Da Redação
Em Nova Délhi, Paulo Teixeira aponta convergências estratégicas entre os dois países e defende cooperação para fortalecer agricultura familiar, bioinsumos e produção sustentável de alimentos.
A aproximação entre Brasil e Índia no campo agrícola pode inaugurar uma nova etapa estratégica baseada na soberania alimentar e na agroecologia. A avaliação foi feita pelo ministro do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, Paulo Teixeira, durante agenda oficial em Nova Délhi, ao lado da delegação brasileira liderada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Segundo o ministro, a convergência entre os dois países não é apenas diplomática ou comercial, mas estrutural. Brasil e Índia compartilham desafios semelhantes, especialmente no que diz respeito à necessidade de garantir alimentação para grandes populações. Enquanto o Brasil precisa assegurar a segurança alimentar de mais de 200 milhões de pessoas, a Índia enfrenta o desafio em escala ainda maior, com mais de um bilhão de habitantes.
Essa dimensão populacional, combinada com a força agrícola de ambos os países, cria um terreno fértil para cooperação. Teixeira destacou que Brasil e Índia não apenas alimentam seus próprios povos, mas também desempenham papel central no abastecimento global, o que eleva a relevância geopolítica da parceria no cenário internacional.
No centro dessa agenda está o conceito de soberania alimentar — entendido como a capacidade de um país de produzir seus próprios alimentos, respeitando suas culturas, reduzindo dependências externas e garantindo acesso universal à alimentação. Esse conceito tem ganhado força globalmente, especialmente após crises recentes que expuseram a fragilidade das cadeias internacionais de suprimentos.
Outro eixo estratégico destacado pelo ministro é o papel da agricultura familiar. Tanto no Brasil quanto na Índia, esse segmento é responsável por uma parcela significativa da produção de alimentos e por preservar a diversidade alimentar. Teixeira enfatizou que a agricultura familiar não é apenas uma questão econômica, mas cultural e social, pois garante a diversidade de dietas e a manutenção de tradições alimentares.
A agroecologia aparece como o elo técnico dessa aproximação. Durante a visita, o ministro conheceu experiências indianas de produção agrícola baseadas em bioinsumos e técnicas sustentáveis, que substituem fertilizantes químicos por soluções biológicas. A Índia já aplica essas práticas em larga escala, com milhões de agricultores familiares adotando modelos produtivos mais sustentáveis e de menor custo.
A proposta brasileira é incorporar e adaptar essas experiências, promovendo uma transição gradual para sistemas agrícolas mais resilientes, menos dependentes de insumos externos e mais alinhados à preservação ambiental. Nesse sentido, a cooperação entre instituições como a Embrapa e centros de pesquisa indianos surge como peça-chave para o intercâmbio de conhecimento e inovação tecnológica.
Além disso, a agenda inclui avanços em áreas como melhoramento genético, produção de sementes, mecanização e uso de inteligência artificial no campo. A complementaridade entre as agriculturas tropicais dos dois países foi destacada como um fator que pode acelerar o desenvolvimento conjunto de soluções adaptadas às realidades climáticas e sociais do Sul Global.
Outro ponto relevante da fala de Teixeira foi a referência à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada pelo presidente Lula no âmbito do G20. A iniciativa busca articular políticas públicas e cooperação internacional para enfrentar a insegurança alimentar em escala global, reforçando o papel do Brasil como articulador de soluções multilaterais.
A parceria com a Índia, nesse contexto, ganha dimensão estratégica. Ao combinar capacidade produtiva, diversidade agrícola e conhecimento técnico, os dois países podem não apenas fortalecer suas próprias políticas de segurança alimentar, mas também influenciar o modelo global de produção de alimentos, propondo alternativas mais sustentáveis e inclusivas.
No plano geopolítico, essa aproximação reforça a articulação entre países do Sul Global em torno de agendas estruturantes. Diferentemente do modelo tradicional baseado na exportação de commodities, a cooperação proposta busca integrar ciência, tecnologia e políticas públicas, criando uma base mais sólida para o desenvolvimento agrícola.
A fala de Paulo Teixeira sinaliza, portanto, uma mudança de paradigma. A agricultura deixa de ser vista apenas como setor econômico e passa a ser tratada como eixo estratégico de soberania, desenvolvimento e estabilidade social. Em um mundo marcado por crises climáticas, insegurança alimentar e disputas geopolíticas, a capacidade de produzir alimentos de forma sustentável e autônoma se torna um elemento central de poder.
Se essa agenda avançar, a parceria entre Brasil e Índia poderá redefinir não apenas suas próprias políticas agrícolas, mas também influenciar o futuro da produção de alimentos em escala global — conectando soberania alimentar, agroecologia e desenvolvimento em uma mesma estratégia.


