Atitude Popular

“A economia solidária nasceu antes do capitalismo”

Retrospectiva de 2025 aponta avanços históricos, desafios estruturais e a centralidade dos territórios no Dia Nacional da Economia Solidária

Celebrado em todo o país em 15 de dezembro, o Dia Nacional da Economia Solidária foi marcado por balanços, comemorações e alertas no programa Bancos da Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular. A edição especial, apresentada por Sara Goes, reuniu Leonora Mol, da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais, Alzira Medeiros, do Fórum Brasileiro de Economia Solidária (FBES), e Fernando Zamban, diretor do Departamento de Parcerias e Fomento da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES/MTE), para uma ampla retrospectiva dos principais avanços e desafios do setor ao longo de 2025.

A matéria tem como base o conteúdo do programa Bancos da Democracia, transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular, com retransmissão por mais de 30 rádios e TVs comunitárias em todo o Brasil, em edição dedicada ao Dia Nacional da Economia Solidária.

Logo na abertura, Sara Goes destacou o caráter simbólico da data e a singularidade do programa. Único na mídia progressista dedicado exclusivamente à economia solidária, o Bancos da Democracia encerrou o ano reafirmando o compromisso com um modelo econômico centrado na vida, na cooperação e na autogestão. “Nada do que conquistamos cai do céu”, pontuou a apresentadora, ao lembrar que cada avanço no campo da economia solidária resulta de organização social e disputa política permanente.

Ao fazer o balanço da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, Leonora Mol destacou 2025 como um ano decisivo de consolidação institucional e projeção nacional e internacional. Segundo ela, a rede passou a existir formalmente, com CNPJ próprio e diretoria eleita, reunindo hoje 185 bancos comunitários, entre eles cinco bancos municipais, além de experiências consolidadas de moedas sociais. “A economia solidária é muito mais velha do que eu. Nós nascemos antes do sistema capitalista e seguimos aqui, provando que outra economia é possível”, afirmou.

Leonora ressaltou como marco estratégico a tramitação do PL 476, que regulamenta bancos comunitários e moedas sociais, já aprovado em comissões da Câmara e em fase avançada no Congresso. Para ela, a aprovação pode tornar o Brasil um dos primeiros países do mundo a reconhecer legalmente esse tipo de instituição financeira popular. Outro destaque foi a ampliação do uso da moeda social digital e-dinheiro, que já movimenta cerca de R$ 3 bilhões, com 400 mil usuários e 28 mil comércios cadastrados, fortalecendo economias locais e circuitos curtos de produção e consumo.

A dirigente também celebrou a expansão dos bancos municipais no Nordeste e a presença da rede em espaços internacionais estratégicos, como o G20, os BRICS e os debates preparatórios da COP30, reforçando o caráter inovador e territorial da experiência brasileira. “É no território que a vida acontece e é no território que a economia solidária mostra sua força”, afirmou, citando visitas de delegações internacionais a experiências como o Banco Palmas.

Representando o governo federal, Fernando Zamban situou 2025 como um ano de reconstrução após o desmonte institucional do período anterior. Ele reconheceu limites orçamentários, mas enumerou conquistas relevantes. Entre elas, a realização da 4ª Conferência Nacional de Economia Solidária, com etapas em todas as unidades da federação, mais de 700 propostas debatidas e 80 diretrizes aprovadas, consideradas por ele um sinal de maturidade política do movimento.

Zamban destacou ainda a aprovação da Lei Paul Singer, marco legal da economia solidária no Brasil, e anunciou a iminente publicação do decreto de regulamentação. “Passa governo, mas a lei fica”, afirmou, ressaltando que o país passa a contar com um arcabouço jurídico mais sólido para sustentar políticas públicas no setor. Outro avanço citado foi a entrada em campo dos 500 agentes de economia solidária, já atuando em mais de 300 territórios, articulando formação, fomento e políticas públicas locais.

Entre os pontos comemorados, o diretor da SENAES ressaltou a primeira chamada pública de fomento às redes de cooperação solidária, com R$ 15 milhões destinados a 12 redes selecionadas, além do debate sobre cooperativismo de plataforma e o desenvolvimento de softwares livres para trabalhadores de aplicativos. Também foi lembrada a assinatura de termos para a implantação do Sistema Nacional de Finanças Solidárias, apontado como prioridade estratégica para 2026.

Na fala do Fórum Brasileiro de Economia Solidária, Alzira Medeiros trouxe uma leitura política mais ampla, conectando a trajetória da economia solidária à resistência histórica dos povos originários, comunidades quilombolas, mulheres negras e trabalhadores das periferias. Para ela, o maior ganho de 2025 foi a demonstração de capilaridade e resiliência do movimento, mesmo após anos de fragmentação e escassez de recursos. “A economia solidária não quer só mitigar a pobreza. Nós queremos felicidade, bem viver, igualdade e paz”, afirmou.

Alzira também apontou os limites ainda existentes. Segundo ela, o fomento permanece insuficiente diante das necessidades reais dos empreendimentos, e há uma disputa permanente do fundo público com os interesses do capital. Defendeu maior integração entre políticas federais, estaduais e municipais e criticou a fragmentação excessiva de agendas econômicas no interior do próprio Estado. “Não basta a lei. No Brasil, nenhum direito se sustenta sem organização social”, alertou.

O debate convergiu para a ideia de que 2025 foi um ano de acúmulo de forças, mas que 2026 será ainda mais desafiador, tanto pelo cenário político quanto pela necessidade de ampliar orçamento, integração institucional e presença territorial. Ao encerrar o programa, Sara Goes lembrou que a economia solidária segue sendo uma trincheira estratégica contra a desigualdade, a violência e o avanço de projetos autoritários. “Colocar a vida no centro das decisões não é retórica. É um projeto político”, afirmou.

A edição especial terminou em clima de celebração e vigilância, reafirmando que a economia solidária, mais do que um conjunto de iniciativas, é um movimento vivo, enraizado nos territórios e sustentado pela luta coletiva.

📺 Programa Bancos da Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 8h30 às 9h30
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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