Atitude Popular

Chile às vésperas da guinada à direita: Kast favorito no segundo turno contra Jara

Da Redação

Com a ultradireita chilena unificada em torno de José Antonio Kast e mais de 70% dos votos da primeira volta concentrados em candidaturas conservadoras, o Chile caminha para um segundo turno em que a direita tem todas as condições de voltar ao poder e impor uma agenda dura em segurança, imigração, costumes e economia, com impactos diretos para a democracia e para o tabuleiro geopolítico da América do Sul.

Às primeiras horas da manhã desta segunda-feira, 17 de novembro de 2025, o mapa político do Chile amanheceu redesenhado. O país que, há apenas quatro anos, simbolizava uma nova onda progressista com a eleição de Gabriel Boric agora enxerga a ultradireita a poucos passos do Palácio de La Moneda. A primeira volta das eleições presidenciais colocou frente a frente, para o segundo turno de 14 de dezembro, a candidata comunista Jeannette Jara e o ultraconservador José Antonio Kast, do Partido Republicano. Ela ficou em primeiro lugar, com algo em torno de 26,7 a 27 por cento dos votos, ele em segundo, com cerca de 24 por cento, segundo o Serviço Eleitoral do Chile, o Servel, e projeções divulgadas por veículos como El País, Al Jazeera, Euronews e agências internacionais.

A diferença numérica entre os dois é pequena. O que realmente pesa é a correlação de forças: somados, os votos de Kast e dos outros dois candidatos de direita e extrema-direita, Evelyn Matthei e Johannes Kaiser, superam com folga a votação de Jara e sinalizam uma provável maioria conservadora no segundo turno. É esse movimento que leva análises como a da jornalista Márcia Carmo, no Brasil 247, a afirmar que “a direita caminha para ganhar no segundo turno e governar o país”, ecoando o temor de que a eleição de 2025 consolide um giro à direita em um dos países historicamente apresentados como vitrine do neoliberalismo na região.

José Antonio Kast não é uma incógnita na política chilena. Ex-deputado, fundador do Partido Republicano e herdeiro político de setores que nunca romperam de fato com o legado de Augusto Pinochet, ele já havia chegado ao segundo turno em 2021, quando foi derrotado por Boric. Agora, retorna mais forte, apoiado por um bloco conservador ampliado e por uma campanha que combina o discurso clássico de “ordem e progresso” com a retórica global da extrema-direita: guerra à imigração irregular, promessa de “mão dura” contra o crime, ataques ao feminismo, hostilidade a direitos LGBTQIA+ e rejeição a agendas ambientais e de direitos humanos. Vários veículos internacionais o descrevem explicitamente como um político ao estilo Trump, sublinhando sua admiração pelo ex-presidente dos Estados Unidos e a proximidade discursiva com figuras como Jair Bolsonaro e Javier Milei.

Jeannette Jara, por sua vez, carrega o peso de ser a primeira candidata do Partido Comunista a chegar a um segundo turno presidencial no Chile. Ex-ministra do Trabalho do governo Boric, ela representa uma ampla coalizão de centro-esquerda que se propõe a resgatar a agenda social e democrática do ciclo de mobilizações iniciado em 2019, na esteira do estallido social. Seu programa enfatiza melhorias nos serviços públicos, ampliação de direitos trabalhistas, combate à desigualdade, fortalecimento do sistema de saúde e políticas de combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado, num esforço para responder às mesmas angústias sociais que a direita instrumentaliza com uma agenda punitivista.

O problema é que, embora Jara tenha saído numericamente à frente no primeiro turno, o clima político e a aritmética eleitoral jogam a favor de Kast. Pesquisas realizadas ao longo de 2025 já indicavam que, em cenários de segundo turno contra Jara, o líder republicano aparecia com ampla vantagem, reunindo o voto conservador clássico, setores do empresariado e frações da classe média assustadas com o aumento da criminalidade e com a crise econômica. Levantamentos como os do instituto Criteria, da Cadem e de meios chilenos especializados em pesquisas eleitorais mostravam, meses antes das eleições, que Kast vencia Jara com folga em simulações de balotagem, mesmo quando ela liderava a intenção de voto na primeira volta.

O contexto que alimenta essa virada é complexo. Depois da explosão de esperanças do ciclo constituinte iniciado em 2020, o processo de redação de uma nova Constituição desandou em duas derrotas consecutivas em plebiscitos, ambas marcadas pelo fortalecimento do discurso conservador, por campanhas massivas de desinformação e pelo desgaste de partidos e lideranças progressistas. Ao mesmo tempo, o Chile atravessa uma crise de segurança que, embora não se compare aos níveis extremos de violência de países como Equador ou México, se agravou com o avanço do crime organizado transnacional, em especial bandas ligadas ao narcotráfico, e com uma sensação disseminada de descontrole nas fronteiras.

É nesse terreno que a agenda anti-imigração de Kast encontra fertilidade. O candidato republicano promete um “escudo de fronteira”, inspirado em soluções militarizadas, com reforço de muros, vigilância e deportações em massa, em particular contra migrantes venezuelanos. Sua campanha faz eco à retórica que hoje domina setores da direita global: associar insegurança, crise econômica e degradação social à figura do migrante, sobretudo o pobre e racializado, enquanto se silenciam as responsabilidades das elites econômicas, das políticas neoliberais e dos fluxos ilegais de capitais. Reportagens do Financial Times, do Guardian e de agências como Reuters e Associated Press destacam o peso dessa pauta na eleição chilena de 2025, assim como a convergência entre a agenda de Kast e a guinada à direita em boa parte da América Latina.

