discutido foi a presença do racismo nas primeiras décadas do futebol brasileiro. Evaldo observou que as seleções brasileiras de 1930 e 1934 não contavam com jogadores negros em um contexto marcado pela influência de teorias raciais e eugenistas. A mudança ocorreria em 1938, quando Leônidas da Silva se tornaria o grande destaque da equipe nacional. Para o historiador, foi justamente a incorporação da influência afro-brasileira que ajudou a moldar o estilo criativo e admirado do futebol brasileiro.
Ao analisar a Copa de 1970, Evaldo destacou a tentativa da ditadura militar de associar a conquista do tricampeonato à propaganda oficial do regime. Ele elogiou a série documental Brasil 70: A Saga do Tri, da Netflix, por mostrar simultaneamente a genialidade da equipe comandada por Pelé e o contexto de censura e repressão vivido pelo país. Segundo ele, o mérito esportivo daquela geração não pertence aos governantes da época.
“O brilho daquela seleção não pertence à ditadura. É patrimônio do Brasil, pertence ao povo brasileiro”, afirmou.
A reta final da entrevista foi dedicada ao debate sobre os símbolos nacionais. Evaldo criticou a apropriação da camisa da seleção brasileira por setores da extrema direita e defendeu que os brasileiros retomem esses símbolos como elementos de identidade coletiva.
“A camisa amarela do Brasil não pertence ao bolsonarismo, à CBF ou à FIFA. A camisa amarela pertence à memória afetiva de milhões de brasileiros”, declarou.
O historiador argumentou que abandonar a bandeira e a camisa da seleção significaria entregá-las definitivamente a grupos políticos que procuram monopolizar o patriotismo. Para ele, é possível manter o senso crítico diante dos usos políticos do futebol sem abrir mão da paixão esportiva.
“Não podemos entregar essa camisa amarela nas mãos dos fascistas. A extrema direita vive do rancor, do ódio e do ressentimento. A gente deve viver da alegria, da felicidade e da luta da nossa gente”, concluiu.
Referências
Livro
O Drible, de Sérgio Rodrigues – Companhia das Letras
Séries
Brasil 70: A Saga do Tri, minissérie da Netflix. Dirigido por Paulo Morelli, 2026.
México 1986, produção da Netflix estrelada por Diego Luna. Dirigido por Gabriel Ripstein, 2026.
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