Atitude Popular

Brasil acompanha com preocupação deslocamento de navios de guerra dos EUA rumo à Venezuela, afirma Celso Amorim

Da Redação

Geopolítica sul-americana em tensão: assessor internacional de Lula defende não-intervenção e alerta para risco de desestabilização regional

O governo brasileiro manifestou oficialmente preocupação com a movimentação de navios de guerra dos Estados Unidos em direção à Venezuela. O posicionamento foi feito por Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, durante audiência pública na Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados, na quarta-feira (20).

“Vejo com preocupação o deslocamento de barcos de guerra americanos para a Venezuela. Acho que a não intervenção é fundamental”, declarou Amorim, destacando que o Brasil acompanha de perto os acontecimentos e reafirma sua posição histórica em defesa da resolução pacífica de controvérsias.

A posição do Brasil diante da Venezuela

O diplomata lembrou que, após a última eleição presidencial venezuelana, o Brasil optou por não reconhecer imediatamente a vitória de Nicolás Maduro, diante da contestação apresentada pelo opositor Edmundo González. Amorim frisou, no entanto, que a relação entre os países é conduzida em bases institucionais: “Quando houve as eleições, tivemos dúvidas, evitamos o cumprimento, mas mantivemos a relação, que é de Estado a Estado.”

Essa distinção é importante porque demonstra o pragmatismo da diplomacia brasileira. O Brasil evita personalizar disputas políticas e busca preservar canais de diálogo permanentes, independentemente das divergências com a condução política interna de Caracas. “Ter boas relações não é uma escolha, e sim uma imposição da geografia”, sintetizou Amorim.

A dimensão geopolítica da crise

A movimentação naval americana ocorre em um momento de crescente tensão na região, em que Washington volta a adotar posturas mais agressivas no Caribe. A Venezuela, que detém as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, continua sendo alvo prioritário de interesse geopolítico dos EUA, seja por questões energéticas, seja por seu papel estratégico como porta de entrada para a América do Sul.

Historicamente, a Doutrina Monroe e sua atualização nas políticas de segurança nacional norte-americanas sempre consideraram a América Latina como área de influência direta de Washington. O deslocamento de embarcações militares próximo ao território venezuelano reacende a lembrança de intervenções passadas, como na invasão de Granada (1983), no bloqueio de Cuba e na pressão militar constante sobre governos considerados “não alinhados” ao projeto hegemônico dos EUA.

O papel do Brasil como mediador regional

Nesse contexto, a manifestação de Celso Amorim reforça a estratégia do governo Lula de projetar o Brasil como voz da moderação e do equilíbrio internacional. O país tem buscado, nos últimos anos, liderar iniciativas de diálogo tanto no cenário sul-americano quanto em conflitos de alcance global, como a guerra na Ucrânia.

Na visão de Amorim, a escalada militar em direção à Venezuela pode comprometer a estabilidade continental, colocando em risco tanto a integração regional quanto a segurança de fronteiras. O assessor especial lembrou que a política externa brasileira se ancora em princípios constitucionais, entre eles a defesa da soberania, a solução pacífica de controvérsias e a não intervenção.

“Não se trata de simpatizar ou não com determinado governo. O que está em jogo é a soberania de um país vizinho e o risco de se criar um precedente perigoso para toda a região. Hoje é a Venezuela, amanhã pode ser qualquer outro”, alertou Amorim.

Repercussão interna e regional

A fala de Amorim ecoa em um momento de grande sensibilidade também no cenário interno brasileiro. Parlamentares progressistas ressaltaram a necessidade de o Brasil manter firme posição contra qualquer tipo de intervenção estrangeira no continente. Já setores mais alinhados aos EUA interpretam a aproximação entre Brasília e Caracas como um gesto de condescendência com o chavismo, em uma disputa que, mais uma vez, reflete a polarização política no país.

Na região, países do Mercosul e da Celac observam com apreensão os movimentos americanos. O México já havia condenado, dias antes, a aproximação militar dos EUA das costas venezuelanas, reafirmando que a solução para a crise deve ser política e não militar. A posição mexicana se soma agora à brasileira, o que pode abrir caminho para uma frente diplomática latino-americana em defesa da não-intervenção.

Riscos de desestabilização

Analistas avaliam que uma ação militar contra a Venezuela, mesmo que simbólica ou em formato de bloqueio naval, poderia desestabilizar o Caribe e pressionar diretamente as fronteiras brasileiras. A Venezuela compartilha com o Brasil uma extensa faixa de fronteira na Amazônia, região sensível tanto do ponto de vista ambiental quanto estratégico.

Além disso, a crise poderia gerar fluxos migratórios intensos em direção ao território brasileiro, como já ocorreu nos últimos anos com a chegada de milhares de venezuelanos a Roraima. Um agravamento militar da situação teria potencial de ampliar drasticamente essa pressão humanitária.

A defesa da soberania e o futuro imediato

O posicionamento brasileiro, portanto, é de firme defesa da soberania nacional e de rejeição a qualquer tipo de intervenção externa. Amorim reiterou que, embora existam divergências políticas com o governo de Nicolás Maduro, a prioridade do Brasil é impedir que a América do Sul volte a ser palco de conflitos patrocinados de fora.

Ao reafirmar o compromisso com a não intervenção, o assessor especial também enviou um recado indireto à Casa Branca: o Brasil não aceitará passivamente movimentos que possam comprometer a paz regional.