A disputa presidencial de 2026 se desenrola no interior de uma guerra híbrida que envolve tecnologia, recursos estratégicos e a própria arquitetura da República.
Por Reynaldo Aragon
Em meio à reorganização internacional da extrema-direita, à pressão sobre a soberania Informacional e à instrumentalização de crises institucionais, ignorar a correlação objetiva de forças é abrir caminho para ciclos prolongados de instabilidade e perda de autonomia nacional.
Em 2026, o Brasil não entra numa eleição. Entra numa prova histórica. O país está no centro de uma disputa global em que tecnologia, recursos estratégicos e arquitetura institucional passaram a ser tratados como alvos legítimos. Terras raras, lítio, nióbio, energia, dados e infraestrutura digital deixaram de ser temas técnicos e tornaram-se instrumentos de poder. Ao mesmo tempo, a guerra informacional amadureceu: a mentira industrializada por inteligência artificial não serve apenas para confundir, mas para corroer a confiança pública, paralisar decisões e empurrar sociedades inteiras para o cinismo, o ressentimento e a busca por soluções autoritárias. Nesse cenário, a realidade não é opcional. A correlação de forças impõe limites objetivos.
O que está em jogo em 2026 não se limita à sucessão presidencial. O Brasil ocupa uma posição estratégica na disputa global por minerais críticos e cadeias produtivas do século XXI. Terras raras, lítio e nióbio são componentes centrais de semicondutores, baterias, infraestrutura energética e tecnologia militar. Em paralelo, a pressão internacional sobre comércio digital e regulação de plataformas transformou a soberania informacional em questão geopolítica. O país tornou-se peça relevante num mundo fragmentado entre polos de poder, sanções cruzadas e reorganização das cadeias globais. Ao mesmo tempo, a América Latina vive um ciclo recorrente de instabilidade: judicialização extrema, contestação prévia de resultados eleitorais e campanhas massivas de deslegitimação institucional. Nada disso é isolado. É um padrão. E o Brasil está no centro desse padrão.
A guerra contemporânea não começa com tanques; começa com desconfiança. A desinformação industrializada por inteligência artificial permite fabricar áudios, vídeos e narrativas capazes de produzir pânico financeiro, suspeita institucional e desgaste reputacional em escala massiva. Crises reais passam a ser amplificadas como prova de colapso sistêmico. A liquidação do Banco Master, por exemplo, foi rapidamente instrumentalizada para reforçar narrativas de falência sistêmica. Quando crises econômicas, investigações judiciais e decisões institucionais são recortadas e reeditadas num ambiente digital saturado, a fronteira entre fato e manipulação se dilui. O resultado é a erosão lenta da confiança pública, exatamente o terreno onde projetos autoritários prosperam.
O Supremo Tribunal Federal tornou-se um dos principais alvos da ofensiva política desde os atos de 8 de janeiro e os inquéritos sobre desinformação e tentativa de ruptura institucional. Essa perseguição é real, coordenada e persistente. No entanto, reconhecer o ataque não implica blindar a Corte de críticas legítimas. Além de falhas estratégicas como decisões monocráticas em temas sensíveis, comunicação pública insuficiente e personalização excessiva de ministros, também há crescente desconfiança pública quanto à conduta ética de integrantes do tribunal, alimentada por episódios amplamente debatidos na imprensa, ainda que sem comprovação de ilegalidade, envolvendo relações institucionais e proximidade com atores políticos e econômicos. Mesmo quando não há irregularidade formal, a percepção de promiscuidade entre poder e influência corrói autoridade moral. Em um ambiente de guerra informacional, percepção pesa tanto quanto fato. Defender o STF como pilar democrático exige duas coisas simultâneas: protegê-lo de ataques antidemocráticos e elevar seus padrões éticos e comunicacionais para reduzir vulnerabilidades e restaurar confiança social.
A eleição de 2026 não será decidida por discursos mais inflamados ou por promessas mais radicais, mas pela capacidade concreta de sustentar o Estado sob pressão. A correlação de forças indica um cenário em que a extrema-direita se reorganiza, o centro negocia poder e a sociedade enfrenta desgaste informacional contínuo. Fragmentação neste contexto não produz pluralismo virtuoso; produz vulnerabilidade estratégica. Democracias não colapsam apenas por golpes clássicos, mas por erosão gradual de confiança, instabilidade prolongada e paralisia institucional. A responsabilidade histórica do momento exige lucidez.
De um lado, há um projeto que aposta na reconstrução institucional, na política externa autônoma, na regulação estratégica da economia digital e na estabilidade democrática como condição para desenvolvimento de longo prazo. Trata-se de uma visão que entende crescimento econômico, soberania tecnológica e coesão social como processos graduais que exigem previsibilidade institucional e inserção internacional equilibrada. De outro lado, consolida-se uma candidatura da extrema-direita vinculada a redes ideológicas transnacionais e a segmentos de uma elite nacional que historicamente operam sob lógica rentista e dependente, com baixa prioridade para industrialização, inovação e fortalecimento do Estado. Não se trata apenas de diferença programática, mas de dois horizontes distintos de país: um orientado à construção progressiva de estabilidade estratégica e outro marcado por alinhamentos automáticos, volatilidade institucional e conflito permanente como método político.
A história não recompensa ilusões estratégicas. Ela registra escolhas.
Artigo publicado originalmente em <código aberto>






