Da Redação
Itamaraty reage com firmeza à ofensiva militar no Oriente Médio, critica a ação em meio a negociações e reforça a defesa histórica do multilateralismo e da soberania dos povos.
O governo brasileiro condenou oficialmente os ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã neste sábado, 28 de fevereiro de 2026, em uma das reações diplomáticas mais relevantes do Sul Global diante da nova escalada militar no Oriente Médio. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores, o Itamaraty expressou “grave preocupação” com a ofensiva e destacou que a ação ocorreu em meio a um processo de negociação entre as partes — elemento central para compreender a posição brasileira.
A crítica não se limitou ao aspecto conjuntural. O governo brasileiro reafirmou um princípio estruturante de sua política externa: a resolução de conflitos por vias diplomáticas. Segundo a nota, a negociação é “o único caminho viável para a paz”, posição historicamente defendida pelo Brasil em crises internacionais e especialmente no Oriente Médio.
O posicionamento ganha ainda mais peso quando se observa o timing do ataque. Apenas dias antes, Irã e Estados Unidos haviam retomado negociações em Genebra, mediadas por atores internacionais, com o objetivo de reduzir tensões e encontrar uma saída diplomática para o impasse nuclear. A ofensiva militar, nesse contexto, é interpretada por Brasília como um fator de ruptura desse processo, reforçando a percepção de que a força foi utilizada em detrimento da diplomacia.
O Itamaraty também fez um apelo direto à comunidade internacional e às partes envolvidas para que respeitem o Direito Internacional e exerçam “máxima contenção”, com o objetivo de evitar a escalada do conflito e proteger civis e infraestrutura essencial. Essa formulação não é meramente protocolar. Ela dialoga com um dos pilares da política externa brasileira contemporânea: a defesa do multilateralismo como mecanismo de equilíbrio frente ao uso unilateral da força.
Na prática, a posição brasileira se insere em uma disputa mais ampla sobre a ordem internacional. Ao condenar o ataque, o Brasil se alinha a uma leitura crítica do uso de ações militares preventivas sem respaldo claro de instâncias multilaterais, como o Conselho de Segurança da ONU. Essa postura reflete uma visão consolidada no Sul Global, segundo a qual o direito internacional não pode ser seletivo nem subordinado aos interesses das grandes potências.
Outro ponto relevante da nota oficial é a preocupação com cidadãos brasileiros na região. O governo informou que suas embaixadas estão monitorando a situação em tempo real e que o embaixador em Teerã mantém contato direto com a comunidade brasileira, fornecendo orientações de segurança. Essa dimensão consular evidencia que, para além da geopolítica, o impacto da escalada já atinge diretamente populações civis, inclusive estrangeiros residentes na área de conflito.
A reação brasileira também deve ser lida à luz de sua estratégia internacional mais ampla. Nos últimos anos, o país tem buscado reposicionar-se como ator relevante na defesa de uma ordem multipolar, baseada no diálogo, na autodeterminação dos povos e na mediação de conflitos por meio de instituições multilaterais. A condenação aos ataques reforça essa linha, ao mesmo tempo em que demarca distância de intervenções unilaterais.
No plano político global, o posicionamento do Brasil dialoga com uma percepção crescente entre países do Sul Global: a de que a estabilidade internacional depende menos da imposição de força e mais da construção de consensos diplomáticos. A ofensiva militar de EUA e Israel, nesse sentido, é vista por esses atores como um fator de instabilidade que pode desencadear efeitos em cadeia, tanto no Oriente Médio quanto em outras regiões estratégicas.
O episódio marca, portanto, mais do que uma crise regional. Ele evidencia o aprofundamento de uma clivagem geopolítica entre modelos de organização do sistema internacional. De um lado, a lógica da ação preventiva e da projeção de poder militar. De outro, a defesa do direito internacional, da soberania e do multilateralismo como instrumentos de mediação.
Ao condenar o ataque e defender a diplomacia, o Brasil não apenas reage a um evento específico, mas reafirma uma posição histórica que, no atual cenário de escalada global, ganha renovada centralidade: a de que a paz não pode ser construída pela força, mas pela negociação entre nações soberanas.






