Da Redação
O governo brasileiro sinaliza uma mudança histórica na política comercial ao considerar a possibilidade de um acordo parcial entre Mercosul e China diante do impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos, em um momento de reconfiguração geoeconômica global. A proposta, ainda embrionária, abre espaço para discussões sobre diversificação de parceiros e troca de concessões, ao mesmo tempo em que enfrenta resistências internas e a complexidade política regional.
O Brasil está vivendo uma inflexão significativa em sua estratégia de política comercial: após décadas de rejeição a negociações formais com a China no âmbito do Mercosul, autoridades brasileiras passaram a considerar, pela primeira vez, a possibilidade de avançar em um acordo parcial com Pequim. Esse movimento — relatado por fontes do governo e confirmado por agências internacionais — surge em um contexto global marcado por pressões tarifárias dos Estados Unidos, que vêm impondo barreiras comerciais crescentes que afetam países exportadores e reconfiguram cadeias produtivas.
A mudança de postura ocorre numa conjuntura econômica mundial caracterizada por disputa tarifária e rivalidade geoeconômica. A administração do presidente Donald Trump adotou uma série de tarifas elevadas sobre produtos estrangeiros, incluindo diversos bens exportados pelo Brasil — com taxas que chegaram a atingir 50% sobre certas categorias de produtos, segundo estudos sobre as políticas tarifárias no segundo governo Trump — e justificadas sob a retórica de proteção da indústria doméstica. Esses aumentos geraram tensões diplomáticas e econômicas, levando Brasília a reavaliar antigos vetos ideológicos à aproximação comercial com parceiros estratégicos fora da órbita tradicional ocidental.
Historicamente, o Brasil e outros países do Mercosul — bloco que inclui Argentina, Paraguai e Uruguai — se mostraram cautelosos em relação a negociações amplas com a China, por receio de que uma abertura comercial irrestrita pudesse expor a indústria manufatureira regional à concorrência chinesa. No entanto, diante da escalada tarifária americana e da necessidade de diversificar mercados, setores do governo defendem agora um formato mais seletivo de acordo, que não implique um pacto de livre comércio integral, mas uma série de mecanismos parciais capazes de facilitar o comércio, reduzir barreiras não tarifárias e articular cooperação em áreas específicas.
Segundo altos funcionários brasileiros que falaram sob condição de anonimato, essa reorientação estratégica ainda está em fase exploratória, mas já representa uma virada pragmática: a ideia é avançar com negociações que privilegiem setores exportadores fortes do Mercosul — como agroindústria, bens agrícolas e matérias-primas — ao mesmo tempo em que salvaguardas e instrumentos de proteção possam mitigar impactos indesejados sobre industriais vulneráveis. A proposta inclui discutir regras sanitárias, procedimentos alfandegários, cotas de importação e facilitação de comércio em linhas tarifárias específicas, em vez de um tratado abrangente que reduzisse tarifas para todos os setores.
A China, por sua vez, tem demonstrado interesse em aprofundar laços econômicos com blocos regionais e mercados emergentes. O país asiático já é um dos maiores destinos das exportações brasileiras — especialmente de commodities como soja, carne e minério de ferro — e tem manifestado disposição em desenvolver parcerias mais amplas de comércio e investimento no Sul Global, como parte de sua estratégia de expansão econômica e diplomática.
Porém, a negociação não está isenta de desafios políticos. Dentro do Mercosul, existe um delicado equilíbrio de interesses nacionais que pode retardar ou alterar a proposta. A Argentina, sob o governo de Javier Milei, tem demonstrado maior alinhamento com Washington e pode resistir a compromissos que possam ser interpretados como contrários aos interesses norte-americanos, o que pode complicar a obtenção de consenso dentro do bloco. Por outro lado, o Uruguai e o Paraguai mostraram disposição em manter o diálogo com a China, desde que itens sensíveis — como a manutenção de relações diplomáticas com Taiwan, no caso paraguaio — sejam respeitados.
Essa possível reconfiguração de alianças comerciais acontece em um momento em que o Brasil também busca posicionar sua diplomacia como protagonista em arenas multilaterais e plurilaterais, articulando uma agenda que reduza vulnerabilidades externas, diversifique mercados e promova maior autonomia nas decisões econômicas. A discussão sobre acordos comerciais parciais com a China não significa um abandono dos laços com os Estados Unidos ou com outros parceiros tradicionais, mas reflete um ajuste estratégico em meio a um sistema internacional cada vez mais fragmentado e competitivo.
Ainda que um acordo formal e abrangente entre Mercosul e China permaneça distante, a sinalização brasileira de abertura para negociações parciais representa um marco pragmático e potencialmente transformador — tanto para a dinâmica regional quanto para a posição do Brasil no tabuleiro geoeconômico global, impulsionada por mudanças nas relações entre grandes potências, políticas protecionistas e fluxos comerciais reconfigurados.


