Professor da UFC discute violência policial, crise migratória, discurso de segurança e o uso eleitoral da imigração no cenário político italiano
Da Redação
A imigração continuará sendo um dos principais temas da disputa política italiana nos próximos anos. Para o sociólogo Fábio Gentile, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o fenômeno migratório faz parte da própria história da humanidade e não pode ser interrompido por medidas repressivas ou discursos nacionalistas. A avaliação foi feita durante entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, que abordou o crescimento da extrema direita, a violência policial contra imigrantes e os impactos políticos da crise migratória na Itália.
Ao longo da entrevista, Gentile analisou como a imigração se transformou em uma das principais bandeiras dos governos de extrema direita italianos. Segundo ele, a posição geográfica da Itália, voltada para o Mar Mediterrâneo, fez do país uma das principais portas de entrada para refugiados e migrantes vindos da África e do Oriente Médio, especialmente após guerras, conflitos e instabilidades políticas na região.
Para o professor, o debate foi deslocado da busca por soluções para uma disputa ideológica baseada no medo.
“A segurança não é uma questão de direita ou de esquerda. É uma questão importante para todos. O problema foi o uso ideológico e político da segurança.”
Segundo Gentile, a extrema direita transformou a imigração em símbolo de insegurança pública, enquanto parte da esquerda também acabou reagindo de forma polarizada, dificultando um debate equilibrado sobre políticas migratórias.
Violência policial reacende debate
Durante a conversa, o sociólogo comentou um caso recente que mobilizou a opinião pública italiana: a morte de um imigrante que vivia no país desde a infância e apresentava transtornos psiquiátricos.
De acordo com Gentile, o homem foi contido pela polícia durante cerca de vinte minutos após ser encontrado em situação de crise. A abordagem terminou com sua morte.
Para o pesquisador, houve emprego desnecessário da força.
“O protocolo da polícia foi totalmente desnecessário para resolver aquela situação.”
Na avaliação do professor, o episódio acabou sendo apropriado pelos dois polos políticos. Enquanto setores da esquerda responsabilizaram diretamente o Estado e o governo, lideranças da extrema direita defenderam a atuação policial antes mesmo da conclusão das investigações.
Generalizações alimentam preconceitos
Ao comentar a presença de vendedores ambulantes imigrantes em cidades italianas, Gentile alertou para o risco de associar imigração e criminalidade.
Segundo ele, reduzir milhões de pessoas a uma única categoria impede compreender a diversidade das trajetórias migratórias.
“Não é possível colocar todos os imigrantes na mesma categoria.”
O sociólogo destacou que há pessoas que deixam seus países para trabalhar, estudar, buscar proteção internacional ou simplesmente sobreviver. Misturar todos esses grupos em um único discurso, afirmou, fortalece narrativas ideológicas que alimentam preconceitos.
Ao mesmo tempo, defendeu que políticas de acolhimento precisam ser acompanhadas de planejamento e capacidade de integração social.
Economia depende da imigração
Outro ponto enfatizado durante a entrevista foi a importância econômica da mão de obra estrangeira.
Gentile afirmou que países como Itália, França, Reino Unido e Estados Unidos passaram por profundas transformações demográficas e hoje dependem fortemente do trabalho realizado por imigrantes.
Segundo ele, muitos setores econômicos deixaram de atrair trabalhadores locais, tornando a imigração um componente essencial do funcionamento dessas economias.
“Os imigrantes constituem uma força de trabalho fundamental para sustentar o crescimento desses países.”
O professor citou como exemplos o trabalho rural na Itália, além da presença de comunidades migrantes em diversos segmentos produtivos da Europa e dos Estados Unidos.
Na avaliação do pesquisador, esse movimento não é circunstancial.
“A imigração é inevitável.”
Controle da mídia e fortalecimento do medo
Outro aspecto abordado foi a cobertura da imprensa italiana sobre imigração.
Segundo Gentile, a influência do atual governo sobre parte do sistema de comunicação contribui para ampliar a percepção de insegurança ao destacar com frequência crimes praticados por estrangeiros.
Na avaliação do sociólogo, essa narrativa reforça a ideia de que o imigrante representa uma ameaça permanente à sociedade italiana.
Ele também criticou discursos que defendem uma suposta identidade étnica italiana homogênea.
Para Gentile, a própria formação histórica da Itália desmente esse argumento, já que o país foi marcado por sucessivas invasões, ocupações e miscigenação ao longo de séculos.
Campos para imigrantes na Albânia
Durante a entrevista, o professor também criticou a política do governo italiano de instalar centros de detenção para migrantes na Albânia.
Segundo ele, além do elevado custo para os cofres públicos, a iniciativa enfrenta questionamentos por violar direitos humanos e por ter pouca efetividade prática.
Gentile lembrou que decisões da Justiça europeia já colocaram em dúvida a legalidade desse modelo de confinamento de migrantes antes da análise de seus pedidos de permanência.
Na avaliação do pesquisador, os recursos empregados poderiam ter sido direcionados para políticas públicas de integração, educação e assistência social.
Imigração deve dominar eleições italianas
Ao encerrar a entrevista, Fábio Gentile afirmou que a imigração continuará ocupando posição central no debate político italiano, especialmente diante das próximas eleições nacionais.
Segundo ele, partidos de direita e de esquerda devem utilizar o tema como instrumento de mobilização eleitoral.
O professor chamou atenção para o crescimento de novas organizações ultranacionalistas que defendem discursos contra imigrantes, direitos da população LGBT e a diversidade cultural.
Apesar disso, alertou que problemas reais de segurança pública não podem servir de justificativa para criminalizar toda uma população.
“É claro que ninguém gosta de ser assaltado”, observou. Porém, acrescentou que transformar todos os imigrantes em criminosos representa uma simplificação ideológica que dificulta enfrentar as verdadeiras causas do fenômeno migratório.
Referências
Filmes
- Le Havre (2011), dirigido por Aki Kaurismäki
Autores
- Max Weber
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