Atitude Popular

“Eu nunca dei uma aula igual”

Encontro pedagógico do UNINTA debate formação docente e destaca livro Professor com prazer como referência para inovar na sala de aula

O encontro pedagógico promovido pelo Centro Universitário UNINTA e pela Faculdade F5, do grupo AIAMIS, colocou no centro do debate a formação continuada de professores e o desafio de ensinar com sentido e leveza. Em entrevista ao programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, a diretora da F5, Nayara Machado, e o professor universitário aposentado, radialista e escritor Leunam Gomes discutiram os impactos do livro Professor com prazer na prática docente.

A edição foi exibida pela TV Atitude Popular e integrou a cobertura do evento formativo que reuniu centenas de docentes do grupo educacional.

Formação continuada como compromisso institucional

Nayara Machado explicou que o grupo AIAMIS reúne entre 800 e 850 professores e que, a cada semestre, realiza momentos estruturados de formação. O objetivo é fortalecer práticas pedagógicas e qualificar a experiência em sala de aula.

Segundo ela, o contato com Leunam Gomes ocorreu a partir de uma experiência anterior com docentes do curso de Direito. A indicação veio da professora Vânia Pontes, ex-aluna de Leunam na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).

“Quando ela me apresentou o livro, eu li e fiquei encantada. A gente tem que trazer isso aqui para o grupo e não só para um curso”, relatou Nayara.

O encontro pedagógico contou com cerca de 650 participantes presenciais e aproximadamente 200 docentes acompanhando online. Para a diretora, o impacto foi imediato:

“Foi uma experiência riquíssima. Recebi muitos feedbacks interessantes, muito feedback legal. Da felicidade de ter participado desse momento com uma pessoa tão maravilhosa.”

O prazer como metodologia

O título do livro chamou atenção dos participantes. A pergunta recorrente, segundo Nayara, era como ser professor com prazer em um contexto de cobranças, exposição nas redes sociais e pressões institucionais.

Leunam Gomes respondeu com a simplicidade que marca sua trajetória de cinco décadas em sala de aula:

“Eu nunca dei uma aula igual e sempre foram diferentes e sempre deram prazer porque geraram participação.”

Para ele, o prazer está diretamente ligado à metodologia participativa. Em vez da aula exclusivamente expositiva, o professor defende práticas que envolvam o estudante como sujeito ativo do processo.

Um dos exemplos citados foi a organização da sala em círculo. “Quando a gente se coloca no círculo, todos se veem facilmente. O professor está em condições iguais para todos”, afirmou.

Ele também recuperou uma lição que o acompanha desde a juventude, inspirada no educador Lauro de Oliveira Lima: “O professor não ensina, ajuda o aluno a aprender.”

Formação x treinamento

Durante o programa, Luiz Regadas provocou os convidados sobre a diferença entre formar e treinar.

Nayara destacou que a formação envolve estudo, reflexão e escuta, enquanto o treinamento acontece na prática cotidiana, na experimentação das metodologias.

Leunam acrescentou que ensinar exige exercício permanente. Para ele, a sala de aula não deve ser repetição mecânica, mas espaço de criação. “Aprender a fazer fazendo”, resumiu.

A diretora reforçou que muitos docentes do ensino superior são bacharéis sem formação pedagógica específica, o que torna a formação continuada ainda mais necessária.

Relação professor-aluno e evasão

Outro ponto sensível discutido foi a percepção dos estudantes em relação às disciplinas e aos professores. Nayara destacou que, muitas vezes, a rejeição não está no conteúdo, mas na metodologia.

“Às vezes não é que ele não gosta do professor, mas ele não gosta daquela metodologia”, explicou.

Ela também chamou atenção para a realidade dos alunos que percorrem até três horas de deslocamento para estudar em Sobral. Para esses estudantes, uma aula meramente expositiva pode ampliar o cansaço e a desmotivação.

Leunam defendeu que a construção de vínculo é essencial. Entre as 25 sugestões apresentadas no livro, ele destacou a importância de aprender o nome do aluno e tratá-lo pelo nome.

“É tão fácil a gente aprender o nome do aluno e tratar o aluno pelo nome. Isso gera uma relação muito positiva.”

Outro princípio é reconhecer que o estudante já chega com saberes prévios. Citando Paulo Freire, ele lembrou que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, reforçando que a experiência do aluno deve ser incorporada ao processo pedagógico.

Medos e desafios do professor

Nayara apontou que um dos maiores temores atuais é a exposição permanente proporcionada pelas redes sociais e pelo uso de tecnologias em sala.

“Hoje o aluno está sempre tentando provar se o professor está correto ou se o professor está errado”, comentou.

Para ela, a saída está na humildade intelectual e na leveza. “Quando a gente consegue dar leveza em tudo que faz, tudo se torna mais prazeroso.”

Leunam, por sua vez, reafirmou que o bom relacionamento é condição básica para o prazer de ensinar. “O aluno está ali para aprender e o professor está ali para ajudar o aluno a aprender.”

Experiência que se multiplica

Ao final do programa, Leunam parabenizou a iniciativa da F5 e do UNINTA por institucionalizar momentos de reflexão pedagógica.

“Espero que a gente possa se reencontrar em outras oportunidades e compartilhar as nossas experiências”, afirmou.

Nayara também destacou a importância de manter o debate aberto e permanente: “Estou à disposição sempre. Momentos assim, onde a gente possa divulgar mais metodologias, mais debates, são válidos.”

O encontro pedagógico reafirma um ponto central: formar professores não é evento isolado, mas processo contínuo de escuta, revisão e experimentação. E, como mostrou o debate, ensinar com prazer não é ingenuidade, mas escolha metodológica sustentada na participação, no respeito e na construção coletiva do conhecimento.

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