Antropóloga analisa denúncias contra a Meta, a influência das plataformas digitais nas campanhas eleitorais e os desafios para garantir transparência e responsabilidade no uso da inteligência artificial
A atuação das grandes empresas de tecnologia no processo eleitoral brasileiro e os efeitos da inteligência artificial sobre a disputa política foram os temas centrais de uma edição do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, com participação da antropóloga Isabela Kalil, autora do livro Política sintética: como a inteligência artificial transforma os políticos, as eleições e a democracia?. A entrevista abordou as denúncias envolvendo a Meta, empresa responsável por plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp, e discutiu como decisões técnicas e comerciais dessas companhias podem afetar a circulação de informações e o debate público.
Durante a conversa, Kalil chamou a atenção para a dimensão inédita do processo eleitoral de 2026. “A eleição de 2026 é uma eleição, é a primeira eleição no Brasil realmente marcada pelo uso da inteligência artificial”, afirmou. Para a pesquisadora, a presença dessas ferramentas não se limita à produção de conteúdos digitais: elas também modificam as formas de participação política, a organização das campanhas e as condições em que os eleitores recebem informações e constroem suas opiniões.
Denúncias contra a Meta colocam transparência no centro do debate
Um dos principais pontos da entrevista foi a repercussão das denúncias relacionadas ao funcionamento de ferramentas de inteligência artificial da Meta durante a campanha eleitoral. No programa, foi mencionada a divulgação de notificações e reclamações dirigidas ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de questionamentos sobre respostas consideradas insuficientes por representantes da campanha do Presidente Lula.
Entre os episódios discutidos estava o relato de que uma ferramenta de inteligência artificial vinculada à Meta teria gerado conteúdos políticos relacionados a Flávio Bolsonaro, mas não produzido respostas equivalentes envolvendo Lula. A situação levantou dúvidas sobre o funcionamento dos sistemas, os critérios utilizados para gerar conteúdo eleitoral e a aplicação das regras que disciplinam o uso dessas tecnologias durante as campanhas.
Kalil ponderou que, até aquele momento da discussão, não era possível afirmar que as ocorrências demonstravam uma interferência intencional da empresa. Isso, no entanto, não eliminava a necessidade de esclarecimentos. Para a antropóloga, havia questões relevantes sobre a demora nas respostas da companhia e a falta de transparência a respeito dos mecanismos que teriam provocado os resultados relatados.
“Eu acho que as plataformas, a grande questão hoje é sobre transparência”, afirmou.
A pesquisadora destacou que a responsabilização das empresas precisa considerar o papel que elas exercem na vida pública. Embora sejam organizações privadas, as plataformas digitais oferecem serviços que passaram a ocupar uma posição central na comunicação política, na divulgação de informações e no relacionamento entre candidatos, governos e eleitores.
“Não tem como você conduzir uma eleição, conduzir uma campanha fora das plataformas digitais”, observou Kalil. Segundo ela, essa centralidade impede que as empresas tratem suas decisões como questões exclusivamente internas, sem prestar esclarecimentos sobre efeitos que podem alcançar milhões de pessoas.
A discussão também evidenciou a diferença entre comprovar uma ação deliberada e exigir explicações sobre o funcionamento de um sistema. Mesmo quando não há elementos suficientes para demonstrar intenção, falhas recorrentes, respostas tardias e falta de informações públicas podem comprometer a confiança nos serviços digitais, especialmente durante uma eleição.
Responsabilidade das plataformas vai além da justificativa técnica
Na avaliação de Kalil, o debate sobre regulação das grandes empresas de tecnologia precisa avançar para além de princípios genéricos. A existência de regras, por si só, não garante que elas sejam efetivas. É necessário estabelecer mecanismos capazes de verificar como as plataformas operam, quais critérios orientam seus sistemas e de que maneira respondem quando são identificados problemas.
A antropóloga ressaltou que a influência das plataformas sobre os processos eleitorais não começou com a popularização da inteligência artificial generativa. Desde pelo menos 2016, com as controvérsias envolvendo o uso de dados e o caso Cambridge Analytica, pesquisadores e especialistas vêm examinando a capacidade das tecnologias digitais de interferir em campanhas e processos políticos.
O que mudou, segundo ela, foi a ampliação do acesso a ferramentas que permitem produzir textos, imagens e vídeos em grande escala. Com a popularização desses recursos, tornou-se mais fácil criar materiais políticos, adaptar mensagens a diferentes públicos e participar de campanhas sem depender de estruturas profissionais de comunicação.
