Professor Nelson Campos alerta que consciência crítica exige método, educação e disputa com a ideologia produzida pelos donos do poder
No programa Café com Democracia desta segunda-feira, 17 de novembro, o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela UFC, fez um longo e didático percurso pela história das ideias para explicar como a informação de qualidade pode formar consciência crítica – e como a desinformação pode produzir alienação em massa. A conversa foi ao ar pela TV Atitude Popular e por uma rede de rádios comunitárias, sob a mediação do apresentador Luiz Regadas, que conduziu o debate sobre o tema “A informação ou a desinformação como meios para construir a consciência crítica ou a alienação da sociedade”.
Logo no início, o professor marcou a diferença entre dado, informação e consciência. Ao falar de Platão, Sócrates, Aristóteles e Marx, ele lembrou que citar datas, contextos e conceitos é apenas o ponto de partida. O que importa é o uso social e político desses conteúdos: “Mas o que é importante é o que você faz com essas informações”. A partir daí, passou a mostrar como, ao longo da história, as classes dominantes não quiseram apenas controlar a economia, mas também a forma como as pessoas pensam.
Da escravidão antiga à ideologia moderna
Recuando à Antiguidade, Nelson Campos lembrou que “todos os povos na antiguidade adotaram o modo de produção escravista” e que isso moldou até o pensamento dos grandes filósofos clássicos. Segundo ele, Platão e Aristóteles consideravam normal a divisão rígida entre quem manda e quem obedece:
“Tanto Platão como Aristóteles diziam: ‘A escravidão é justa’. Porque algumas pessoas já nascem inteligentes para pensar e mandar. Outras nascem guerreiras, corajosas, voluntariosas para lutar e manter a ordem social, e outras nascem brutas para trabalhar e obedecer.”
Esse tipo de formulação, explicou o professor, é mais do que opinião: é ideologia a serviço de uma estrutura de poder. “Você pega os valores dos dominadores e procura passar para a cabeça do dominado”, resumiu, mostrando como o escravo não era apenas submetido pela força física, mas por uma “violência ideológica” que fazia com que ele se aceitasse “como apenas um objeto vivo, um animal que fala”.
Na Idade Média, essa dominação se reorganiza sob a forma do teocentrismo: Deus no centro de tudo, a Igreja Católica como principal proprietária de terras e poder político. “A camada social ou a instituição que tem o controle dos meios de produção, ela procura, além disso, controlar também as estruturas políticas, jurídicas e ideológicas”, disse. A lógica se repete na modernidade com a ascensão da burguesia, o absolutismo e, depois, a Revolução Industrial, quando o conflito entre burguesia industrial e proletariado urbano leva Marx a afirmar que “a luta de classes é o motor da história”.
Consciência individual, consciência coletiva e poder
Ao discutir como se forma a consciência, Nelson Campos recorreu a referências clássicas da sociologia. Citando um sociólogo francês, ele lembrou a frase: “Para onde o indivíduo vai, ele leva a sociedade em sua cabeça”. A ideia é que a consciência individual seja permanentemente influenciada pela consciência coletiva, pelos valores e normas que circulam na sociedade.
Essa influência, destacou, é uma forma concreta de poder, como já analisava Max Weber. Por isso, quem controla os meios de comunicação, a educação e os aparelhos ideológicos tem vantagem na disputa por corações e mentes. “As transformações acontecidas na infraestrutura, na base material, na base econômica, elas se refletem na superestrutura, que é a base política, jurídica e ideológica”, explicou.
É nessa chave que ele insere o fenômeno contemporâneo das fake news e da desinformação. Para Campos, não se trata de erro inocente, mas de um projeto consciente de manipulação:
“A desinformação, as pessoas que usam a desinformação como prática, elas sabem que estão mentindo, elas têm consciência disso, mas o problema é que a mentira favorece a elas.”
