Investigação sobre a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil identifica ex-integrante do serviço secreto israelense em deslocamento pela fronteira argentina. Registros migratórios, veículos de uma mesma empresa, um advogado ligado ao bolsonarismo e um possível jato particular ampliam as suspeitas de uma operação planejada para retirar o senador do país após sua derrota eleitoral.
Da Redação
A investigação sobre a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil ganhou uma dimensão internacional com a identificação de Menachem Booky Halevy, ex-integrante do Mossad, serviço de inteligência de Israel, entre os passageiros de uma operação de transporte realizada na fronteira brasileira com a Argentina. Reportagem exibida neste domingo (1º) pelo Fantástico, da TV Globo, revelou que o israelense cruzou a fronteira em uma van apenas sete minutos antes da passagem de outro veículo que poderia transportar o senador e integrantes de sua família. As informações acrescentam um elemento relevante às apurações da Polícia Federal sobre a viagem realizada depois da derrota de Flávio para Luiz Inácio Lula da Silva, em 25 de outubro, quando o parlamentar já era alvo de medidas judiciais destinadas a impedir sua saída do país.
A presença de um ex-agente de inteligência no mesmo circuito de deslocamentos não comprova, isoladamente, a participação do Mossad ou do Estado de Israel na operação. Tampouco demonstra que Halevy tenha organizado a viagem. Entretanto, a coincidência entre horários, veículos, passageiros e trajetos tornou-se um dos pontos examinados pelos investigadores, particularmente diante das informações de que o deslocamento teria envolvido planejamento logístico anterior à realização do segundo turno presidencial.
Segundo a reportagem da CNN Brasil, publicada em 30 de outubro, investigadores brasileiros identificaram duas vans utilizadas na travessia pela Ponte Internacional da Fraternidade, entre Foz do Iguaçu, no Paraná, e Puerto Iguazú, na Argentina. Os veículos pertenciam à mesma empresa de transporte, a Dallas Turismo, e integravam uma sequência de deslocamentos que passou a ser reconstruída a partir de registros migratórios, imagens de câmeras e informações obtidas junto às autoridades dos dois países.
A reportagem do Fantástico acrescentou que Halevy estava acompanhado do advogado Roberto Jorge Alexandre, que já atuou na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro. Ambos viajaram em um dos veículos identificados na investigação. O motorista Neri Luiz Dala Corte confirmou ter sido contratado para transportar dois homens até o aeroporto de Puerto Iguazú, mas afirmou que não viu integrantes da família Bolsonaro durante o percurso. Seu depoimento constitui uma informação relevante sobre o serviço realizado, sem esclarecer, por si só, se os passageiros participaram de alguma coordenação com o deslocamento do senador.
Outro dado apresentado pela investigação é que Menachem Booky Halevy esteve no Brasil em diferentes ocasiões durante 2026. Segundo os registros divulgados, sua entrada mais recente ocorreu em 19 de outubro, seis dias antes do segundo turno. O ex-agente também aparece em fotografias ao lado de autoridades israelenses, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Essas relações e viagens integram o contexto examinado pelos jornalistas, mas não autorizam concluir que sua presença no país estivesse associada a uma missão oficial ou clandestina de inteligência.
A reconstrução dos acontecimentos aponta para uma movimentação de veículos brasileiros e argentinos nas proximidades do aeroporto de Puerto Iguazú. O jornalista Nicolás Munafó, do canal argentino C5N, relatou ter observado uma caminhonete da Polícia de Segurança Aeroportuária à frente de um grupo de veículos, seguida por duas caminhonetes brasileiras e outras duas argentinas, uma delas com placa diplomática. A informação amplia as perguntas sobre a logística utilizada, mas ainda não estabelece se as autoridades argentinas tinham conhecimento da situação judicial de Flávio Bolsonaro ou se participaram de alguma irregularidade.
Um dos pontos mais sensíveis da reportagem envolve os registros migratórios atribuídos ao senador. De acordo com a documentação apresentada pela TV Globo, Flávio Bolsonaro teria sido registrado três vezes na imigração argentina, sempre associado ao mesmo veículo. O primeiro registro ocorreu às 22h37, mediante apresentação de um passaporte italiano. Três minutos depois, houve novo lançamento utilizando uma carteira de motorista. Às 23h11, apareceu uma terceira entrada, desta vez com o passaporte brasileiro. Posteriormente, os dois registros realizados com documentos brasileiros foram cancelados, permanecendo válida apenas a entrada vinculada ao documento italiano.