Esse cenário aumenta a importância da transparência sobre os sistemas que distribuem conteúdos e das responsabilidades das empresas que os administram. Também exige distinguir os diferentes agentes envolvidos: uma plataforma pode hospedar publicações produzidas por usuários, mas suas próprias ferramentas de recomendação, geração de conteúdo e moderação também influenciam o ambiente informacional.
A regulação, portanto, precisa levar em conta tanto o comportamento dos usuários quanto as decisões empresariais que determinam as condições de circulação e produção de conteúdo.
O que significa política sintética
O conceito de “política sintética”, desenvolvido por Kalil no livro de mesmo nome, procura explicar transformações que vão além da simples incorporação de novas tecnologias às campanhas. A expressão se refere ao modo como o uso instrumental da inteligência artificial pode produzir ou reorganizar corpos, relações, posições e estratégias de ação política.
Na entrevista, a pesquisadora explicou que as ferramentas generativas se popularizaram a partir de 2023 e passaram a oferecer recursos que antes exigiam conhecimentos técnicos ou investimentos maiores. Isso alterou as possibilidades de atuação de candidatos, militantes, apoiadores e usuários comuns.
“Eu acho que a gente tá vendo um momento de inflexão histórica”, afirmou, ao avaliar as mudanças provocadas pela inteligência artificial na política. Para ela, as campanhas e os próprios políticos serão modificados por esse processo, cujas consequências ainda estão sendo compreendidas.
A transformação também envolve as plataformas nas quais essas ferramentas são disponibilizadas. Kalil ressaltou que não basta analisar a inteligência artificial de forma isolada, porque seus usos atuais estão profundamente relacionados aos serviços digitais que concentram a comunicação, a produção e a distribuição de conteúdos.
O acesso ampliado à tecnologia abre oportunidades de participação, mas também coloca questões sobre quem controla os sistemas, quais interesses orientam seu funcionamento e como a sociedade pode estabelecer limites para seus efeitos.
Conteúdo produzido por apoiadores ganha peso nas campanhas
Outro eixo importante da conversa foi a participação de usuários comuns na comunicação eleitoral. Kalil avaliou que uma campanha não depende exclusivamente dos materiais divulgados por suas equipes oficiais. A atuação de apoiadores, inclusive daqueles com poucos seguidores ou inseridos em grupos pequenos de mensagens, pode contribuir para que conteúdos políticos circulem e alcancem novos eleitores.
“Não importa o seu alcance, se seu alcance puder virar voto de uma pessoa, isso faz diferença”, afirmou.
A pesquisadora explicou que a inteligência artificial reduz custos e facilita a produção de materiais que antes exigiam mais tempo e recursos. Usuários podem criar imagens, vídeos e peças de humor para compartilhar em seus próprios círculos de relacionamento, ampliando a participação descentralizada na campanha.
Como exemplo, mencionou conteúdos que apresentam Lula em situações fictícias ou bem-humoradas, com referências à música e ao entretenimento. Quando o público compreende que se trata de uma criação artificial, esse tipo de material pode funcionar como recurso de comunicação política sem necessariamente buscar enganar quem o recebe.
Kalil também observou que a extrema direita já utiliza há anos estratégias que combinam redes digitais, grupos de mensagens e contato presencial. Por isso, a disputa política não pode ser compreendida apenas a partir do alcance das publicações ou do desempenho dos conteúdos nas plataformas.
“É entender que não importa o seu alcance”, reiterou a pesquisadora, ao defender a participação dos apoiadores na produção e circulação de mensagens políticas.
Na avaliação apresentada no programa, o ambiente digital e a mobilização presencial funcionam de maneira complementar. As conversas podem começar nas redes e continuar pessoalmente, ou fazer o caminho inverso. A comunicação eleitoral, portanto, depende também das relações cotidianas, dos vínculos sociais e da capacidade de dialogar diretamente com outras pessoas.
Inteligência artificial também permite ampliar a presença de figuras políticas
Kalil chamou a atenção para outra possibilidade aberta pelas ferramentas generativas: a criação de imagens e vídeos que colocam figuras públicas em situações nas quais não estiveram. Na campanha de Flávio Bolsonaro, ela citou o uso de representações produzidas artificialmente de Jair Bolsonaro, que está preso, em materiais de apoio político.
