No quadro “Antes que acabe o mês”, tradicional balanço crítico dos principais acontecimentos políticos, econômicos e sociais do período, o programa Democracia no Ar recebeu, nesta sexta-feira, Victor Marques, professor da UFABC, e Sandra Helena, professora de Filosofia, para uma leitura ampla da conjuntura nacional e internacional.
A análise foi realizada no programa Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes e transmitido pela Rádio e TV Atitude Popular, dentro da Rede Cearense de Comunicação Popular, que reúne mais de 30 rádios e TVs comunitárias. O debate abordou a escalada militar no Oriente Médio, os impactos econômicos da guerra, a crise da extrema direita internacional, a mobilização progressista global na Espanha e o discurso do presidente Lula contra o neoliberalismo.
Logo no início, Victor Marques avaliou que o cenário envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã não pode ser tratado como uma guerra convencional entre dois lados equivalentes. Para ele, trata-se de uma agressão unilateral contra o Irã, com efeitos imprevisíveis para a economia mundial.
“A situação de agora é de caos administrado”, afirmou Victor. Segundo ele, o cessar-fogo é instável, o Estreito de Ormuz segue sob tensão e a insegurança sobre o fluxo de petróleo e derivados já afeta cadeias globais de produção.
O professor destacou que a alta do petróleo pode ter consequências graves para países pobres e para a população trabalhadora em escala internacional. “Um petróleo a 100 dólares significa que a fome crônica vai retornar a muitos lugares”, alertou. Ele lembrou que a região também é estratégica para o transporte de fertilizantes, ácido sulfúrico e insumos fundamentais da indústria petroquímica.
Victor também chamou atenção para as contradições internas do trumpismo. Segundo ele, setores mais radicalizados da extrema direita norte-americana, inclusive grupos antissemitas, passaram a criticar a ofensiva contra o Irã por considerarem que Trump teria cedido ao lobby sionista.
“As franjas mais radicalizadas do trumpismo, as franjas mais fascistas ou neonazistas, estão contra a guerra”, observou.
Sandra Helena, ao comentar o quadro internacional, ressaltou a complexidade do momento e a dificuldade de organizar uma leitura simplista diante de tantos interesses cruzados. Ela destacou que a escalada militar deve ser entendida também pelo impacto sobre países que se aproximam de disputas eleitorais decisivas, inclusive o Brasil.
O debate avançou para a Hungria e para a derrota política de Viktor Orbán, tratado por Victor como uma referência central da direita populista internacional. Ele lembrou que Orbán foi durante anos apresentado como modelo da chamada “democracia iliberal”, com perseguição a opositores, controle de instituições e aparelhamento de meios de comunicação.
“Orbán era o queridinho da direita populista internacional”, disse Victor, ao relacionar sua influência à CPAC, conferência que reúne lideranças conservadoras e de extrema direita em diferentes países.
Na avaliação do professor, a derrota de Orbán representa um abalo importante para esse campo político, ainda que não signifique automaticamente uma vitória da esquerda. “Para quem valoriza a democracia liberal, essa democracia burguesa bastante limitada e constrangida, isso é importante”, afirmou.
Outro eixo central da conversa foi a Mobilização Progressista Global, realizada na Espanha, que reuniu lideranças como Lula, Pedro Sánchez, Gustavo Petro e Claudia Sheinbaum. Victor avaliou que o encontro funcionou como uma tentativa de contraponto internacional à CPAC e aos fóruns da extrema direita.
Segundo ele, Lula ocupou o lugar de principal liderança do evento. “Hoje o Lula é o líder da esquerda internacional”, afirmou Victor. Para o professor, o presidente brasileiro tem uma autoridade política construída por sua trajetória no movimento operário, nas lutas sociais e na política institucional.
O ponto mais forte do debate foi a análise do discurso de Lula na Espanha. Victor destacou que o presidente fez uma crítica direta ao neoliberalismo e também uma autocrítica ao campo progressista.
“A extrema direita soube canalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo”, citou Victor, ao comentar a fala de Lula. Para ele, o diagnóstico do presidente foi preciso ao apontar que a esquerda, em muitos momentos, passou a ser vista como mera administradora do sistema.
Victor avaliou que Lula tocou em uma ferida central da política contemporânea: a incapacidade das forças progressistas de projetar um futuro desejável para as maiorias sociais. “É necessário recuperar a capacidade das forças progressistas de projetar um futuro”, afirmou, retomando o sentido da fala presidencial.
O professor também destacou a segunda parte do discurso de Lula, mais espontânea e marcada por forte tom anti-imperialista. Nela, o presidente cobrou responsabilidade dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e denunciou a multiplicação de guerras no mundo.
Ao comentar o trecho em que Lula defende que o povo pobre quer apenas emprego, moradia, saúde, educação e dignidade, Victor fez uma reflexão crítica sobre os limites do próprio sistema econômico.
“É impossível em condições capitalistas cumprir um projeto de dignidade mínima, um projeto de vida boa para todo mundo”, afirmou.
Para ele, essa é a contradição fundamental. As reivindicações populares são básicas, razoáveis e previstas em constituições, declarações de direitos e até na Bíblia. Ainda assim, não se cumprem porque entram em choque com a lógica de concentração de riqueza.
“Por mais que nós não desejemos isso, talvez para cumprir essas pequenas coisas que nós queremos, vai ser necessário tirar muitas coisas dos ricos”, completou Victor.
O quadro terminou reafirmando a importância de compreender os acontecimentos para além das manchetes. Entre guerras, crises econômicas, reorganização da extrema direita e tentativa de reconstrução de um campo progressista internacional, o “Antes que acabe o mês” apresentou uma leitura de conjuntura marcada pela urgência histórica e pela disputa sobre o futuro.
📺 Programa Democracia no Ar
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O












