“É hora de reafirmar direitos, não de liquidá-los”

Inácio Arruda e Taís Matos defendem redução da jornada, fortalecimento do SUS e enfrentamento à extrema direita durante debate sobre as eleições de 2026

A defesa dos direitos trabalhistas, o fortalecimento do Sistema Único de Saúde, a redução da jornada de trabalho e a necessidade de enfrentar a desinformação estiveram no centro da nova edição do programa Eleições 2026 em Debate, que recebeu a médica Taís Matos e o deputado federal Inácio Arruda, ambos do PCdoB.

Realizado pela Atitude Popular e pelo Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará, com apresentação de Sousa Júnior, o programa abriu espaço para que os convidados discutissem suas trajetórias, os desafios das pré-candidaturas e a conjuntura política no Ceará e no Brasil. Taís Matos é pré-candidata a deputada estadual, enquanto Inácio Arruda, atualmente no exercício do mandato na Câmara dos Deputados, pretende disputar a reeleição.

Médica formada em Cuba e especialista em Medicina de Família e Comunidade, Taís Matos relacionou sua escolha profissional à própria origem familiar e à experiência de formação na ilha caribenha. Filha de uma empregada doméstica e de um pescador, ela afirmou que sua atuação no serviço público foi influenciada pelo compromisso assumido durante a graduação.

“Eu sou fruto da solidariedade do povo cubano. Então, como ser fruto de uma solidariedade e não trabalhar com solidariedade?”, questionou.

Taís trabalhou por quase nove anos no programa Mais Médicos e atualmente atende pessoas em situação de rua em Fortaleza. Ao falar sobre a escolha, definiu a relação que mantém com a profissão.

“Sou médica de família de formação e médica de rua por convicção”, afirmou.

Segundo ela, o trabalho com pessoas em situação de rua também possui relação com sua história familiar. Taís contou que seu pai já desenvolvia atividades culturais e teatrais com essa população durante sua infância. A experiência, segundo a médica, contribuiu para sua decisão de trabalhar com grupos em condições de maior vulnerabilidade.

Ao participar do programa por videoconferência durante uma viagem entre Juazeiro do Norte e Icó, Inácio Arruda afirmou que a eleição de 2026 será marcada por uma disputa em torno dos direitos sociais e trabalhistas. Para o deputado, setores conservadores têm conseguido difundir entre parcelas da sociedade discursos que apresentam direitos historicamente conquistados como obstáculos à liberdade individual.

“É hora de reafirmar direitos, conquistas sociais, e não liquidá-las”, declarou.

Inácio citou as transformações tecnológicas e o avanço da automação e da inteligência artificial como fatores que tornam ainda mais urgente o debate sobre a proteção social. Para ele, o crescimento da produtividade precisa ser acompanhado pela redução da jornada e pela ampliação do acesso à educação.

O deputado também defendeu a universalização do ensino superior e afirmou que as mudanças no mundo do trabalho exigem maior qualificação da população. Segundo ele, o desenvolvimento tecnológico não pode servir apenas à concentração de renda ou à retirada de direitos.

“O grande desafio é convencer a sociedade da importância dos direitos sociais num mundo em forte transformação digital”, disse.

A redução da jornada de trabalho ocupou parte importante da entrevista. Inácio recordou a trajetória da luta pela diminuição da carga horária semanal e afirmou que participou, em diferentes momentos de sua carreira parlamentar, das mobilizações em torno dessa pauta.

Segundo o deputado, a Constituição de 1988 reduziu a jornada semanal para 44 horas, embora movimentos sindicais e parlamentares progressistas defendessem a redução para 40 horas. Ele também lembrou a apresentação, na década de 1990, de uma proposta de emenda constitucional sobre o tema em conjunto com o então senador Paulo Paim.

Para Inácio, a atual mobilização pelo fim da escala 6×1 deu nova força política a uma reivindicação histórica dos trabalhadores.

“É uma maneira de apresentar diferente para o mesmo conteúdo. Você mudou a forma, mas o conteúdo é o mesmo: redução da jornada de trabalho”, afirmou.

O parlamentar defendeu a continuidade da pressão social sobre o Congresso Nacional. Segundo ele, conquistas trabalhistas não foram concedidas espontaneamente e dependeram de mobilização organizada.

“Nunca a gente ganhou nada ali sem pressão forte sobre deputados e senadores”, disse.

Taís Matos também criticou os discursos contrários à legislação trabalhista e demonstrou preocupação particular com a adesão de jovens a mensagens que apresentam o trabalho formal como algo ultrapassado.

Segundo a médica, a ideia de que um trabalhador pode negociar individualmente em condições de igualdade com um empregador ignora a desigualdade econômica existente nessa relação. Ela também lembrou que os direitos trabalhistas garantem proteção em situações de acidente, doença e afastamento do trabalho.

Para Taís, a pandemia de Covid-19 evidenciou a vulnerabilidade dos trabalhadores sem proteção social. Ela recordou que a emergência sanitária exigiu a criação do auxílio emergencial para milhões de brasileiros que dependiam da informalidade e perderam suas fontes de renda durante a crise.

A médica também defendeu a regulamentação das plataformas digitais e das redes sociais diante da circulação de informações falsas. Em sua avaliação, a desinformação política passou a ocupar espaços comunitários e religiosos e precisa ser enfrentada por meio do diálogo cotidiano.