A pesquisadora mencionou, ainda, uma montagem que apresentava Flávio como personagem de um videogame. Segundo sua análise, a circulação desse tipo de conteúdo mostra como materiais produzidos por apoiadores podem adquirir importância para uma campanha, mesmo quando não são elaborados ou controlados diretamente pela equipe oficial.
O fenômeno apresenta desafios distintos. Conteúdos fictícios e humorísticos podem ser reconhecidos pelo público como criações artificiais, enquanto outras produções podem confundir os limites entre representação, declaração real e acontecimento documentado.
A discussão sobre os chamados deepfakes e outras imagens sintéticas exige, por isso, atenção às circunstâncias de produção, à forma como o material é apresentado e à possibilidade de induzir o público ao erro. O simples fato de uma imagem ter sido criada com inteligência artificial não esclarece, por si só, sua finalidade ou seu potencial de dano.
A antropóloga também apontou que as próprias campanhas enfrentam dificuldades para definir como lidar com conteúdos produzidos espontaneamente por seus apoiadores. Há preocupações legítimas com o cumprimento das regras eleitorais, mas o controle integral dessas publicações é difícil, especialmente quando a produção ocorre de maneira descentralizada.
O desafio de combinar participação, regras e controle democrático
A entrevista abordou a relação entre o funcionamento das plataformas e a capacidade de usuários e campanhas de influenciar o debate público. A inteligência artificial pode ampliar a participação política ao reduzir barreiras de produção, mas os sistemas continuam inseridos em serviços administrados por empresas privadas, com regras, recursos e critérios próprios.
Sandra Helena, responsável pelos comentários no programa, relacionou esse cenário às dificuldades de compreender o funcionamento dos algoritmos e à influência de seus proprietários sobre a circulação de informações. A discussão destacou que as escolhas tecnológicas não são inteiramente independentes das decisões humanas: sistemas são desenvolvidos, treinados, configurados e operados por pessoas e organizações.
Essa dimensão torna insuficiente atribuir todos os problemas a uma suposta autonomia da tecnologia. É necessário investigar como as ferramentas são construídas, quais parâmetros utilizam e que procedimentos existem para corrigir resultados inadequados.
A preocupação se estende para além das eleições. Na conversa, foram levantadas questões sobre os efeitos dessas tecnologias na formação das percepções, na confiança em imagens e registros e na maneira como crianças e jovens vão aprender a interpretar informações em ambientes digitais.
A facilidade para produzir representações artificiais também desafia critérios tradicionais de avaliação da autenticidade. Diante de conteúdos cada vez mais convincentes, o contexto, a origem do material e a possibilidade de verificação passam a ter importância ainda maior.
Democracia exige transparência sobre quem controla a tecnologia
A contribuição central de Kalil para o debate foi mostrar que a inteligência artificial não deve ser tratada como uma força inevitável, separada das escolhas políticas, econômicas e humanas. As ferramentas são desenvolvidas e utilizadas em contextos concretos, nos quais existem interesses, disputas e relações de poder.
Ao mesmo tempo que permitem ampliar a participação dos cidadãos nas campanhas, elas podem aumentar a dependência de plataformas privadas e tornar mais difícil identificar os responsáveis por determinados efeitos. A questão democrática envolve, assim, tanto o uso que as pessoas fazem dessas ferramentas quanto as condições estabelecidas pelas empresas que as disponibilizam.
A antropóloga defendeu maior transparência e prestação de contas pública por parte das plataformas. O desafio é criar mecanismos que permitam examinar decisões e corrigir problemas sem reduzir a discussão a explicações técnicas que não respondam às dúvidas da sociedade.
A entrevista no Democracia no Ar reforçou a necessidade de compreender as transformações em curso durante o processo eleitoral de 2026. Com a inteligência artificial integrada à produção de conteúdos, à mobilização de apoiadores e à atuação das plataformas, a disputa política passa a envolver também o controle das ferramentas que influenciam a circulação de informações.
Para Kalil, compreender a política sintética significa reconhecer que a tecnologia já participa da organização das campanhas e das formas de participação pública. A resposta democrática depende da capacidade de tornar visíveis essas mediações, estabelecer responsabilidades e assegurar que os sistemas utilizados no debate eleitoral possam ser submetidos a regras e fiscalização.
Livro citado
- Política sintética: como a inteligência artificial transforma os políticos, as eleições e a democracia? Autora: Isabela Kalil. Publicação recente, conforme mencionado na entrevista. O ano de publicação não foi informado no material fornecido.
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