Doxa x episteme: o choque entre achismo e ciência
Ao tratar diretamente da formação da consciência crítica, o professor recuperou a distinção feita por Platão entre doxa (opinião) e episteme (conhecimento científico). Segundo ele, não há como construir pensamento crítico sem método, sem checagem, sem experiência e sem pesquisa:
“Dizia Platão, temos que nos afastarmos da doxa e buscarmos a episteme. O que que é doxa? Doxa é a sua opinião, aquilo que você acha, é o achismo. E o que que é episteme? É o conhecimento científico.”
Em seguida, trouxe Francis Bacon para a conversa, lembrando o princípio empirista de que “nada está na mente de um indivíduo sem que antes tenha passado pelos seus sentidos” e que “a prática é o critério da verdade”. A partir daí, Nelson Campos cravou a frase que dá o tom de toda a entrevista:
“Quer dizer, a desinformação não se baseia em ciência, se baseia no achismo.”
Para ele, esse contraste entre ciência e achismo é o núcleo da disputa atual: de um lado, quem está disposto a investigar, comparar fontes, testar hipóteses; de outro, quem dissemina boatos e crenças porque isso rende poder, votos ou dinheiro.
O que é alienação e por que ela cresce com a desinformação
Provocado por Luiz Regadas sobre por que se chama o desinformado de “alienado”, o professor transformou a resposta em pequena aula de filosofia social. Ele começou explicando o sentido da palavra:
“A palavra alienação, Luiz, vem, significa do outro ou para o outro.”
A partir daí, fez um paralelo com o próprio trabalho na universidade, que é realizado em benefício da instituição:
“Trabalho alienado é quando você não se apropria do resultado do que você produziu. Você trabalha para outro. O que é que é uma pessoa politicamente alienada? É que pensa pela cabeça do outro e não sabe por que pensa.”
E sintetizou o conceito de forma direta:
“Alienação, gente, é a falta de conhecimento.”
Essa falta de conhecimento, completou, não é apenas um problema de escolaridade, mas de ausência de reflexão. Ele defendeu o exercício da “introspecção” – “a análise que a sua consciência faz de sua própria consciência” –, perguntando: “Por que que eu penso assim? Por que que eu defendo isso?”. Sem esse exame interno, muitas pessoas apenas repetem frases prontas, slogans e preconceitos que receberam de terceiros.
Vovôs do WhatsApp, redes sociais e inteligência artificial
Ao abordar o papel das novas tecnologias, Nelson Campos reconheceu que a desinformação ganhou potência com as redes sociais e agora com a inteligência artificial. Questionado sobre os chamados “vovozinhos do WhatsApp”, que compartilham notícias falsas acreditando que são verdadeiras, ele fez questão de diferenciar má-fé e ingenuidade:
“O fato dela acreditar que é verdade, ela passa a defender aquilo como se verdade fosse. Não é uma pessoa mal intencionada, é uma pessoa ingênua, pessoa que não tem, como no nosso assunto aqui, não tem consciência crítica, capacidade de reflexão, de fazer uma introspecção.”
Ao narrar sua própria experiência com algoritmos sugerindo músicas e paisagens dos lugares para onde vai viajar, o professor alertou para a capacidade dessas tecnologias de orientar escolhas, gostos e comportamentos. “Eles têm o controle de como fazer as pessoas a pensar e agir e se comportar de determinada maneira”, observou.
Religião, cruzadas e o uso político da fé
Outro ponto sensível da conversa foi o uso da religião como ferramenta de controle ideológico, tanto no passado quanto no presente. Nelson lembrou as cruzadas organizadas em 1095, quando o Papa convocou cristãos a combater “infiéis” muçulmanos em nome de Deus, produzindo massacres em larga escala:
“Deus quer, mas Deus quer o quê? Que os cristãos fossem a Jerusalém buscar perdão aos seus pecados, combatendo os infiéis, os descrentes, que eram os muçulmanos.”
