Atitude Popular

“Escrever é uma forma de sangrar”, diz Ivna Oliveira

No Café com Democracia, jornalista fala sobre literatura, juventudes periféricas, políticas públicas e o livro Contos sobre uma rede de afetos

Da Redação

A jornalista e escritora Ivna Oliveira participou do Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, no dia 5 de junho, para falar sobre o livro Contos sobre uma rede de afetos. A entrevista foi exibida pela Atitude Popular e abordou literatura, juventudes, pandemia, políticas públicas e a importância das relações humanas em um mundo atravessado pela tecnologia.

Durante a conversa, Ivna explicou que a obra nasceu no período mais duro da pandemia, quando atuava na promoção de direitos humanos da Rede Cuca, em Fortaleza. Com o fechamento dos equipamentos públicos durante o lockdown, a autora passou a refletir sobre os impactos daquele isolamento na vida dos jovens que frequentavam o espaço.

“Como dizia a Conceição Evaristo, escrever é uma forma de sangrar. E eu estava sangrando naquele momento”, afirmou.

Segundo Ivna, o livro surgiu da escuta acumulada ao longo de sua convivência com jovens da Rede Cuca, especialmente aqueles marcados por vulnerabilidades sociais, conflitos familiares, ausência do Estado e falta de oportunidades. A proposta, no entanto, não foi reproduzir histórias de forma direta, nem expor trajetórias pessoais. A autora trabalhou com fragmentos, memórias, imaginação e experiências atravessadas pela realidade social.

“As histórias foram construídas a partir desses fragmentos de juventude”, explicou.

Ivna destacou que a juventude retratada no livro é múltipla. Para ela, não existe uma experiência única de ser jovem nas periferias. Há trajetórias distintas, atravessadas por desejos, violências, talentos, medos, descobertas e tentativas de reorganizar a própria vida.

Ao comentar o título da obra, a escritora observou que a palavra afeto costuma ser associada apenas a sentimentos positivos. No livro, porém, o termo aparece em sentido mais amplo, ligado a tudo aquilo que atravessa uma pessoa e produz marcas.

“Quando a gente pensa sobre afetos, a gente sempre pensa pelo viés positivo. Na realidade, a gente está falando do afeto como tudo que me atravessa”, disse.

A autora também fez questão de frisar que Contos sobre uma rede de afetos não é uma obra motivacional. As narrativas tratam de experiências que, muitas vezes, não têm desfecho simples ou feliz. O livro apresenta jovens que lidam com sinais fechados, falta de proteção social e desigualdades persistentes, mas que seguem tentando construir caminhos possíveis.

“Não é um livro para falar só de motivação. É de experiências dessas juventudes que muitas vezes encontram o sinal fechado”, afirmou.

Na entrevista, Ivna explicou a diferença entre a escrita jornalística e a literatura. Como jornalista, ela trabalha com fatos, fontes e apuração. Como escritora, encontra outro campo de liberdade, no qual pode explorar emoções, imaginar enredos e transformar experiências fragmentadas em contos.

“No jornalismo, a gente vai trabalhar com os fatos. Na literatura, eu tenho um universo bem mais amplo, de explorar emoções, experiências e a própria imaginação”, declarou.

A autora também revelou que duas histórias do livro foram cedidas por jovens ligados à Rede Cuca: Dani Cardoso e Carlos Júnior, conhecido como Kaká. As demais narrativas foram construídas a partir de fragmentos de vivências, escutas e observações acumuladas ao longo de sua trajetória.

Ao falar sobre Dani Cardoso, Ivna destacou a força de sua atuação como escritora, agente cultural e pessoa com deficiência. Para ela, a história de Dani é marcada por luta, resistência e afirmação de presença no mundo.

Ivna também defendeu a importância das políticas públicas para a juventude. Segundo ela, equipamentos como a Rede Cuca e programas como o Bolsa Jovem têm impacto direto na vida de jovens que, sem esse suporte, acabam empurrados para a desproteção social.

“O Bolsa Jovem salvou muitas vidas. Eu sou testemunha disso”, afirmou.

A escritora criticou a forma como setores mais ricos da sociedade tratam programas de distribuição de renda. Para ela, quem desconhece a realidade da fome, da falta de roupa para uma entrevista de emprego ou da impossibilidade de estudar com tranquilidade não tem autoridade moral para atacar políticas públicas voltadas aos mais pobres.

Citando Carolina Maria de Jesus, Ivna afirmou: “Só pode falar de fome quem passou fome”.

A entrevistada também relacionou o debate sobre juventude à defesa de programas sociais recentes, como o Pé-de-Meia Licenciatura, do qual seu filho é beneficiário. Para ela, políticas desse tipo ajudam a desafogar famílias trabalhadoras e abrem novas possibilidades para jovens que querem estudar.

“Nós precisamos defender as políticas públicas porque elas constroem novas narrativas de vida para a nossa juventude”, disse.

Na parte final da entrevista, Ivna refletiu sobre a solidão em um mundo hiperconectado. Segundo ela, a tecnologia pode ampliar contatos, mas também aprofundar processos de isolamento e desumanização. O livro, nesse sentido, propõe uma volta às relações humanas, à escuta e à responsabilidade coletiva.

“Falar de afetividade é falar que a dor do outro me importa”, afirmou.

Para Ivna, a mensagem central de Contos sobre uma rede de afetos está no acolhimento das juventudes e na necessidade de escutá-las sem preconceitos. A autora defendeu que a sociedade suspenda julgamentos prévios sobre os jovens das periferias e reconheça suas potências.

“A juventude tem uma potência inimaginável. Ela é motor que não para um instante”, declarou.

A escritora também associou a defesa das juventudes à luta contra a precarização do trabalho, ao fim da escala 6×1 e à valorização da carteira assinada. Para ela, os jovens já chegam ao mercado de trabalho enfrentando cansaço, baixa remuneração e assédio moral.

“A nossa juventude já está entrando no mercado de trabalho cansada”, afirmou.

Ao encerrar sua participação, Ivna defendeu a continuidade da luta por políticas públicas, direitos trabalhistas e proteção social. Para ela, a literatura também pode ser um modo de disputar sentidos, revelar vidas invisibilizadas e afirmar a dignidade de quem costuma ser tratado apenas como estatística.

Referências
Contos sobre uma rede de afetos, Ivna Oliveira
Quarto de despejo, Carolina Maria de Jesus, 1960
Conceição Evaristo, referência literária citada pela entrevistada

https://www.youtube.com/live/tqcY9OBTXxs?si=S9uq23fHCC4V5R4P

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
💚 Apoie a comunicação popular!
📲 Pix: 85 996622120
📲✨ Siga o canal “Atitude Popular” no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029Vb7GYfH8KMqiuH1UsX2O

compartilhe: