“A Europa, pela dimensão de seu mercado e por sua influência regulatória, projeta suas normas para além de suas fronteiras”

Como demonstra o exemplo das carnes brasileiras, as normas sanitárias e a rastreabilidade tornaram-se variáveis centrais do comércio internacional e do risco econômico para os países emergentes, observa o economista brasileiro Gustavo Pessoa, em tribuna publicada no Le Monde.

Por Gustavo Pessoa


Economista e professor de Economia e Finanças da FGV-SP, com formação internacional e atuação nas áreas de macroeconomia, regulação financeira, mercado de capitais e política econômica. Também acumulou experiência no mercado financeiro, incluindo consultorias e gestão de investimentos. Em 2026, participou de uma audiência pública do governo dos Estados Unidos como o único brasileiro a defender tecnicamente o Pix, tornando-se uma espécie de testemunha de defesa do sistema brasileiro de pagamentos diante das críticas apresentadas na investigação comercial americana.

A decisão da União Europeia (UE) de restringir, a partir de setembro, a entrada de determinados produtos de origem animal provenientes do Brasil, em razão de exigências relacionadas ao uso de antimicrobianos, transcende largamente o caso da carne bovina. Ela evidencia uma transformação mais profunda do comércio internacional.

As normas sanitárias, ambientais e de rastreabilidade deixaram de ser meros instrumentos técnicos. Passaram também a constituir variáveis econômicas, financeiras e geopolíticas.

Seria excessivamente simplista interpretar esse episódio como um confronto clássico entre o protecionismo europeu e os interesses exportadores brasileiros. A resistência aos antimicrobianos é um desafio real de saúde pública mundial. A Europa tem o direito, e de fato o dever, de estabelecer padrões elevados para proteger seus consumidores e limitar os riscos sanitários associados às cadeias alimentares globalizadas.

Entretanto, a questão não se encerra aí. Sempre que uma norma sanitária altera as condições de acesso ao mercado europeu, ela também produz efeitos econômicos. Atinge exportadores, frigoríficos, empresas de logística, produtores rurais, seguradoras, bancos e investidores expostos às cadeias agroalimentares. Em outras palavras, uma regra concebida no âmbito da saúde pública pode converter-se em risco comercial e financeiro.

Comprovar e documentar

Para o Brasil, grande exportador agrícola e ator central nos mercados mundiais de proteínas animais, a mensagem é inequívoca. A competitividade já não se mede apenas em volumes, preços ou produtividade. Doravante, ela depende também da capacidade de demonstrar conformidade, rastreabilidade, controle sanitário e credibilidade institucional.

Na economia mundial contemporânea, exportar deixou de significar unicamente produzir em grande escala. Passou a exigir comprovação, documentação e confiança.

Essa evolução diz respeito ao conjunto das economias emergentes. Durante longo período, sua vantagem comparativa assentou-se principalmente na abundância de recursos naturais, nos custos de produção ou na expansão da capacidade exportadora. Hoje, esses fatores continuam relevantes, mas já não bastam. O acesso aos mercados desenvolvidos depende, em medida crescente, de padrões regulatórios complexos, frequentemente associados à saúde, ao clima, ao trabalho, à biodiversidade ou à segurança alimentar.

Tribuna publicada no Le Monde em 14 de julho de 2026.

A Europa desempenha papel singular nessa transformação. Pela dimensão de seu mercado e pela extensão de sua influência regulatória, a UE projeta suas normas para além de suas fronteiras.

Esse poder normativo pode ser positivo quando eleva a qualidade dos produtos, reduz riscos sanitários e estimula práticas mais responsáveis. Pode, contudo, tornar-se fonte de incerteza para os parceiros comerciais quando as exigências se alteram rapidamente ou quando sua aplicação se mostra difícil de antecipar.

É nesse ponto que a questão adquire natureza macroeconômica. As empresas exportadoras não necessitam apenas de regras exigentes. Necessitam, igualmente, de regras previsíveis. A incerteza regulatória eleva o custo do capital, posterga investimentos, dificulta a celebração de contratos e obriga as empresas a ampliar gastos com conformidade, auditorias, documentação e reestruturação das cadeias de suprimento. Para os países emergentes, esse custo pode converter-se em uma nova modalidade de prêmio de risco.

O debate, portanto, não deveria opor, de maneira ingênua, as normas europeias à soberania brasileira. Deveria concentrar-se na construção de uma convergência regulatória crível.