Essa sequência exige esclarecimentos porque a Polícia Federal brasileira informou oficialmente que não encontrou registros de saída do parlamentar pelos postos de controle migratório nacionais. A ausência do registro brasileiro, combinada às informações sobre sua entrada na Argentina, tornou-se uma questão central para a investigação. Também será necessário determinar quais documentos estavam válidos no momento da travessia, se houve alguma inconsistência administrativa e se as decisões judiciais brasileiras foram conhecidas ou comunicadas às autoridades responsáveis pelos procedimentos de imigração.
A Polícia Federal havia solicitado ao Supremo Tribunal Federal, em 25 de outubro, a adoção de medidas cautelares contra Flávio Bolsonaro, depois de identificar risco de saída do território nacional. Entre os pedidos estavam a apreensão de passaportes, a proibição de deixar o país e restrições de contato com outros investigados. Após a decisão judicial, os passaportes comum e diplomático brasileiros foram cancelados e um alerta migratório foi inserido no sistema de controle utilizado pelas autoridades.
Na segunda-feira (26), o senador foi intimado a entregar eventuais passaportes de outras nacionalidades no prazo de 24 horas. Segundo a nota oficial da Polícia Federal, a determinação não foi cumprida. No dia seguinte, Flávio deixou o Brasil em direção à Argentina e posteriormente chegou aos Estados Unidos. O órgão informou que investiga as circunstâncias do descumprimento das ordens judiciais, ressaltando, entretanto, que a existência de restrições sobre documentos de viagem não caracteriza automaticamente a condição de foragido nem autoriza medidas de prisão ou vigilância permanente sem fundamento legal específico.
O episódio ocorreu enquanto o parlamentar era investigado em procedimentos que tramitam no Supremo Tribunal Federal. Entre eles estão suspeitas relacionadas a operações financeiras envolvendo plataformas de apostas e ao financiamento do filme Dark Horse, dedicado à trajetória de Jair Bolsonaro. As investigações ainda dependem da apuração de responsabilidades individuais, não sendo possível tratar as suspeitas como condenações. A saída do país acrescentou uma controvérsia distinta, relacionada ao cumprimento das medidas cautelares determinadas pela Justiça.
A presença de familiares na operação também passou a ser examinada. Segundo a apuração divulgada pelo Fantástico, Fernanda Bolsonaro e as duas filhas do casal teriam seguido um percurso diferente daquele atribuído ao senador. Elas teriam partido de Brasília em uma aeronave com destino a Cascavel, no oeste do Paraná, e embarcado posteriormente em uma van da Dallas Turismo. O veículo teria atravessado a fronteira argentina algumas horas depois. A existência de trajetos distintos, horários próximos e utilização de uma mesma empresa de transporte constitui parte dos elementos utilizados para reconstruir a viagem.
Os investigadores também examinam a possível utilização de um jato executivo Cessna Citation Excel relacionado ao advogado Willer Tomaz, apontado como pessoa próxima de Flávio Bolsonaro. A aeronave foi mencionada nas reportagens como possível meio de transporte para os Estados Unidos. Tomaz, entretanto, negou à TV Globo que a viagem tenha ocorrido dessa maneira. Sua manifestação precisa ser considerada juntamente com os registros aeronáuticos e demais documentos que eventualmente venham a ser reunidos pelas autoridades.
A participação de pessoas com experiência em segurança, a utilização de veículos distintos e a existência de registros migratórios incomuns suscitam uma questão relevante: houve apenas uma viagem privada organizada por pessoas próximas ao senador ou uma operação deliberadamente destinada a contornar as restrições judiciais brasileiras? A resposta depende da demonstração de vínculos entre os participantes, conhecimento prévio das medidas cautelares, comunicações realizadas durante o planejamento e finalidade dos deslocamentos. A proximidade temporal entre veículos não basta para estabelecer responsabilidade criminal, mas constitui um elemento que pode justificar diligências adicionais.
O caso também apresenta uma dimensão diplomática. A travessia ocorreu pela fronteira com a Argentina, país governado por Javier Milei, cuja relação política com Lula atravessa um período de tensões. A existência de veículos com identificação diplomática, mencionada pela imprensa argentina, exige apuração específica sobre sua origem e participação. Não há, nas informações públicas examinadas até agora, comprovação de que o governo argentino tenha organizado ou autorizado uma operação para facilitar o descumprimento de decisões do STF. A eventual participação de agentes públicos estrangeiros precisaria ser demonstrada por documentos, depoimentos e outros elementos verificáveis.
