Da Redação
Nova pesquisa Genial/Quaest mostra recuperação gradual da imagem do governo Lula entre setores urbanos e de classe média, considerados estratégicos para a disputa presidencial de 2026.
A nova pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta terça-feira indica uma mudança importante no cenário político brasileiro: setores urbanos e parcelas da classe média começaram a apresentar melhora gradual na percepção sobre o governo Luiz Inácio Lula da Silva. O levantamento mostra recuperação da aprovação presidencial entre eleitores com renda intermediária e ensino médio completo, segmentos considerados decisivos para a disputa eleitoral de 2026.
Segundo os dados divulgados pelo levantamento, Lula voltou a crescer entre eleitores que recebem entre dois e cinco salários mínimos, faixa social que vinha demonstrando maior desgaste em relação ao governo nos últimos meses. Nesse segmento, o presidente aparece com 37% das intenções de voto no primeiro turno contra 34% de Flávio Bolsonaro. Já no cenário de segundo turno, Lula reduz a diferença em relação ao senador bolsonarista em comparação às pesquisas anteriores.
Entre os eleitores com ensino médio completo, a melhora também aparece de forma perceptível. A aprovação do governo nesse grupo subiu de 37% em abril para 42% em maio, enquanto a desaprovação caiu de 57% para 53%.
O movimento possui enorme importância política porque a classe média urbana passou a ocupar posição central na disputa eleitoral brasileira nos últimos anos. Foi justamente nesse segmento que Jair Bolsonaro conseguiu forte crescimento entre 2018 e 2022, impulsionado por redes sociais, discurso antipolítica, guerra cultural e forte rejeição ao PT após os anos da Lava Jato.
Agora, os números da Quaest sugerem que o governo Lula começa lentamente a recuperar espaço em parte desse eleitorado.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, existe avaliação de que a melhora econômica gradual começa finalmente a produzir efeitos concretos na percepção cotidiana da população. Crescimento da renda, redução do desemprego, estabilização da inflação e ampliação de programas de crédito passaram a integrar fortemente a estratégia narrativa do governo.
A própria pesquisa aponta que a combinação entre melhora das expectativas econômicas, queda do desemprego e sensação de maior estabilidade política começa a alterar parcialmente o humor de setores urbanos mais sensíveis ao custo de vida e à percepção econômica.
Nos últimos meses, o governo Lula intensificou programas voltados justamente para as classes médias e trabalhadores urbanos pressionados pelo endividamento e pela perda de renda acumulada nos últimos anos. O novo Desenrola 2.0 aparece como um dos principais exemplos dessa estratégia.
Segundo levantamento divulgado também pela Quaest, metade dos brasileiros considera o programa de renegociação de dívidas uma medida positiva porque ajuda famílias endividadas a reorganizar a vida financeira.
O governo aposta que esse tipo de política pode reconstruir gradualmente uma percepção de proteção econômica associada historicamente ao lulismo desde os anos 2000.
Outro fator importante envolve a mudança da conjuntura internacional e econômica. Diferentemente de 2022, quando o país ainda enfrentava efeitos diretos da pandemia, inflação elevada e enorme instabilidade institucional, o Brasil chega ao ciclo eleitoral de 2026 em situação relativamente mais estabilizada economicamente.
O desemprego voltou a cair, a renda média cresceu em todos os estados brasileiros e o governo federal passou a ampliar investimentos públicos em infraestrutura, segurança pública, saúde e programas sociais.
Isso não significa, porém, que Lula tenha resolvido seus problemas políticos junto à classe média.
A rejeição ao governo continua elevada em setores urbanos, especialmente entre eleitores conservadores, empresários, profissionais liberais e grupos fortemente influenciados pela extrema-direita digital. A própria Quaest mostra que a desaprovação ainda supera numericamente a aprovação em determinados segmentos urbanos e de renda mais alta.
Além disso, Flávio Bolsonaro segue competitivo justamente entre setores urbanos conservadores, especialmente no Sudeste e no Sul do país. A polarização entre lulismo e bolsonarismo permanece extremamente consolidada no ambiente político brasileiro.
Mas a melhora gradual registrada pela pesquisa possui peso estratégico porque sinaliza que o governo conseguiu interromper parcialmente o ciclo de desgaste observado no início de 2026.
Dentro do PT, a leitura predominante é que a eleição presidencial será definida justamente pela capacidade de disputar setores intermediários da sociedade brasileira sem perder a base popular tradicional do lulismo.
Por isso, o governo vem tentando combinar duas frentes simultâneas: ampliação de programas sociais voltados aos mais pobres e políticas econômicas capazes de dialogar também com trabalhadores urbanos, pequenos empreendedores, classe média assalariada e famílias endividadas.
A recuperação observada pela Quaest também ocorre em meio a uma reorganização mais ampla da estratégia política de Lula.
O presidente passou a intensificar agendas públicas, ampliar viagens pelo país e reforçar uma narrativa de reconstrução econômica, estabilidade institucional e defesa da soberania nacional. Paralelamente, o PT prepara uma ampla campanha de mobilização popular para fortalecer presença territorial e ampliar comunicação direta com a população.
A avaliação do Planalto é que a disputa de 2026 não será decidida apenas nas redes sociais ou pela polarização ideológica tradicional. O governo acredita que percepção econômica concreta e sensação de estabilidade voltarão a exercer peso decisivo na definição do voto.
A nova Quaest sugere justamente isso: quando melhora a percepção econômica e diminui a sensação de instabilidade, Lula recupera capacidade de diálogo com parcelas da classe média urbana que haviam se afastado do governo nos últimos anos.
Ainda assim, o cenário permanece altamente competitivo.
O bolsonarismo continua mantendo forte presença digital, influência parlamentar e capacidade de mobilização em setores conservadores urbanos. Flávio Bolsonaro já aparece consolidado como principal herdeiro político do campo da extrema-direita para 2026.
Mas os números divulgados nesta terça-feira mostram que Lula segue altamente competitivo e capaz de recuperar terreno político quando consegue associar sua imagem à melhora econômica e à sensação de maior estabilidade social.
Mais do que uma simples oscilação estatística, a pesquisa aponta uma disputa mais profunda sobre qual projeto político conseguirá convencer a classe média brasileira em um país ainda marcado por desigualdade, polarização e insegurança econômica permanente.

