Da Redação
Documentos revelados pelo Intercept mostram que Eduardo Bolsonaro não apenas autorizou o uso de sua imagem em Dark Horse, produção hollywoodiana sobre Jair Bolsonaro estrelada por Jim Caviezel. Segundo contratos e mensagens obtidos pela reportagem, ele participou diretamente da estrutura de gestão financeira e da produção-executiva do filme, aprofundando ainda mais as suspeitas em torno do projeto ligado a Daniel Vorcaro e ao Banco Master.
A versão pública apresentada até então era mais simples. Eduardo sustentava que sua participação se limitava à autorização de imagem para uma obra cinematográfica independente. Os documentos, porém, desmontam essa narrativa. O deputado cassado assinou digitalmente, em janeiro de 2024, contrato que o coloca formalmente como produtor-executivo do longa ao lado de Mario Frias e da empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos.
Na prática, isso significa participação direta em decisões estratégicas, financeiras e operacionais da produção. As mensagens reveladas pelo Intercept indicam que Eduardo acompanhava discussões sobre captação de recursos, busca de investidores, organização financeira e mecanismos de envio de dinheiro para os Estados Unidos.
Em uma das conversas divulgadas, Eduardo afirma que o “ideal” seria já existir dinheiro em território norte-americano, porque transferências feitas diretamente do Brasil poderiam ser “problemáticas” e demorariam meses. Em seguida, pergunta aos interlocutores: “Será que conseguimos?”. O diálogo, que parece retirado de um thriller financeiro, ganha peso adicional diante das investigações em curso sobre circulação de recursos ligados ao projeto.
O caso também expõe uma contradição política difícil de ignorar. Durante anos, Eduardo Bolsonaro se apresentou como defensor radical da soberania nacional e opositor do chamado “globalismo”. Agora surge associado a uma estrutura internacional de financiamento político-cultural articulada entre Brasil e Estados Unidos, envolvendo investidores milionários, operadores financeiros e figuras centrais do trumpismo internacional.
Segundo o Intercept, o orçamento previsto para Dark Horse variava entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões. O projeto previa venda de cotas milionárias para investidores e incluía até promessas relacionadas à obtenção de Green Card para quem aplicasse recursos suficientes na operação. O filme reúne ainda elementos simbólicos importantes do ecossistema bolsonarista internacional: Mario Frias na estrutura de produção, Jim Caviezel no papel principal e conexões com setores associados ao universo conspiratório do QAnon.
A situação se torna ainda mais delicada porque a Polícia Federal já investiga se parte dos recursos negociados para o longa teria servido para financiar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Nesse contexto, o filme deixa de parecer apenas um produto audiovisual e passa a ser observado como possível plataforma política e financeira de internacionalização do bolsonarismo.
Há também um desgaste evidente na narrativa moral construída pela extrema direita desde 2018. O bolsonarismo passou anos atacando artistas, demonizando mecanismos de financiamento cultural e acusando o audiovisual brasileiro de viver de privilégios e “mamatas”. Agora, integrantes centrais do próprio grupo aparecem vinculados a um projeto cinematográfico milionário cercado por negociações financeiras agressivas, investidores internacionais, circulação transnacional de recursos e suspeitas de lavagem de dinheiro.
A cada novo documento divulgado, Dark Horse vai deixando de se apresentar como um simples “filme independente” e se consolidando como símbolo da fusão entre guerra cultural, redes financeiras internacionais e construção de uma mitologia política exportável. Nesse cenário, Eduardo Bolsonaro não aparece como figura periférica ou mero personagem retratado na obra, mas como alguém posicionado no centro da engrenagem que movimentava o projeto.