Nos Estados Unidos, a chegada de Flávio Bolsonaro ocorreu em meio a informações sobre contatos de seus aliados com integrantes da administração Donald Trump. Reportagem da Folha de S.Paulo informou que pessoas próximas ao senador afirmaram que o governo americano tinha conhecimento de sua saída do Brasil e participara de tratativas relacionadas à viagem. Essas declarações, atribuídas a aliados, não comprovam a participação institucional de autoridades americanas na organização do deslocamento. Ainda assim, ampliam a relevância diplomática do caso e a necessidade de esclarecer quais contatos efetivamente ocorreram.
A hipótese de participação de um ex-integrante do Mossad exige cuidado ainda maior. Serviços de inteligência utilizam profissionais especializados em obtenção de informações, análise de riscos e operações de segurança. Pessoas que passaram por essas instituições também podem exercer atividades privadas depois de deixar o serviço público. A biografia de Halevy não demonstra, por si só, que estivesse atuando em nome de Israel. Para estabelecer qualquer relação institucional seria necessário identificar ordens, recursos, comunicações ou outras evidências de vínculo operacional com autoridades israelenses.
O interesse público está justamente na identificação dessas diferenças. Uma operação privada de transporte, ainda que envolva profissionais com experiência em inteligência, possui implicações distintas de uma ação conduzida ou apoiada por um serviço estatal estrangeiro. A primeira hipótese poderia envolver responsabilidades individuais relacionadas ao descumprimento de decisões judiciais. A segunda, caso comprovada, acrescentaria questões de soberania, cooperação internacional e possíveis interferências externas. Neste momento, a investigação divulgada permite formular essas perguntas, mas não responder afirmativamente à hipótese mais grave.
A Polícia Federal poderá utilizar mecanismos de cooperação jurídica internacional para solicitar informações sobre registros migratórios, trajetos, empresas e aeronaves. A obtenção de documentos junto a autoridades argentinas e americanas dependerá dos instrumentos legais aplicáveis e das decisões de cada país. Essa dimensão é particularmente importante porque os principais acontecimentos relacionados à viagem ocorreram em diferentes jurisdições, exigindo o cruzamento de informações produzidas por instituições distintas.
Também será necessário esclarecer a situação do passaporte italiano utilizado no registro argentino. A existência de dupla nacionalidade não impede, por si só, que uma pessoa possua documentos de viagem estrangeiros. Entretanto, uma ordem judicial de proibição de saída do Brasil possui natureza diferente do cancelamento administrativo de um passaporte nacional. O exame jurídico deverá determinar se o senador conhecia as restrições impostas, como ocorreu sua saída e quais obrigações foram descumpridas. A avaliação não depende apenas do documento apresentado na imigração argentina, mas do conjunto de determinações judiciais vigentes no momento.
O caso apresenta ainda um aspecto institucional relevante para a democracia brasileira. Ordens judiciais destinadas a preservar investigações precisam ser cumpridas nos limites da legislação e submetidas aos mecanismos de controle próprios do Estado de Direito. Ao mesmo tempo, a responsabilização por eventuais descumprimentos exige provas e respeito às garantias processuais. A condição de parlamentar, a notoriedade política ou a existência de relações internacionais não afastam essas exigências, assim como não autorizam antecipar conclusões de culpa.
A investigação sobre a saída de Flávio Bolsonaro deverá, portanto, avançar em diferentes frentes: o planejamento da viagem, a identificação dos participantes, os procedimentos migratórios, a utilização de veículos e aeronaves e a eventual atuação de terceiros para viabilizar o deslocamento. As informações reveladas pela CNN Brasil e pelo Fantástico tornam o episódio mais complexo do que uma viagem convencional, mas a dimensão exata da organização envolvida permanece em apuração.
A identificação de Menachem Booky Halevy coloca uma nova pergunta no centro do caso: qual foi o papel efetivo do ex-integrante do Mossad nos acontecimentos que antecederam a chegada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos? A resposta poderá esclarecer se sua presença foi circunstancial ou se integrou uma estrutura de apoio previamente organizada. O que já está documentado é a existência de medidas judiciais para impedir a saída do senador, a ausência de registro oficial de sua passagem pela imigração brasileira e uma sequência de deslocamentos internacionais que agora são objeto de investigação. Esclarecer quem participou, como a viagem foi realizada e quais decisões foram eventualmente descumpridas tornou-se uma questão de responsabilidade institucional e de respeito à soberania brasileira.
