Atitude Popular

“O Brasil participou diretamente da derrota histórica do fascismo na Europa”

Sociólogo Fábio Gentile relembra no Café com Democracia o papel da Força Expedicionária Brasileira na libertação da Itália e alerta para os riscos da reabilitação contemporânea do fascismo

O programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas no dia 14 de maio, recebeu o sociólogo Fábio Gentile, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará, para discutir a participação do Exército brasileiro na luta contra o fascismo durante a Segunda Guerra Mundial e os significados históricos e políticos do 25 de Abril italiano.

A entrevista teve como eixo a atuação da Força Expedicionária Brasileira na campanha da Itália, especialmente no contexto da libertação do país do regime fascista liderado por Benito Mussolini. Durante a conversa, Gentile destacou que a memória da participação brasileira no conflito ainda é pouco valorizada no próprio Brasil, apesar de seu peso simbólico e histórico.

“O Brasil participou diretamente da derrota histórica do fascismo na Europa”, afirmou o sociólogo ao lembrar que tropas brasileiras atuaram ao lado dos Aliados em batalhas decisivas no território italiano. Segundo ele, a presença da FEB ajudou a desmontar não apenas estruturas militares do nazifascismo, mas também a consolidar processos democráticos posteriores na Itália.

Gentile explicou que o 25 de Abril ocupa lugar central na memória antifascista italiana porque simboliza a insurreição popular que acelerou a queda definitiva do fascismo no país em 1945. Embora a data mais conhecida internacionalmente seja associada à Revolução dos Cravos, na Itália o 25 de Abril marca oficialmente o Dia da Libertação.

O professor observou que a resistência italiana foi formada por operários, estudantes, camponeses, intelectuais e guerrilheiros que enfrentaram tanto as tropas nazistas quanto os setores fascistas remanescentes ligados a Mussolini. Nesse cenário, os soldados brasileiros integraram operações importantes em regiões estratégicas do norte italiano.

Ao abordar a experiência da FEB, Gentile destacou que a participação brasileira produziu uma contradição histórica importante. Segundo ele, o Brasil combatia o fascismo na Europa enquanto ainda vivia internamente sob o Estado Novo. Para o sociólogo, esse paradoxo contribuiu posteriormente para pressões por abertura democrática no país.

“A luta contra o fascismo também ajudou a abrir fissuras no autoritarismo brasileiro”, afirmou.

Durante o debate, o entrevistado ressaltou ainda que o fascismo não deve ser entendido apenas como um fenômeno do passado europeu. Segundo Gentile, existem permanências políticas e culturais que reaparecem em diferentes contextos históricos, especialmente em períodos de crise econômica, medo social e radicalização política.

Ele alertou para a tentativa contemporânea de normalização de discursos autoritários e para a banalização de símbolos ligados ao fascismo e ao nazismo. Na avaliação do sociólogo, a preservação da memória histórica é fundamental para impedir processos de revisionismo que busquem relativizar crimes políticos e experiências ditatoriais.

Gentile também analisou como setores da extrema direita internacional passaram a disputar símbolos patrióticos, religiosos e militares para reconstruir narrativas nacionalistas autoritárias. Segundo ele, compreender o papel histórico da resistência antifascista ajuda a desmontar simplificações e mitologias políticas que reaparecem nas redes sociais e em movimentos contemporâneos.

Ao longo da entrevista, o professor lembrou que milhares de brasileiros participaram diretamente do conflito europeu, muitos deles jovens enviados para uma guerra distante e marcada por condições extremas. Apesar disso, afirmou que a memória pública sobre a FEB ainda permanece marginalizada em grande parte do debate histórico nacional.

Para Gentile, recuperar esse passado significa também recuperar o sentido político da solidariedade internacional contra regimes autoritários. “A memória antifascista não pertence apenas à Itália. Ela também faz parte da história democrática brasileira”, declarou.

A íntegra da entrevista está disponível no canal da TV Atitude Popular no YouTube:

Referências

  • A era dos extremos, de Eric Hobsbawm
  • As origens do totalitarismo, de Hannah Arendt

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📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
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