Pesquisadora da FGV, Julie Ricard revela dados inéditos sobre o avanço da machosfera no Brasil e alerta para redes que já reúnem mais de 200 mil usuários organizados em comunidades de ódio
Machosfera: o subterrâneo digital que saiu do controle
O Democracia no Ar desta segunda-feira (1º/12) recebeu a pesquisadora Julie Ricard, do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop/FGV), para discutir um tema que atravessa o noticiário brasileiro e expõe um problema estrutural: o crescimento explosivo de comunidades de ódio e violência contra mulheres nas redes sociais.
Os dados apresentados por Ricard são da pesquisa lançada pelo DesinfoPop/CEAPG/FGV e foram analisados ao vivo no programa, apresentado por Sara Goes, com comentários da professora Sandra Helena. Todas as aspas e declarações citadas na matéria foram retiradas da entrevista transmitida pela TV Atitude Popular.
Logo na abertura, Sara situou a gravidade do tema ao relembrar dois casos recentes que chocaram o país: a prisão do influenciador conhecido como “calvo do Campari” por agressão à namorada e o assassinato de duas servidoras do CEFET no Rio de Janeiro por um colega que “não aceitava receber ordens de mulheres”. Casos que, segundo ela, não são aberrações isoladas, mas “o retrato de um país que ama a maternidade, mas odeia mulheres”.
Um ecossistema de ódio em expansão: 220 mil usuários, 7 milhões de mensagens
Julie Ricard apresentou os principais achados da pesquisa que mapeou 85 comunidades públicas no Telegram dedicadas ao que ela chama de machosfera, também conhecida como “manosfera” ou esfera masculinista. O retrato é alarmante:
mais de 220 mil usuários brasileiros participam desses grupos;
o volume de conteúdo cresceu mais de 600 vezes desde a pandemia;
mais de 7 milhões de mensagens foram produzidas entre 2015 e 2025;
o Telegram modera parte dos grupos, mas é incapaz de impedir a circulação sistemática de misoginia, pornografia não consensual e incitação à violência.
Segundo Ricard:
“O que encontramos nesses grupos públicos já é terrível. E isso é apenas a pontinha do iceberg.”
Ela explica que a machosfera não é homogênea. Há desde grupos de pornografia e “avaliadores de mulheres” até comunidades incel, redpill, MGTOW e espaços que vendem “mentorias” para homens aprenderem a dominar mulheres ou se tornarem “alfa”.
Ao contrário do imaginário comum, esse universo não se formou nos últimos anos: ele é uma evolução de práticas que existem desde os primórdios da internet, do revenge porn aos fóruns de hackeamento de imagens íntimas.
Da pornografia de vingança aos deepfakes: tecnologia a serviço da violência
A pesquisadora lembrou que a violência digital contra mulheres acompanha a evolução tecnológica. Ela citou o caso de Hunter Moore, responsável pelo site de pornografia de vingança “Is Anyone Up?”, e o documentário “O homem mais odiado da internet”.
Hoje, o cenário é ainda mais complexo. Ricard destacou:
“Deepfakes pornográficos são uma forma moderna do mesmo abuso antigo: usar tecnologia para violentar mulheres.”
Ela mencionou o documentário Another Body, que narra a história de uma estudante universitária cuja imagem foi usada digitalmente em vídeos pornográficos criados por inteligência artificial.
Enquanto isso, redes como o Instagram exibem contradições profundas: mulheres adultas têm fotos educativas ou artísticas removidas por mostrarem menstruação ou amamentação, mas vídeos hipersexualizados de adolescentes seguem sendo recomendados por algoritmos.
“Existe um duplo padrão evidente na moderação das plataformas.”
Misoginia, racismo, homofobia: o pacote completo de ódio
A pesquisa mostra algo ainda mais inquietante: a misoginia nesses grupos não aparece isolada. À violência contra mulheres se somam:
racismo,
homofobia,
transfobia,
ódio de classe,
e até autodepreciação masculina, com relatos de sofrimento psicológico travestido de humor autodestrutivo.
Segundo a pesquisadora:
“Essas comunidades são moldadas por uma cultura de hipercompetitividade, violência e ressentimento. É uma crise de identidade masculina organizada digitalmente.”
Sandra Helena observou que esses discursos formam um terreno fértil para o avanço do conservadorismo religioso e de grupos criminais que controlam periferias impondo padrões de comportamento às mulheres — um fenômeno que ela chamou de “narcopentecostalismo”.
O caso Ícaro e o risco da naturalização
A conversa também abordou a polêmica entrevista do influenciador Ícaro no Fantástico, acusado de sexualização de meninas. Para Sandra, a entrevista expõe um mecanismo perigoso:
“Ele se coloca como benfeitor e a mídia não tensiona essa narrativa. Para quem assiste sem repertório, pode parecer que faz sentido.”
Julie alertou que monetizar corpos de meninas — ainda que com consentimento dos responsáveis — não pode ser tratado como atividade aceitável.
“Há um arcabouço jurídico que protege crianças porque elas não têm maturidade para compreender o impacto de trabalhar com hiperexposição e sexualização.”
A pergunta que fica: por que os homens não têm medo?
Sara levantou uma questão central: mesmo após ações do TSE, bloqueios de plataformas e decisões judiciais inéditas, usuários seguem propagando ódio sem qualquer receio.
Ricard afirma que a resposta é estrutural. O problema não é apenas falta de punição, mas uma cultura patriarcal reforçada por algoritmos e monetização, que transforma violência em conteúdo viralizável.
“A internet cria oportunidades para lucrar com a violência. E isso não pode ser normalizado.”
Política pública, educação digital e responsabilização
Julie defende abordagens multidimensionais:
regulação consistente das plataformas,
responsabilização criminal quando couber,
educação digital desde a infância,
e políticas públicas que enfrentem desigualdade, solidão e precarização masculina.
Segundo ela:
“Não existe solução simples para desmontar estruturas patriarcais tão antigas. Mas existe uma certeza: não podemos jogar essa responsabilidade sobre as mulheres.”
Sandra concluiu o programa lembrando que a esquerda precisa formular novas pedagogias de gênero, capazes de disputar imaginários e oferecer alternativas às masculinidades extremistas que se fortalecem no vácuo deixado pelas instituições.
A pesquisa completa
O relatório “Machosfera no Ecossistema Digital Brasileiro”, elaborado pelo DesinfoPop/FGV, está disponível em:
desinfopop.org
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