Atitude Popular

“A solução de dois estados não funciona”

Sociólogo Gustavo Guerreiro analisa a Gaza do pós-cessar-fogo e alerta para “uma pausa de mentira” que reorganiza a ocupação sob nova tutela internacional

Na edição do Democracia no Ar (Rádio e TV Atitude Popular), a jornalista Sara Goes conversou com o sociólogo Gustavo Guerreiro sobre a Faixa de Gaza após o cessar-fogo, os impasses da reconstrução e a vida cotidiana de uma população que, mesmo com a redução do “massacre industrial”, segue sob cerco, humilhação e risco permanente. A discussão teve ainda comentários do analista Fábio Sobral, ampliando o debate geopolítico e econômico a partir do que os dois descrevem como uma reconfiguração do conflito — menos “fim” e mais rearranjo.

Antes de entrar em Gaza, o programa percorreu o clima político brasileiro das “últimas 48 horas”, com Sara Goes e os convidados apontando o que chamaram de continuidade de um “golpe em processo” e denunciando a assimetria institucional que, segundo eles, pune a esquerda e protege a extrema direita. A apresentadora citou episódios de redução de alcance de perfis e criticou o contraste entre a situação do deputado Glauber Braga e a da deputada Carla Zambelli, tratando o caso como sintoma de um sistema que “normaliza o absurdo” e opera pela confusão como método.

Cessar-fogo, mas com corredores, perímetros e tutela

Ao migrar para o tema central, Sara Goes definiu o acordo como um “cessar-fogo assintomático” e anunciou o compromisso editorial do programa: não permitir que o assunto seja “enterrado junto com os milhares de corpos” em Gaza. Para Gustavo Guerreiro, a fase atual não deve ser lida como pacificação, mas como intervalo estratégico: “uma espécie de pausa para consolidação de um projeto de poder maior”, disse, ao comentar o que chamou de um acordo com desenho operacional e ambições políticas.

O sociólogo descreveu a arquitetura do pós-cessar-fogo como um conjunto de dispositivos de controle territorial e administrativo. Ele citou a ideia de um perímetro de segurança (a “linha amarela”), além do controle israelense sobre corredores humanitários — mencionando o corredor de Netzarim, que corta Gaza ao meio, e o corredor Filadélfia, na fronteira com o Egito. Na leitura dele, isso fragmenta o território em áreas isoladas, enfraquecendo qualquer possibilidade de soberania efetiva e transformando Gaza em “bantustões”.

Guerreiro também mencionou a previsão de uma força internacional de estabilização e de um comitê tecnocrático palestino para gerir serviços básicos, com disputas sobre mandato e sequenciamento. A existência dessas propostas e a controvérsia sobre o papel da força — se seria primeiro separar forças no terreno ou desarmar o Hamas — têm sido objeto de debate diplomático e cobertura internacional. ([The Guardian][1])

“Pax trumpiana” e a crise de legitimidade

No encerramento, Gustavo sintetizou a consequência política do novo arranjo: “o processo de paz de Oslo tá morto”, afirmou, dizendo que teria sido substituído por uma “pax trumpiana” baseada não em reconciliação, mas em “zonas de segurança, barreiras físicas e uma governança tecnocrática” sem legitimidade social para se sustentar. Segundo ele, o redesenho produzido desde 2023 “redefiniu irrevogavelmente” a geografia e a política da região.

A crítica à tutela estrangeira aparece também no noticiário internacional, inclusive na discussão sobre nomes ventilados para estruturas de transição e reconstrução — como Tony Blair — e nas resistências de países árabes e muçulmanos a esse tipo de arquitetura. ([The Times][2])

A guerra como projeto econômico: canal, energia e “resorts”

Nos comentários, Fábio Sobral foi direto ao afirmar que a crise não se resolve por boa vontade nem por “equilíbrio entre lados”, mas porque haveria um objetivo estratégico de longo prazo: “o plano de Israel é claro, ele quer a limpeza étnica”, disse, defendendo que, no mínimo, haveria um projeto de expulsão em massa. Ele vinculou o território a interesses econômicos: um corredor alternativo ao Canal de Suez e o potencial energético no litoral, além de uma visão de reconfiguração urbana e turística que ele associou ao trumpismo.

