Da Redação
Memorando assinado por Lula e Narendra Modi prevê cooperação tecnológica, investimentos e integração produtiva em um dos setores mais disputados da geopolítica global.
O Brasil e a Índia deram um passo estratégico na disputa global por recursos essenciais ao futuro tecnológico ao firmarem, em Nova Délhi, um acordo de cooperação em minerais críticos e terras raras. O entendimento, formalizado por meio de um memorando entre os ministérios de Minas dos dois países, estabelece as bases para uma parceria de longo prazo em um dos setores mais sensíveis da economia contemporânea: a cadeia de suprimentos de materiais indispensáveis à transição energética e à indústria de alta tecnologia.
O acordo surge em um contexto internacional marcado por intensa competição geopolítica por esses recursos. Minerais críticos e terras raras são fundamentais para a fabricação de veículos elétricos, painéis solares, smartphones, motores de aeronaves e sistemas de defesa avançados. O aumento da demanda global por tecnologias limpas e digitais transformou esses elementos em ativos estratégicos, disputados por grandes potências.
Nesse cenário, o Brasil ocupa uma posição privilegiada. O país detém a segunda maior reserva mundial de terras raras, ficando atrás apenas da China, que atualmente domina a maior parte da produção e do processamento global desses minerais. Essa vantagem geológica confere ao Brasil um peso crescente nas negociações internacionais e abre espaço para parcerias que possam transformar recursos naturais em capacidade industrial e tecnológica.
O memorando assinado entre Brasil e Índia estabelece como objetivo central a promoção da cooperação bilateral em toda a cadeia de valor desses minerais. Isso inclui desde a exploração e mineração até o desenvolvimento tecnológico, pesquisa científica, processamento e reciclagem. O texto prevê também transferência de tecnologia, desenvolvimento de capacidades produtivas e adoção de práticas ambientalmente responsáveis no setor mineral.
Um dos pontos mais relevantes do acordo é a ênfase na construção de cadeias de suprimentos resilientes. Para a Índia, que busca reduzir sua dependência da China no fornecimento desses materiais, a parceria com o Brasil representa uma oportunidade estratégica de diversificação. Para o Brasil, a cooperação com uma potência industrial e tecnológica em ascensão abre caminho para agregar valor à produção mineral, historicamente concentrada na exportação de commodities.
O acordo também prevê a promoção de investimentos recíprocos no setor mineral, incluindo a criação de infraestrutura para exploração, processamento e logística. Além disso, estão contempladas iniciativas conjuntas de pesquisa e inovação, com participação de universidades, centros tecnológicos e empresas privadas dos dois países. A cooperação poderá incluir o uso de tecnologias avançadas, como inteligência artificial aplicada à análise de dados geológicos e à descoberta de novos depósitos minerais.
Outro elemento estratégico é a possibilidade de criação de uma plataforma bilateral de investimentos em mineração, com o objetivo de conectar empresas, fomentar joint ventures e estruturar projetos ao longo da cadeia produtiva. O memorando também prevê a formação de um Grupo de Trabalho Conjunto, responsável por acompanhar a implementação das ações, elaborar planos de execução e realizar revisões periódicas dos avanços alcançados.
No campo da propriedade intelectual, o acordo estabelece que os resultados de pesquisas e desenvolvimentos tecnológicos realizados em conjunto serão compartilhados entre os dois países, com regras específicas para sua utilização e eventual comercialização. Esse ponto é central para garantir que a cooperação não se limite à extração de recursos, mas avance na construção de autonomia tecnológica.
Embora o memorando não envolva transferência direta de recursos financeiros entre os governos, ele cria as condições institucionais para a atração de investimentos e o desenvolvimento de projetos estratégicos. Cada país será responsável por financiar suas próprias atividades, o que reforça o caráter de parceria equilibrada e de longo prazo.
A assinatura do acordo faz parte de um pacote mais amplo de cooperação entre Brasil e Índia, que inclui iniciativas nas áreas digital, farmacêutica, industrial e comercial. No plano geopolítico, a parceria reforça o papel dos dois países como protagonistas do Sul Global e sinaliza uma tentativa de construção de alternativas à concentração de poder econômico e tecnológico nas mãos de poucas potências.
Mais do que um acordo setorial, o entendimento sobre minerais críticos revela uma mudança de estratégia. Ao buscar cooperação tecnológica e integração produtiva, o Brasil tenta romper com o padrão histórico de exportador de matéria-prima e avançar em direção a uma posição mais ativa na economia global. Em um mundo cada vez mais dependente de dados, energia limpa e dispositivos eletrônicos, controlar — ou ao menos participar — das cadeias de minerais críticos significa disputar poder no século XXI.


