Da Redação
Mohammad Marandi afirma à RT que presença militar israelense no sul do Líbano revela ambições territoriais mais amplas e expõe fragilidade do acordo mediado pelos Estados Unidos
O professor iraniano Seyed Mohammad Marandi afirmou que Israel estaria planejando uma ocupação permanente de áreas do sul do Líbano e mantendo uma estratégia de expansão territorial também sobre regiões da Síria. Em entrevista à RT, Marandi disse que a permanência de tropas israelenses em território libanês viola compromissos assumidos em negociações recentes envolvendo Estados Unidos e Irã e demonstra, segundo sua avaliação, que Washington não estaria pressionando Tel Aviv a cumprir uma retirada efetiva.
A declaração ocorre poucos dias depois de Israel e Líbano assinarem, em Washington, um acordo mediado pelos Estados Unidos que prevê a retirada gradual das forças israelenses do sul libanês em troca do desarmamento do Hezbollah e da implantação do Exército libanês em zonas-piloto. O acordo, porém, já nasceu sob forte contestação. O Hezbollah rejeitou os termos, afirmando que o texto permite liberdade de ação militar a Israel dentro do Líbano, enquanto lideranças libanesas alertaram para o risco de aprofundamento das divisões internas.
Líbano volta ao centro da disputa regional
O sul do Líbano é uma das áreas mais sensíveis da geopolítica do Oriente Médio. A região concentra décadas de confrontos entre Israel e Hezbollah, presença de forças internacionais, deslocamentos de civis e disputas sobre soberania territorial. Para Israel, manter presença militar na área é apresentado como medida de segurança contra ataques do Hezbollah. Para o Líbano, para o Hezbollah e para aliados regionais do Irã, trata-se de ocupação e violação da soberania nacional.
Marandi insere essa leitura em uma interpretação mais ampla. Segundo ele, Israel não busca apenas neutralizar ameaças militares imediatas, mas consolidar uma nova realidade territorial no entorno de suas fronteiras. O professor relaciona a presença israelense no Líbano ao controle de uma faixa no sul da Síria, perto das Colinas de Golã ocupadas por Israel. A RT informa que Marandi descreveu esse processo como parte de um projeto de “Grande Israel”, expressão usada por críticos da política israelense para se referir a ambições expansionistas na região.
Acordo não pacifica o terreno
Embora apresentado por Washington como uma tentativa de estabilizar a fronteira entre Israel e Líbano, o acordo enfrenta obstáculos profundos. O Hezbollah se recusa a entregar armas, enquanto Israel condiciona sua retirada completa à neutralização da organização. O governo libanês, por sua vez, enfrenta o desafio de tentar afirmar autoridade estatal sem provocar uma crise interna que possa reabrir feridas sectárias e políticas no país.
A Reuters registrou que o presidente do Parlamento libanês, Nabih Berri, criticou duramente o acordo, classificando-o como imposição externa e alertando que sua implementação pode aprofundar divisões no Líbano. A AP também informou que declarações recentes de Donald Trump sugerindo que a Síria deveria assumir papel no combate ao Hezbollah aumentaram a preocupação em Beirute e em Tel Aviv, justamente porque reacendem memórias da antiga presença militar síria no Líbano e elevam o risco de novas frentes de instabilidade.
Síria entra novamente no tabuleiro
A Síria também voltou a ocupar posição estratégica no conflito regional. Após anos de guerra civil, fragmentação territorial e intervenção estrangeira, o país permanece vulnerável a pressões externas. Israel mantém operações militares em áreas próximas às Colinas de Golã e tem ampliado ações preventivas sob o argumento de impedir a presença de grupos hostis em sua fronteira norte.
Para os críticos da política israelense, essa presença prolongada funciona como mecanismo de expansão e controle de profundidade estratégica. Para Israel, trata-se de uma resposta à instabilidade síria e à atuação de forças alinhadas ao Irã. O impasse revela o centro da disputa: segurança para Israel significa, muitas vezes, presença militar fora de suas fronteiras reconhecidas; para seus vizinhos, essa lógica representa ocupação, violação territorial e ameaça permanente.
EUA tentam mediar, mas preservam aliança com Israel
A crítica de Marandi aos Estados Unidos se concentra nesse ponto. Para ele, Washington atua como mediador formal, mas não exerce pressão real sobre Israel. Essa contradição aparece em diversos momentos da política norte-americana para o Oriente Médio: os EUA patrocinam acordos, anunciam mecanismos de estabilização e defendem negociações, mas mantêm apoio militar, diplomático e financeiro a Israel.
Essa ambiguidade reduz a confiança de atores regionais, especialmente Irã, Hezbollah e setores do governo libanês, na capacidade dos Estados Unidos de atuar como mediador imparcial. Ao mesmo tempo, Washington tenta preservar sua influência sobre a reorganização do Oriente Médio após a escalada de conflitos envolvendo Irã, Israel, Líbano, Síria e Gaza.
Soberania ou segurança: o nó do conflito
O episódio revela uma tensão central da geopolítica regional. Israel afirma agir para garantir sua segurança diante de ameaças armadas em suas fronteiras. Líbano, Síria, Irã e grupos aliados afirmam que essa justificativa tem sido usada para legitimar ocupações, ataques preventivos e imposição de zonas de controle fora do território israelense.
A fala de Marandi não é uma descrição neutra do cenário, mas expressa a leitura de um analista alinhado ao campo iraniano. Ainda assim, ela aponta para uma questão concreta: qualquer acordo que não resolva o problema da presença militar israelense, da soberania libanesa, do papel do Hezbollah e da instabilidade síria tende a produzir apenas uma trégua frágil.
O Oriente Médio entra, assim, em uma fase em que acordos diplomáticos convivem com ocupações, operações militares e disputas de narrativa. No centro do impasse está uma pergunta que permanece sem resposta: quem definirá os limites da segurança de Israel e os limites da soberania de seus vizinhos?