Sem entrar em detalhes técnicos além do que foi dito no programa, a fala de Sobral operou como chave interpretativa: Gaza, para ele, não é apenas front militar, mas peça de infraestrutura e negócios. Nesse enquadramento, o cessar-fogo vira instrumento de reposicionamento: “é só para Israel se preparar para nova ofensiva”, comparando a lógica a tréguas usadas para rearmar.

Trauma, abandono e risco sanitário: “é um cemitério”

Ao tratar da vida cotidiana e do impacto humanitário, a conversa ganhou uma dimensão mais concreta. Sara Goes evocou o relato de um jornalista de origem palestina sobre revistas e assédio em checkpoints e destacou um sentimento que, segundo ela, cresce no povo palestino: a revolta não apenas contra Israel, mas “com o mundo inteiro”, por ter permitido que o genocídio acontecesse.

Gustavo concordou que se trata de um “trauma geracional”, mas observou que a experiência também pode fortalecer identidade e determinação política. A discussão caminhou para um ponto pouco debatido no noticiário diário: os efeitos sanitários de longo prazo. Sara descreveu Gaza como um território pequeno, com milhares de corpos sob escombros, e levantou hipóteses de contaminação de água e ar, risco de doenças persistentes e impactos que podem durar décadas. Gustavo resumiu a imagem em uma frase: “É um cemitério”.

Autoridade Palestina fragilizada e resistência reposicionada

Outro eixo recorrente foi a perda de centralidade da Autoridade Palestina. Para Sara, ela aparece “nula” como ator relevante no pós-cessar-fogo; para Sobral, é mais do que fragilidade: seria uma estrutura dependente, sem autonomia política. Gustavo, por sua vez, avaliou que, apesar de derrotas militares, grupos da resistência armada podem ter saído politicamente fortalecidos, porque parte da população teria concluído que “migalhas” não bastam.

É nesse ponto que vem a frase que dá título a esta matéria. Ao discutir o futuro, Gustavo afirmou: “A solução de dois estados não funciona” — e defendeu que a saída passaria por um Estado único, laico, “do rio Jordão ao Mediterrâneo”, com “desionização” do atual Estado israelense. Para ele, manter a entidade sionista como está inviabiliza qualquer coexistência real: “ou vai ou racha”. A pausa, portanto, seria “de mentira”.

O papel de China e Rússia e a abstenção no Conselho de Segurança

No programa, Gustavo questionou por que China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança, não vetaram a resolução que endossou o plano. Ele sugeriu que o veto poderia virar pretexto para manter o massacre e impor aos vetantes a obrigação de “resolver” militarmente — algo que poderia escalar para conflito maior. Sobral respondeu que bastidores e negociações são opacos, mas classificou a decisão como “um erro histórico”.

A aprovação da Resolução 2803 por ampla maioria, com abstenção de China e Rússia, foi reportada por diferentes veículos e gerou debate justamente por manter ambiguidades sobre governança, desarmamento e horizonte político para a autodeterminação palestina. ([Agência Brasil][3])

No fim, o Democracia no Ar voltou ao seu ponto de partida: se a confusão é método, a comunicação precisa ser antídoto. “Conquistar mentes e corações”, disse Gustavo, mas sem cair no “teatro” de uma guerra de versões em que “um fala uma coisa e outro fala outra”. Para os participantes, o desafio agora é impedir que o cessar-fogo seja o novo nome da ocupação, e que a reconstrução vire o eufemismo de uma tutela que adia — mais uma vez — a liberdade palestina.

https://www.youtube.com/watch?v=1-z4_zzfNTg

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