O Brasil precisa aperfeiçoar seus mecanismos de controle, reforçar a transparência de suas cadeias produtivas e demonstrar que seus exportadores são capazes de atender às exigências sanitárias mais rigorosas. A UE, por sua vez, deve assegurar que suas regras sejam aplicadas com clareza, proporcionalidade e previsibilidade.

Uma lição severa

A relação entre a Europa e a América Latina não pode ser reduzida a uma troca de matérias-primas por normas. Ela deve evoluir para uma parceria fundada na confiança. Essa confiança pressupõe padrões rigorosos, mas também canais técnicos de cooperação, períodos de transição realistas e o reconhecimento dos esforços de adaptação empreendidos pelos produtores.

O episódio das carnes brasileiras demonstra que o comércio do século XXI será menos dominado pelas tarifas aduaneiras tradicionais e cada vez mais pelas normas. Nesse novo ambiente, a fronteira entre política sanitária, política comercial e política industrial torna-se progressivamente mais tênue.

Para os exportadores emergentes, a lição é severa, mas incontornável: a rastreabilidade converteu-se em uma verdadeira moeda de acesso aos mercados.

Para a Europa, a responsabilidade é igualmente relevante. Se pretende defender um comércio fundado em regras, deverá transformar suas normas em instrumento de confiança, e não em fator de opacidade.

A carne brasileira, portanto, não está apenas no centro de uma controvérsia sanitária. Ela revela uma mutação mais ampla. Na economia mundial, a norma converteu-se em uma forma de poder. E esse poder, quando mal compreendido ou insuficientemente antecipado, rapidamente se transforma em risco comercial.

EUA lideram origem de armas que abastecem facções criminosas no Brasil, aponta especialista
O combate ao crime organizado no Brasil passa necessariamente pelo enfrentamento ao fluxo internacional de armas. Essa é a avaliação do professor Fauzi Hassan Choukr, especialista em relações globais e Direito Penal Internacional, que analisa como países do Norte Global, especialmente os Estados Unidos e, em menor escala, Israel, ocupam posição central na cadeia que abastece o arsenal das facções criminosas brasileiras.


Levantamentos recentes mostram que 94,6% dos fuzis apreendidos no estado do Rio de Janeiro em 2024 foram fabricados no exterior. Desse total, cerca de 60% tiveram origem nos Estados Unidos, maior exportador mundial de armas pequenas. Alemanha, Áustria, República Tcheca e Israel também aparecem entre os principais países fabricantes das armas encontradas em operações policiais.


Segundo Choukr, embora o comércio internacional de armamentos seja majoritariamente legal, parte desse arsenal acaba desviada para o mercado ilícito por meio de redes de contrabando que utilizam principalmente o Paraguai como rota de entrada no Brasil. O especialista destaca ainda a expansão das chamadas “ghost guns”, armas montadas a partir de kits de peças adquiridos legalmente no exterior, mas posteriormente montadas e comercializadas no mercado clandestino, o que dificulta o rastreamento pelas autoridades.


O professor também chama atenção para o papel de Israel no mercado global de armamentos. Embora sua participação seja menor em relação aos Estados Unidos, o país figura entre os principais exportadores mundiais e é frequentemente apontado por estudos internacionais pela baixa transparência na divulgação de informações sobre suas exportações de armas. Fuzis de fabricação israelense já foram identificados em apreensões realizadas no Brasil, tanto ao lado de armamentos produzidos nos Estados Unidos quanto em países europeus.


Outro ponto destacado pelo especialista são as fragilidades das fronteiras brasileiras, especialmente na região da Tríplice Fronteira e nas divisas com Paraguai, Peru, Colômbia e Venezuela, que continuam sendo importantes corredores para a entrada de armamentos destinados às organizações criminosas. Em muitos casos, as armas chegam desmontadas ou ocultadas em cargas comerciais, dificultando a fiscalização.


Para Fauzi Hassan Choukr, o enfrentamento ao crime organizado não pode se limitar às operações policiais dentro do território nacional. “É indispensável ampliar a cooperação internacional para rastrear a origem das armas, fortalecer os mecanismos de controle sobre exportações e responsabilizar os países que concentram a produção mundial de armamentos. Enquanto o fluxo internacional permanecer ativo, as facções continuarão tendo acesso a armamento de guerra”, afirma.