Atitude Popular

“A saúde mental não deve ser negligenciada”

Sanitarista Alessandra Pimentel alerta para ansiedade, pânico e depressão, e defende autoconhecimento, propósito e redes de cuidado para atravessar a pressão do mundo contemporâneo

Em meio à aceleração do mundo digital, à sobrecarga de trabalho e à sensação permanente de urgência, cresce o número de pessoas que adoecem emocionalmente sem perceber os sinais. Foi a partir desse diagnóstico que a sanitarista e consultora em Saúde Pública Alessandra Pimentel fez um alerta direto no Café com Democracia, programa da TV Atitude Popular apresentado por Luiz Regadas: “A saúde mental não deve ser negligenciada.” A entrevista, exibida no YouTube, discutiu caminhos possíveis para buscar equilíbrio em tempos de ansiedade coletiva.

No diálogo, Alessandra lembrou que a saúde mental ainda é cercada por estigma e preconceito. “Existe ainda muito estigma, muito preconceito. Porque a pessoa quando adoece logo se pensa: ‘a pessoa é louca’”, afirmou. Para ela, esse olhar distorcido atrasa diagnósticos e empurra gente adoecida para o silêncio, justamente quando mais precisa de acolhimento.

Pressão cotidiana, imediatismo e o corpo pedindo socorro

A sanitarista descreveu o ambiente contemporâneo como um gatilho permanente de desgaste psíquico. “A nossa maior preocupação é como equilibrar o stress diário, a sobrecarga de trabalho, a velocidade das informações, essa cobrança do imediatismo das coisas, que isso gera diretamente o adoecimento”, disse. Na conversa, ela apontou como principais quadros associados a esse cenário a ansiedade, o pânico e a depressão.

A convidada também trouxe um relato pessoal para mostrar como até pessoas com formação em saúde podem demorar a reconhecer o próprio sofrimento. Ela contou que viveu um processo de adoecimento em 2023 e que, em determinado momento, chegou a uma emergência achando que estava infartando. “Se eu não tivesse o meu conhecimento em saúde, eu não teria me atentado que não era um problema cardiológico, mas sim um problema de saúde mental”, relatou.

“A primeira coisa que eu digo é se conhecer”

Para Alessandra, o ponto de partida do equilíbrio não é uma fórmula pronta, mas um exercício de atenção para dentro. “A primeira coisa que eu digo é se conhecer. O que funciona para mim pode não funcionar para você.” Ela defendeu o autoconhecimento como ferramenta prática para identificar o que fortalece ou enfraquece emocionalmente cada pessoa, e criticou a lógica de comparação estimulada pelas redes.

No programa, ela citou o efeito do mundo virtual sobre a percepção de sucesso e fracasso, sobretudo entre jovens. “Você tá lá cheio de pessoas que dizem que se você fizer tal coisa, você vai ganhar R$ 20 mil por mês… Isso não é uma realidade”, afirmou, ao defender a necessidade de “conviver entre o real e o virtual”.

Sono, humor e apatia como sinais de alarme

Ao falar de prevenção, Alessandra indicou sinais que costumam ser ignorados até virarem crise. Entre eles, destacou a qualidade do sono como um alerta decisivo. “A qualidade do sono é um dos sinais de alarme para o nosso adoecimento”, disse, associando também ao quadro a alteração de humor, euforia seguida de choro e sensação de pânico “por tudo”.

Na visão da consultora, é preciso aprender a diferenciar o sofrimento natural da vida, como lutos e frustrações, de um processo continuado de adoecimento que demanda ajuda profissional. Ela lembrou que sentir-se mal não é motivo de vergonha e criticou a cultura que tenta empurrar as pessoas para uma “normalidade” artificial.

Gratidão, vínculo humano e um tempo mínimo para si

Entre as estratégias de cuidado, Alessandra propôs práticas simples, mas consistentes: reservar tempo para si, retomar hábitos que desaceleram a mente e reconstruir vínculos humanos fora da tela. “Luí, as pessoas hoje não conversam mais, é tudo no celular. Quem é que não gosta de receber um telefonema?”, provocou.

Ela também contou uma experiência que descreveu como transformadora: o exercício de listar motivos de gratidão. “Escreva aí 10 coisas pelo qual você é grato… Eu olhei e disse: ‘Puxa, quanta coisa boa aconteceu na minha vida’.” E emendou uma frase que, segundo ela, resume um descompasso comum: “A gente vive muito bem o mal e vive muito mal o bem.”

No programa, citou ainda leitura, música e contato com a natureza como formas de reduzir estímulos externos e reequilibrar o cérebro. “Estar próximo da natureza… dá um passeio no Parque do Cocó… olhando a perfeição das coisas. Isso é algo que me acalma muito”, disse.

“Sem sonhos a pessoa não progride”

A sanitarista criticou o modelo social que educa para a perfeição e para o desempenho constante, sem espaço para erro. “Eu passei minha vida toda me cobrando… tinha que tirar a melhor nota… ser exemplo”, relatou. Para ela, a incapacidade de lidar com frustração aparece hoje como um drama especialmente forte na adolescência, impulsionado por expectativas irreais do universo digital.

Ao defender propósito e projetos de vida, Alessandra destacou a importância de sonhar para além do material. “Eu sempre gosto de perguntar: ‘Qual é o seu sonho?’ E o que eu mais escuto é: ‘eu não tenho mais sonhos’. E aí eu digo: sem sonhos a pessoa não progride.” O recado, segundo ela, vale para estudos, trabalho, relações e até pequenas metas pessoais, desde que conectadas a sentido.

Rede de cuidado e acesso a atendimento

Nas considerações finais, Alessandra reforçou que saúde mental é também rotina de cuidado: “Se alimentar bem é importantíssimo. Fazer exercício físico é mais do que importante. Ter boas relações, cuidar da nossa mente. A nossa mente é que governa todas as nossas relações.” Ela lembrou que há atendimento psicológico gratuito em diferentes instituições e destacou a rede pública: “Temos o SUS, temos uma rede de atenção psicossocial… com excelentes profissionais.”

A convidada também divulgou seu Instagram para contato: @_alessandrapimentel.

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