Ele enfatizou que os muçulmanos “não são descrentes, eles creem”, apenas em divindades diferentes, e insistiu que todas as crenças – inclusive o agnosticismo e o ateísmo – devem ser respeitadas. O problema, apontou, é quando a religião é instrumentalizada para impedir o outro de pensar diferente: daí nascem guerras, perseguições e, hoje, campanhas de ódio político travestidas de moral religiosa.
Ideologia, mídia e o papel dos grandes meios de comunicação
Questionado sobre a responsabilidade dos meios de comunicação na construção da consciência crítica, o professor foi categórico ao ligar concentração econômica e manipulação da opinião pública:
“Os meios de comunicação, as grandes empresas comunicadoras, TV Globo, Bandeirantes, Record, SBT, etc., todas elas estão sob o controle dos empresários e eles não vão fazer um jornalismo baseado na realidade, na verdade. Eles vão criar desinformação, eles vão levar as pessoas a pensar do jeito que os empresários querem que eles pensem.”
Nessa linha, retomou Marx para definir ideologia como “falsa consciência”:
“A ideologia, segundo Marx, é uma falsa consciência. Ou seja, você passa a acreditar como verdade em algo que não é verdade, que não tem nenhuma comprovação de que seja.”
O papel da filosofia crítica, segundo ele, é justamente “desmascarar a ideologia”, “tirar a máscara que encobre o processo de alienação”. Mas essa tarefa não é apenas de filósofos e acadêmicos; envolve movimentos sociais, sindicatos, partidos, coletivos culturais e todos aqueles que se organizam para disputar narrativas.
Educação: esclarecer ou alienar?
Ao ser perguntado se mais educação seria um antídoto automático contra a desinformação, Nelson Campos fez um alerta importante: a educação também pode ser usada para alienar.
“A educação tanto pode ser no sentido construtivo como no sentido destrutivo. Quer dizer, pode servir para esclarecer, para conscientizar, para politizar, para fazer as pessoas entenderem melhor, com clareza o mundo que vivem (…), mas serve também para iludir, para alienar, para desinformar.”
Por isso, defendeu uma educação que estimule a dúvida, a crítica, a pesquisa e o confronto de ideias, citando a tradição sofista e o pensamento de Protágoras para lembrar que não existem padrões absolutos de valor, mas que essa própria afirmação já é uma contradição – o que obriga a filosofia a ser permanentemente questionadora.
Povo, voto e responsabilidade política
Na parte final da entrevista, o professor problematizou expressões como “a sociedade quer” ou “meu povo”, usadas com frequência por políticos. Para ele, é preciso distinguir conceitos como população e povo: a população é quem mora num território; o povo, em sentido político, é quem exerce cidadania por meio do voto.
“Povo é o eleitorado. Quando você pega a Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988, tá lá: o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido.”
Essa diferença, explicou, recoloca a responsabilidade do voto no centro da discussão sobre corrupção e crise de representação:
“Ao você vender o seu voto, você está ajudando um corrupto a se eleger. E depois que ele se eleger, ele tá pouco ligando para você. Ele pagou por sua consciência, você vendeu sua consciência porque quis.”
Informação como prática de liberdade
Ao encerrar o programa, Luiz Regadas e Nelson Campos voltaram ao eixo central da conversa: ou a informação é tratada como prática de liberdade, apoiada em método, checagem e debate democrático, ou a desinformação seguirá alimentando mitos, ódio político, fanatismos religiosos e submissão aos interesses de uma minoria poderosa.
A chave, insiste o professor, está justamente na capacidade de duvidar, de ir às fontes confiáveis e de não se contentar com o “eu acho”. Em tempos de algoritmos, fake news e uso político da fé, a frase que atravessa toda a entrevista ecoa como um aviso e um convite à responsabilidade coletiva: “A desinformação não se baseia em ciência, se baseia no achismo, eu acho.”
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