Do lado da esquerda, o desafio de Jara é imenso. Ela precisa, em menos de um mês, reconstruir uma ponte com os setores populares e de classe média que se afastaram do governo Boric, desgastado por dificuldades econômicas, pela frustração com o processo constituinte e pela percepção de fragilidade na gestão da segurança pública. Ao mesmo tempo, precisa conter a fuga de votos para a abstenção e o voto nulo, fenômenos já observados em eleições recentes na região, em que eleitores progressistas desiludidos se afastam das urnas, abrindo caminho para vitórias da extrema-direita com base em eleitores mais disciplinados.

O sistema político chileno também joga seu peso nesse tabuleiro. Diferentemente de 2021, quando o Congresso estava fragmentado e dificultava qualquer agenda mais ambiciosa, agora os partidos de direita e centro-direita tendem a formar maioria na Câmara, segundo projeções iniciais apontadas por agências internacionais. Se Kast vencer a presidência, terá diante de si um parlamento mais favorável para aprovar reformas de corte ultraliberal, endurecimento penal e retrocessos em políticas de direitos humanos e ambientais, reposicionando o Chile como laboratório de um “neoliberalismo 2.0” em plena era de crise climática e insegurança global.

No plano regional, a eventual vitória de Kast teria efeito imediato na correlação de forças. Um governo de ultradireita em Santiago reforçaria o eixo conservador que hoje inclui governos como o de Javier Milei na Argentina e, potencialmente, um novo ciclo trumpista nos Estados Unidos, além de se alinhar com setores mais duros da direita colombiana e de elites empresariais brasileiras que apostam em desestabilizar experiências progressistas. O Wall Street Journal e outros veículos de negócios já falam em uma “correção de rota” do Chile na direção de um ambiente mais pró-mercado, com promessas de flexibilização trabalhista, privatizações e incentivos agressivos ao investimento estrangeiro, inclusive em setores estratégicos como o cobre e o lítio.

Do ponto de vista geopolítico, o Chile sob Kast tenderia a se afastar de iniciativas de integração regional de caráter progressista e a se reaproximar de agendas mais alinhadas a Washington, tanto no plano econômico quanto no de segurança. Isso inclui aderir com mais entusiasmo a pactos de controle migratório e de combate ao narcotráfico formatados sob a lógica da segurança nacional norte-americana, além de se alinhar a posições mais duras em temas como Venezuela, Cuba e Palestina. O discurso de Kast é explícito na defesa de uma política externa “sem complexos” em relação aos Estados Unidos e na crítica a governos de esquerda do continente, o que poderia tensionar relações com países que apostam em uma ordem mundial mais multipolar.

É importante notar que a ascensão da direita chilena não é um raio em céu azul. Ela vem sendo preparada há anos, em diferentes camadas. Primeiro, pela frustração com os limites do modelo progressista moderado de governos anteriores, que não romperam com a estrutura neoliberal herdada da ditadura. Depois, pelo desgaste do ciclo constituinte, no qual tanto setores da esquerda quanto da direita alimentaram narrativas de medo, conspiracionismo e saturação política. Por fim, pela avalanche de campanhas midiáticas e digitais que associam qualquer agenda redistributiva ao caos, à insegurança e à corrupção, em uma estratégia muito semelhante à que vimos no Brasil com a construção do antipetismo, na Bolívia com a derrubada de Evo Morales e, mais recentemente, na Argentina com a ascensão de Milei.

A cobertura da imprensa internacional sobre o primeiro turno chileno também revela um padrão. De um lado, veículos que enfatizam a “normalidade democrática” do país, destacando a alta participação e o respeito às regras institucionais. De outro, análises que reconhecem uma mutação profunda, na qual o cansaço social com a desigualdade, a violência e a precarização do trabalho não necessariamente se converte em apoio à esquerda, mas pode ser canalizado pela extrema-direita com promessas de ordem e eficiência gerencial. O caso chileno torna-se, assim, mais um exemplo de como a frustração com governos progressistas, se não acompanhada de transformações estruturais reais, pode abrir espaço para experiências autoritárias travestidas de “renovação”.

Nesse cenário, o segundo turno de 14 de dezembro não será apenas uma disputa entre dois projetos nacionais, mas um capítulo de uma guerra política e simbólica mais ampla na América Latina. De um lado, uma candidata comunista que tenta salvar um projeto de democratização social iniciado nas ruas em 2019 e fustigado por derrotas sucessivas no terreno institucional. De outro, um líder de extrema-direita que se apresenta como o fiador da ordem e da “normalidade”, disposto a aprofundar o modelo que muitos culpam pela própria crise que o país atravessa.

O que acontecer nas próximas semanas no Chile será decisivo para o bloco progressista latino-americano, para os movimentos sociais e para as forças democráticas do continente. Se Kast consolidar sua vantagem e chegar à presidência, a região terá mais um governo claramente alinhado à extrema-direita global, com forte apoio da mídia corporativa, do capital financeiro e de redes transnacionais de desinformação. Se Jara conseguir virar o jogo, será um sinal de que ainda há espaço para reorganizar a esperança e reabrir caminhos de transformação social, mesmo em um ambiente marcado por desencanto, medo e saturação política. Em ambos os casos, o Chile seguirá sendo um termômetro antecipado das disputas que atravessam a América Latina neste início de década.