Da Redação
Dados recentes mostram que a geração de empregos desde 2023 se concentrou na base da pirâmide, indicando inclusão social, mas também revelando desafios estruturais de renda e qualidade do trabalho.
O mercado de trabalho brasileiro vive um momento de expansão consistente desde 2023, mas com uma característica central que define esse novo ciclo: a geração de empregos está concentrada majoritariamente nas faixas de menor renda. Dados recentes mostram que vagas com remuneração entre um e dois salários mínimos lideraram amplamente o crescimento da ocupação no país.
Segundo levantamento com base na PNAD Contínua do IBGE, essa faixa salarial respondeu por impressionantes 87,3% da expansão do número de ocupados entre 2023 e 2025 . Em termos absolutos, foram cerca de 4 milhões de novos trabalhadores inseridos nesse grupo, de um total de 4,6 milhões de vagas criadas no período .
O dado revela um movimento estrutural importante: a retomada do emprego no Brasil ocorreu principalmente na base da pirâmide social. Em dezembro de 2025, trabalhadores que ganham entre um e dois salários mínimos passaram a representar 37,1% da população ocupada, ampliando sua participação no mercado .
Esse crescimento foi puxado, sobretudo, por setores como comércio e serviços, áreas que tradicionalmente demandam menor qualificação formal e oferecem salários mais baixos. Para analistas, esse padrão indica um mercado aquecido para ocupações de entrada, com menor exigência técnica, o que facilita a absorção de mão de obra em larga escala.
Especialistas avaliam o fenômeno sob duas perspectivas. De um lado, há um aspecto positivo evidente: o crescimento do emprego entre os mais pobres. Economistas destacam que houve melhora significativa na base da pirâmide, com maior inclusão de trabalhadores historicamente mais vulneráveis ao desemprego .
Essa leitura é reforçada por análises que apontam redução da desigualdade no acesso ao trabalho, já que a expansão ocorreu com mais intensidade entre os segmentos de menor renda. Em outras palavras, o mercado voltou a gerar oportunidades para quem mais precisa.
Por outro lado, o cenário também expõe limites estruturais. O crescimento concentrado em empregos de baixa remuneração indica que a recuperação econômica ainda não se traduziu plenamente em aumento da qualidade do trabalho. Enquanto a base cresce, a participação de trabalhadores com renda acima de dois salários mínimos caiu para cerca de 30,3% do total, mostrando perda relativa das faixas mais altas .
Esse padrão reforça uma característica histórica do Brasil: a dificuldade de gerar empregos de maior qualificação e melhor remuneração em larga escala. O país avança na inclusão, mas ainda enfrenta desafios para subir a renda média e consolidar uma estrutura produtiva mais sofisticada.
Outro fator relevante nesse processo foi o papel das políticas públicas. Mudanças no Bolsa Família e o aumento do salário mínimo contribuíram para dinamizar o mercado de trabalho, incentivando a formalização e ampliando o consumo interno, o que retroalimenta a geração de empregos.
Os dados mais recentes também mostram que o mercado de trabalho segue aquecido. Em fevereiro de 2026, por exemplo, o Brasil criou mais de 255 mil empregos formais, com destaque para o setor de serviços, que continua sendo o principal motor da ocupação .
Esse dinamismo ocorre mesmo em um contexto de desaceleração econômica global, indicando certa resiliência do mercado interno brasileiro.
No entanto, o desafio central permanece: transformar quantidade em qualidade. A expansão do emprego na base da pirâmide é fundamental para reduzir pobreza e desigualdade, mas precisa ser acompanhada por políticas de qualificação, inovação e reindustrialização para elevar o padrão de renda no médio e longo prazo.
No fim, o retrato do mercado de trabalho brasileiro é ambivalente. De um lado, um país que voltou a gerar empregos em ritmo acelerado e a incluir milhões de trabalhadores. De outro, uma economia que ainda precisa dar o próximo passo: criar empregos melhores, mais produtivos e capazes de sustentar um crescimento mais robusto e menos desigual.






