Especialistas analisam como nove horas diárias online, discurso de ódio e fake news afetam a saúde mental — com alerta para crianças e adolescentes
No Dia Mundial da Saúde Mental, o Vozes pela Democracia dedicou a edição de 10 de outubro a um diagnóstico urgente: o Brasil é o segundo país do mundo em tempo online diário, com cerca de nove horas por dia conectados, segundo o Digital 2024: Global Overview Report. O programa, apresentado por Sousa Júnior, ouviu a psiquiatra Ana Paula Guljor (presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental) e o professor e pesquisador Jéfte Amorim para discutir os impactos desse hiperconectividade na mente — especialmente de crianças e adolescentes. As informações e declarações desta reportagem têm como fonte a entrevista exibida no programa.
Logo na abertura, Jéfte Amorim cravou a linha de força do debate: “A desinformação é sobretudo um projeto de poder”. Para ele, a avalanche de conteúdos falsos e tóxicos não é um acidente de percurso, mas um modelo de negócios que sustenta grandes plataformas e agendas políticas: “A depressão é a doença mais incapacitante do planeta, segundo a OMS, e nós vemos um crescimento de transtornos mentais e, pela primeira vez, um aumento preocupante de suicídio entre adolescentes e até crianças”. A equação, diz, combina solidão, falta de políticas públicas e oligopólio de dados e atenção: “Isolar pessoas é lucrativo; impede organização coletiva e cria dependência”.
Quando o sofrimento não é “doença”, mas produto do ambiente
Ana Paula Guljor propôs mudar o foco do indivíduo para o contexto: “Esse sofrimento nem sempre vai ser um adoecimento”. Desigualdade social, expectativas de desempenho e fragilização das redes de proteção empurram sujeitos para a promessa de pertencimento das plataformas. O resultado aparece em epidemias de diagnósticos, ansiedade e depressão, mas também em efeitos “manada” e autolesões que se disseminam por modulações algorítmicas de comportamento e por bullying digital. “Aquilo que nas escolas era ‘brincadeira de mau gosto’ virou discurso de ódio — racista, LGBTfóbico, misógino — amplificado pelas redes”, disse.
Guljor também chamou atenção para um recorte regional pouco discutido: “No mundo, há redução dos índices de suicídio; na América Latina, há aumento”, com forte correlação com crises sociais recentes e a experiência da pandemia. Para enfrentar a captura da atenção e da subjetividade, ela defende regulação efetiva, educação midiática e diálogo permanente com famílias e escolas: “As redes foram projetadas para capturar o sujeito para um mundo virtual. O diálogo amplo com a sociedade precisa ser colocado”.
Educação midiática, convivência e o “voltar a escrever à mão”
Na lista de “remédios” coletivos, Jéfte Amorim priorizou políticas públicas de convivência (praças vivas, cultura, esporte, escola de tempo integral), atenção psicossocial em rede e educação midiática que vá além do tutorial de ferramenta: “Educação para comunicação é gerenciar emoções e entender os modelos econômicos por trás da tecnologia”. Ele lembrou evidências que recolocam o caderno e a escrita manual como aliados da aprendizagem: “Escrever à mão mobiliza mais habilidades cognitivas do que digitar”. A tecnologia, compara, deve atuar como a calculadora: útil depois que a pessoa aprende a resolver problemas — não antes.
Sobre limites etários e uso de telas, Guljor é pragmática: não se trata de proibir pura e simplesmente, mas de estabelecer critérios e rotinas — especialmente na primeira infância e adolescência, quando o cérebro está em desenvolvimento: “É usar como, quanto, com quem e para quê. E reconhecer também os benefícios — como trocas culturais e comunicação de povos indígenas — sem invisibilizar os riscos”.
Regulação, participação e cuidado como política
A entrevista convergiu para três frentes:
- Regulação das plataformas com responsabilização por danos, transparência algorítmica e proteção de crianças e adolescentes;
- Políticas públicas de saúde mental com cuidado territorial (CAPS, escolas, atenção primária) e redução de desigualdades;
- Pacto social pela convivência — menos muros, mais comunidade.
Na síntese de Amorim: “Nunca abram mão do convívio e do poder coletivo”. E, na de Guljor: “Regulação, educação e diálogo são condições para que a tecnologia sirva à vida — e não o contrário”.
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