Taís ressaltou, porém, a necessidade de diferenciar a fé dos cidadãos da utilização política das instituições religiosas. Segundo ela, discursos que defendem jornadas exaustivas entram em contradição até mesmo com a defesa da convivência familiar frequentemente apresentada por lideranças religiosas.

“A gente precisa trabalhar com período de descanso, com período de lazer, com espaço para a cultura e para o cuidado da própria família”, afirmou.

O debate avançou para a conjuntura eleitoral de 2026. Taís Matos avaliou que a eleição presidencial será difícil diante do crescimento internacional da extrema direita e afirmou que a soberania nacional deverá ocupar posição central na campanha.

Para a médica, temas como segurança pública precisam ser tratados pelo campo progressista de maneira mais ampla, relacionando violência, desigualdade social, tráfico de drogas e os circuitos econômicos que sustentam as organizações criminosas.

“Eu acho que é uma batalha difícil porque a segurança pública afeta diretamente as pessoas no dia a dia e a extrema direita se apropria desse debate como se fosse uma questão simplista”, afirmou.

Taís também criticou propostas de participação de organismos estrangeiros na segurança pública brasileira e defendeu que decisões sobre políticas nacionais sejam tomadas pelo próprio país.

Inácio Arruda, por sua vez, afirmou que a extrema direita procura assumir o discurso da segurança pública enquanto mantém relações políticas com interesses que, em sua avaliação, precisam ser investigados e enfrentados.

“A extrema direita faz um discurso enorme como se fosse defensora da segurança pública. Ao contrário, ela é inimiga da segurança pública”, declarou.

O deputado defendeu que a campanha eleitoral apresente à população as diferenças entre os projetos políticos em disputa. Como exemplos, citou a retomada de investimentos em saúde pública, educação, ciência, tecnologia e inovação durante o governo do Presidente Lula.

Inácio afirmou estar confiante nas vitórias do Presidente Lula e do governador Elmano de Freitas, mas ressaltou a necessidade de ampliar as bancadas progressistas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa do Ceará.

O tema da pandemia ganhou uma dimensão pessoal quando Taís Matos relatou uma situação vivida durante o atendimento a pacientes com Covid-19. A médica contou que, em uma unidade de saúde, recebeu simultaneamente uma mãe e um filho contaminados, mas havia apenas um cilindro de oxigênio disponível.

“A mãe disse: ‘Doutora, tire de mim e coloque no meu filho’”, contou.

O filho apresentava um quadro mais grave, e Taís atendeu ao pedido da mãe enquanto aguardava a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência. Depois, foi ao banheiro chorar. Os dois sobreviveram, embora o jovem tenha permanecido internado por um período prolongado e enfrentado sequelas da doença.

O relato serviu de ponto de partida para críticas à condução federal da pandemia durante o governo de Jair Bolsonaro. Taís lembrou a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19 e a demora na priorização da vacinação.

“A gente assistiu ao que assistiu durante a pandemia. Ser da saúde pública e ter coragem de votar em pessoas que defenderam medicamentos sem comprovação científica em vez de investir no que era importante, que era vacinação e oxigênio, é muito complicado”, afirmou.

A médica também destacou a retomada de investimentos no SUS durante o governo do Presidente Lula e citou a política dos Consultórios na Rua, na qual atua profissionalmente. O programa oferece assistência de saúde às pessoas em situação de rua e integra as políticas de equidade do Sistema Único de Saúde.

Na parte final da entrevista, Taís relacionou o debate sobre a redução da jornada de trabalho à situação das mulheres. Segundo ela, a escala 6×1 produz impactos particulares sobre trabalhadoras que acumulam emprego remunerado, trabalho doméstico e responsabilidades de cuidado.

“As mulheres são muito mais afetadas com essa escala 6×1 e precisam que essa escala termine para que tenham mais tempo para cuidar dos filhos, para se cuidar e para ter uma vida para além do trabalho”, afirmou.

Taís também defendeu maior representação feminina nas instituições políticas, mas ressaltou que a presença de mulheres precisa estar vinculada ao compromisso com os direitos das próprias mulheres e dos trabalhadores.

Ao comentar a disputa pelo Senado no Ceará, a médica manifestou apoio à pré-candidatura da deputada federal Luizianne Lins e defendeu que a Federação Brasil da Esperança considere o apoio ao seu nome.

“A gente não pode ter um Senado só de homens. A gente precisa ter um Senado de homens e mulheres e principalmente mulheres como a deputada Luizianne Lins, que tem uma história de luta aqui no estado do Ceará”, declarou.

Antes de encerrar sua participação, Inácio Arruda falou sobre sua agenda em Icó, onde acompanhava uma atividade relacionada a um projeto de saneamento rural desenvolvido com participação do Instituto Nacional do Semiárido. O deputado defendeu a ampliação da iniciativa para comunidades rurais do Nordeste ainda sem acesso adequado ao saneamento.

A edição do Eleições 2026 em Debate terminou com uma defesa da ampliação da participação política e da eleição de representantes comprometidos com os direitos sociais. Para Taís Matos e Inácio Arruda, a disputa de 2026 exigirá presença nos territórios, enfrentamento à desinformação e capacidade de dialogar com trabalhadores que têm sido alcançados por discursos contrários a direitos conquistados ao longo de décadas.

Assista ao programa completo:

📺 Programa Eleições 2026 em Debate
📅 Toda sexta-feira
🕙 Às 8h30
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