Novos detalhes do roteiro de “Dark Horse”, filme inspirado na trajetória política de Jair Bolsonaro, revelam uma narrativa marcada por forte conteúdo ideológico, ataques à esquerda e construção de personagens alinhados ao imaginário do bolsonarismo.
Trechos do roteiro descrevem personagens associados ao campo progressista como “marxistas drogados”, enquanto uma médica identificada como simpatizante do Presidente Lula aparece retratada de maneira caricatural e hostil. O texto também apresenta a ex-ministra Damares Alves em papel de destaque heroico dentro da trama.
O roteiro completo (em inglês) pode ser lido aqui: Roteiro de “Dark Horse”
A produção cinematográfica, que vem sendo associada ao núcleo político da família Bolsonaro, tornou-se alvo de crescente repercussão após revelações sobre tentativas de captação milionária de recursos para viabilizar o projeto.
O filme é estrelado pelo ator Jim Caviezel, conhecido internacionalmente por papéis ligados a produções religiosas e conservadoras. Nos bastidores, “Dark Horse” vinha sendo tratado como peça estratégica de reconstrução simbólica do bolsonarismo após a derrota eleitoral de 2022 e o desgaste político provocado pelas investigações sobre tentativa de golpe.
A trajetória recente de Caviezel também vem sendo alvo de debate público. Nos últimos anos, o ator passou a circular em ambientes ligados ao conspiracionismo da extrema direita norte-americana e perdeu espaço nas grandes produções de Hollywood. A Atitude Popular publicou recentemente uma análise sobre a decadência da carreira do ator: De galã a “doidinho do bairro”: a decadência da carreira do ator que interpreta Bolsonaro no cinema
Os detalhes do roteiro reforçam avaliações de que o longa pretende funcionar não apenas como produto cinematográfico, mas como instrumento de disputa ideológica e reconstrução narrativa da extrema direita brasileira.
Nos últimos dias, o projeto passou a enfrentar pressão ainda maior após surgirem informações sobre pedidos de financiamento atribuídos a Flávio Bolsonaro ao empresário Daniel Vorcaro. As negociações envolveriam cifras superiores a R$ 130 milhões para sustentação da produção. O caso ampliou questionamentos sobre possíveis relações entre capital financeiro, interesses políticos e produção de propaganda ideológica ligada ao entorno Bolsonaro.
Trechos do roteiro também indicam esforço para reescrever episódios recentes da política brasileira sob ótica fortemente polarizada. Personagens ligados à esquerda aparecem frequentemente associados a decadência moral, corrupção ou desordem social, enquanto aliados do bolsonarismo são retratados como figuras perseguidas ou responsáveis pela “salvação” nacional.
Há ainda momentos em que o roteiro parece importar referências culturais do conservadorismo norte-americano sem adaptação ao contexto histórico brasileiro. Um dos exemplos mais comentados é uma piada racista envolvendo negros “não saberem nadar”, estereótipo historicamente difundido nos Estados Unidos, marcadoa tanto pela segregação do acesso a piscinas e áreas aquáticas quanto pelas formas de repressão aos escravizados. Em diversas regiões dos EUA, populações negras foram historicamente impedidas de frequentar espaços aquáticos público, além disso, as rotas de fuga de escravizados nos Estados Unidos frequentemente evitavam rios e travessias aquática.
A presença desse tipo de piada no roteiro reforçou críticas de que “Dark Horse” tenta reproduzir referências ideológicas e culturais da extrema direita norte-americana de maneira artificial, deslocada da realidade histórica brasileira.
Outro aspecto que vem chamando atenção é o tom considerado infantil de parte da construção dramática. O roteiro utiliza nomes pouco sutis para personagens inspirados em figuras públicas reais. A jornalista “Lara Clarke”, por exemplo, soa como referência direta a Clark Kent, identidade civil do Superman. Já “Aurelio Barba” aparece como caricatura transparente de Adélio Bispo, trocando “Bispo” por “Barba”, numa referência aparentemente visual e simplificada.
Em outro caso, o personagem que ocupa o lugar simbólico do Presidente Lula recebe o nome genérico de “Francisco Alves”. Mesmo assim, segundo leitores do roteiro, o próprio nome “Lula” acaba escapando em alguns momentos das mais de 100 páginas do texto, revelando inconsistência na tentativa de ficcionalização.
A narrativa também constrói uma grande teia conspiratória envolvendo jornalistas, intelectuais progressistas, artistas, universidades e adversários políticos, frequentemente tratados como parte coordenada de um mesmo bloco maligno e homogêneo. Analistas apontam que o mecanismo lembra fórmulas narrativas típicas de produções ideológicas simplificadas, nas quais todos os opositores são conectados artificialmente em uma única estrutura de ameaça permanente.
Outro elemento que chamou atenção é o esforço quase obsessivo para construir uma imagem harmoniosa da família Bolsonaro. O roteiro insiste em demonstrações exageradas de afeto entre Michelle Bolsonaro e filhos de Jair e de Jair Bolsonaro e a filha Laura. Em diferentes trechos, as cenas familiares são uma tentativa explícita de neutralizar desgastes públicos acumulados pela imagem do ex-presidente. A estratégia se torna ainda mais perceptível diante da ausência quase completa de episódios politicamente delicados da trajetória bolsonarista, incluindo a declaração sobre ter “fraquejado” ao ter uma filha mulher, fala amplamente lembrada pelos críticos do ex-presidente.
Também chamou atenção a omissão de personagens centrais do universo político bolsonarista. O vereador Renan Bolsonaro não aparece no roteiro, assim como o pastor Silas Malafaia, um dos principais aliados públicos de Bolsonaro ao longo dos últimos anos.
A repercussão do roteiro ocorre num momento em que o bolsonarismo atravessa, ao mesmo tempo, investigações judiciais, desgaste político e disputas internas pela condução da extrema direita. Nos bastidores de Brasília, aliados do governo avaliam que a conversão de “Dark Horse” em escândalo político-financeiro pode atingir em cheio as pretensões eleitorais de Flávio Bolsonaro. Há, porém, um elemento contraditório nesse processo: o caráter involuntariamente kitsch da obra. O que poderia funcionar como constrangimento também alimenta a curiosidade pública. Quanto mais o roteiro circula como peça constrangedora, mais cresce o interesse de quem quer descobrir se ele é realmente tão ruim quanto parece. E é.



