Ainda estou tentando assimilar uma demissão que chegou de surpresa e foi conduzida de uma maneira que me deixou chocada. Nunca havia sido demitida. A reunião em que fui comunicada da decisão aconteceu em resposta a um pedido meu de diálogo que nunca aconteceu, o tal “negociar com o patrão”. Não sei se é habitual que isso seja feito por um advogado, num ambiente de arguição que mais parecia um depoimento policial. Essa experiência, somada a onda de assédio a trabalhadores de esquerda após as eleições me fez pensar sobre a maneira como algumas pessoas enxergam o trabalhador.
Um emprego, pra quem não nasceu em berço de ouro ou vive à sombra de um sobrenome, representa a própria dignidade, a possibilidade de pagar as contas, criar os filhos e garantir o mínimo de segurança para viver. O jeito banal com que gente rica enxerga o trabalho e o sustento de outra pessoa é o maior atestado de vacuidade de quem só tem dinheiro.
É claro que a gente se recupera da porrada. Levanta a cabeça, encontra uma saída, dá um jeito e reconstrói as próprias condições materiais. A vida exige isso de quem depende do próprio trabalho para sobreviver. Mas tem um diacho que não consigo compreender: como alguém pode tratar com tanta frivolidade o sustento de outra pessoa e acreditar que está do mesmo lado que eu nessa luta? Ora, não está! A maneira como se enxerga o trabalho e a sobrevivência de quem vive do próprio salário também diz muito sobre o lugar que se ocupa na luta de classes.
Eu não mereço respeito porque tenho algum carisma, porque sou querida ou porque sustento sozinha meu filho. Mereço respeito porque sou uma trabalhadora competente, responsável e comprometida com aquilo que faço. Meu trabalho tem valor por si. Não preciso ser transformada em personagem de uma narrativa edificante sobre “a mãe solo nordestina” para que alguém considere justo me tratar com dignidade. Não preciso caber nesse clichê para ter direitos e merecer respeito.
Também, preciso assumir aqui, não tenho muita afinidade com certos códigos de convivência profissional. A bajulação, por exemplo, não faz parte do meu repertório, tampouco a naturalização do assédio moral, uma quase regra no jornalismo.
Desde que minha saída aconteceu, recebi muitas mensagens de apoio e solidariedade de colegas do 247, de quase todos com quem compartilhei essa trajetória. Agradeço muito por cada uma delas. Nas primeiras horas cada pergunta sobre os motivos da minha saída também me fazia investigar um pouco mais, tentar juntar as peças e compreender melhor o que havia acontecido. Cada nova conversa trazia outra pergunta, outra possibilidade de interpretação. Mas desisti deste quebra-cabeça para pensar, de maneira prática, nos meus próximos passos. Foi quando decidi parar. É o meu futuro que me interessa agora. Infelizmente não poderei fornecer aos colegas preocupados uma pista sobre que passos devem seguir para não caírem no mesmo destino que eu.
Quero agradecer especialmente aos colegas de tela e chat do 247 que estiveram comigo nesses três anos, pelo companheirismo e pela solidariedade neste momento. Construímos juntos um trabalho que merece ser valorizado. Não somos uma família, somos uma força de mídia independente, formada por profissionais e uma audiência que têm um papel importante na disputa pela informação e pela democracia. E essa força precisa ser reconhecida e preservada, inclusive nos momentos de conflito, quando as diferenças e os desacordos aparecem. Minha saída não diminui o valor do trabalho que realizamos nem a importância de quem continua fazendo isso acontecer.
Não escrevo isso porque pretenda prolongar conflitos ou transformar divergências profissionais em disputas pessoais. Lula e Dona Lindú me inspiram também pela defesa da paz, do diálogo e da boa convivência, inclusive quando há razões legítimas para o confronto. É nessa direção que quero seguir. Meu foco não será prolongar essa história, tampouco me dedicar a expor a elite do atraso que, por conveniência, veste vermelho.
Meu foco tem nome, sobrenome e futuro. Está crescendo, aprendendo a falar, descobrindo o mundo e me lembrando todos os dias por que vale a pena continuar. Meu filho é Luiz Inácio. E é para o futuro dele que quero guardar minha energia, minha inteligência e minha disposição de luta.
Cheiro para quase todos.
Sara Goes
