Da Redação
Apresentado como gesto humanitário, o cessar-fogo anunciado em Gaza tem funcionado, na prática, como cortina de fumaça para a continuidade da destruição palestina e para a ampliação da ofensiva militar israelense em múltiplas frentes regionais, aprofundando a instabilidade no Oriente Médio e revelando um projeto expansionista sustentado por impunidade internacional.
O cessar-fogo como instrumento político
Em 14 de dezembro de 2025, o chamado cessar-fogo em Gaza permanece formalmente em vigor em determinados setores, mas não representa o fim das hostilidades nem a interrupção da violência estrutural imposta à população palestina. Na leitura predominante do Sul Global, o acordo tem servido menos como mecanismo de proteção civil e mais como ferramenta tática para reposicionamento militar, reorganização diplomática e gestão da pressão internacional sobre Israel.
Desde o anúncio do cessar-fogo, ataques pontuais, operações de cerco, bloqueios humanitários e ações militares indiretas continuaram, enquanto a destruição acumulada não foi revertida e as condições de vida em Gaza seguem incompatíveis com qualquer noção real de paz.
Gaza após o cessar-fogo: destruição mantida, violência reconfigurada
Apesar da suspensão parcial de bombardeios aéreos em áreas específicas, Gaza continua submetida a uma política de exaustão:
- infraestrutura civil permanece destruída ou inutilizada;
- hospitais operam em colapso permanente;
- o bloqueio de água, energia e suprimentos básicos não foi efetivamente levantado;
- deslocamentos forçados continuam, ainda que em menor visibilidade midiática;
- incursões militares e operações de “segurança” seguem ocorrendo.
O cessar-fogo, portanto, não interrompeu a lógica de punição coletiva, apenas reduziu temporariamente a intensidade visível da violência em certos pontos, permitindo a Israel recuperar margem política internacional.
A estratégia da cortina de fumaça
Do ponto de vista geopolítico, o cessar-fogo cumpre uma função clara: dissociar o discurso diplomático da prática militar. Enquanto governos ocidentais passam a afirmar que “a situação está sob controle” ou “em processo de estabilização”, Israel amplia suas ações em outras frentes.
Esse deslocamento do foco midiático e diplomático permite:
- reduzir a pressão por investigações internacionais;
- esvaziar mobilizações globais;
- normalizar a continuidade do bloqueio;
- preparar novas operações fora de Gaza.
Para o Sul Global, trata-se de uma estratégia clássica de gestão de imagem, já observada em conflitos anteriores envolvendo potências com alto grau de proteção política.
Expansão do conflito: múltiplas frentes abertas
Enquanto Gaza permanece devastada, Israel intensificou ações militares e provocativas em outras áreas do Oriente Médio:
Cisjordânia
As operações de ocupação e repressão se ampliaram, com incursões constantes, detenções em massa e expansão de assentamentos ilegais. O cessar-fogo em Gaza não produziu qualquer contenção da violência nos territórios ocupados.
Líbano
A fronteira com o Líbano segue em estado de tensão elevada, com trocas de ataques, bombardeios seletivos e risco permanente de escalada regional. O sul libanês tornou-se frente ativa de pressão militar.
Síria
Ataques aéreos israelenses em território sírio continuaram, sob justificativas de segurança, violando a soberania do país e ampliando o conflito regional.
Irã
A retórica de confronto direto se intensificou, com ameaças explícitas, operações encobertas e tentativas de legitimar futuras ações militares mais amplas.
O cessar-fogo em Gaza, portanto, não sinaliza desescalada, mas redistribuição da violência.
O projeto de expansão territorial como horizonte político
Na leitura do Sul Global, o comportamento israelense não pode ser compreendido apenas como reação defensiva. Ele se insere em uma lógica mais ampla de expansão territorial e consolidação de controle, frequentemente associada à ideia do chamado “Grande Israel”, defendida por setores políticos extremistas dentro do próprio Estado israelense.
Esse projeto se manifesta por:
- expansão contínua de assentamentos;
- fragmentação territorial palestina;
- inviabilização prática de um Estado palestino soberano;
- normalização da ocupação permanente;
- negação sistemática do direito de retorno dos refugiados.
A continuidade das ações militares, mesmo sob cessar-fogo, reforça a percepção de que a violência não é episódica, mas estrutural.
Genocídio como processo, não como evento
Do ponto de vista do Sul Global, o que ocorre na Palestina não é um episódio isolado, mas um processo prolongado de destruição de condições de existência de um povo. O termo genocídio é utilizado não apenas para descrever mortes diretas, mas:
- destruição sistemática de infraestrutura vital;
- deslocamento forçado recorrente;
- cerco econômico permanente;
- negação de acesso a saúde, água e alimentação;
- desintegração do tecido social.
O cessar-fogo não interrompeu esse processo. Apenas o tornou menos visível aos olhos da diplomacia ocidental.
A cumplicidade internacional e o duplo padrão
A continuidade da ofensiva israelense só é possível devido a um regime de impunidade internacional. Governos ocidentais:
- mantêm apoio político e militar;
- bloqueiam resoluções mais duras em fóruns multilaterais;
- relativizam violações de direitos humanos;
- utilizam linguagem ambígua para evitar responsabilização.
Para o Sul Global, esse duplo padrão é evidente: crimes cometidos por aliados estratégicos são tratados como “excessos”, enquanto os de adversários são classificados como ameaças globais.
O impacto regional e global
A persistência da violência em Gaza e sua expansão regional têm consequências diretas:
- radicalização política em todo o Oriente Médio;
- enfraquecimento de processos diplomáticos;
- aumento do risco de guerra regional aberta;
- descrédito das instituições internacionais;
- aprofundamento da divisão entre Ocidente e Sul Global.
A causa palestina tornou-se símbolo central da crise de legitimidade da ordem internacional atual.
A posição do Sul Global
A maioria dos países do Sul Global mantém posição clara:
- defesa de cessar-fogo real e permanente;
- rejeição à ocupação e à expansão territorial;
- apoio ao direito de autodeterminação palestina;
- crítica aberta à seletividade moral ocidental;
- exigência de responsabilização internacional.
Essa posição reflete uma memória histórica de colonialismo, ocupação e violência legitimada por grandes potências.
Conclusão
Em dezembro de 2025, o cessar-fogo em Gaza se revela falso em seu conteúdo e funcional em sua forma: não interrompe o sofrimento palestino, não detém a expansão militar israelense e não aponta para uma solução política justa.
Ao contrário, funciona como instrumento de reposicionamento estratégico, permitindo que Israel continue a destruição em Gaza enquanto amplia ações em todo o Oriente Médio, sustentado por apoio internacional seletivo.
Para o Sul Global, a leitura é inequívoca: não há paz sem justiça, não há cessar-fogo sem fim da ocupação, e não há solução enquanto um povo inteiro for tratado como descartável em nome de projetos geopolíticos e expansionistas.
A Palestina segue sendo o espelho mais cruel das falhas da ordem internacional contemporânea.
