Reunião conduzida pelo presidente Lula reúne 24 ministérios e anuncia reforço de R$ 1,335 bilhão para prevenção de incêndios, segurança alimentar, saúde e monitoramento dos rios
Da Redação
O presidente Lula reuniu ministros e dirigentes de órgãos federais para apresentar o plano de preparação do governo diante da possibilidade de um El Niño de forte intensidade entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. A estratégia prevê ações diferenciadas para cada região do país, diante dos riscos de estiagem, incêndios, ondas de calor, atraso das chuvas, enchentes e deslizamentos.
As informações foram apresentadas durante reunião ministerial transmitida oficialmente pelo YouTube. A exposição principal ficou a cargo da ministra-chefe da Casa Civil, Miriam Belchior, responsável por coordenar o trabalho desenvolvido por 24 ministérios, órgãos de monitoramento climático, estados, municípios e entidades da sociedade civil.
Segundo o governo, as condições para a formação do El Niño já foram identificadas no Oceano Pacífico. As projeções apresentadas durante a reunião indicam elevada probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade forte ou muito forte.
“Primeiro, não negar a ciência e seus alertas. Segunda coisa, nós precisamos tomar as medidas preventivas e preparar respostas em parceria com estados e municípios. E terceiro, informar e orientar a sociedade”, afirmou Miriam Belchior.
A ministra destacou que os efeitos não serão iguais em todo o território nacional. Norte e Nordeste devem enfrentar redução das chuvas e períodos mais secos. No Centro-Oeste e no Sudeste, a previsão envolve atraso das precipitações, aumento das temperaturas, incêndios e impactos sobre a produção agrícola. Já a Região Sul pode registrar chuvas acima da média, enchentes, ventanias e deslizamentos.
Riscos diferentes em cada região
Na Região Norte, a redução da vazão dos rios pode dificultar o transporte de pessoas, alimentos e combustíveis. Comunidades ribeirinhas e indígenas também podem enfrentar isolamento, problemas no abastecimento de água e limitações na geração de energia hidrelétrica.
O governo monitora ainda o estoque de diesel utilizado pelas usinas termelétricas. Quando o nível dos reservatórios diminui, essas unidades precisam ser acionadas para compensar a queda da geração hidrelétrica. Parte significativa do combustível consumido na região é transportada pelos rios, o que amplia a preocupação durante períodos de seca extrema.
No Nordeste, os reservatórios apresentam atualmente nível considerado adequado pelo governo. De acordo com Miriam Belchior, o armazenamento médio está em torno de 53%, e o Rio São Francisco mantém condições para o bombeamento de água pelos canais do Projeto de Integração do São Francisco.
A avaliação apresentada na reunião indica que não há risco imediato de colapso dos reservatórios nordestinos durante o segundo semestre de 2026. O maior problema pode surgir em 2027, caso o El Niño provoque atraso ou redução da próxima quadra chuvosa.
As áreas produtivas do Matopiba, território agrícola que abrange partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, aparecem entre as regiões que exigem maior acompanhamento. A falta de chuva pode afetar plantações, criação de animais e disponibilidade de água para comunidades rurais.
No Sudeste, o governo acompanha a possibilidade de ondas de calor, incêndios florestais e redução dos reservatórios que abastecem as regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas. Como parte desses sistemas está interligada, a estratégia prevê uma gestão coordenada da água disponível.
No Sul, a preocupação se concentra no excesso de chuva. A Defesa Civil já mantém equipes em prontidão no Rio Grande do Sul, onde foram registrados episódios recentes de ventania, destelhamentos e precipitações intensas.
Reforço de R$ 1,335 bilhão
O governo federal anunciou um reforço orçamentário de R$ 1,335 bilhão para as ações relacionadas ao El Niño. O maior volume, R$ 850 milhões, será destinado à aquisição de arroz e milho.
A Companhia Nacional de Abastecimento deverá ampliar os estoques públicos em 310 mil toneladas de arroz e 180 mil toneladas de milho. A medida busca reduzir os efeitos de uma possível quebra de safra, especialmente no Rio Grande do Sul, principal produtor nacional de arroz.
Parte do milho será direcionada ao atendimento de criadores do semiárido nordestino, onde períodos prolongados de seca podem reduzir a disponibilidade de ração e pastagem para os animais.
Outros R$ 337 milhões serão destinados à prevenção e ao combate a incêndios. O plano também reserva R$ 65 milhões para cestas de alimentos, R$ 45 milhões para ações emergenciais na saúde, R$ 25 milhões para o monitoramento dos rios pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico e R$ 13 milhões para aquisição de alimentos produzidos por agricultores da Região Norte.
O governo informou que antecipará a distribuição de 160 mil cestas básicas para regiões consideradas vulneráveis. O atendimento deverá ser ampliado com outras 350 mil cestas destinadas prioritariamente a indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores e agricultores familiares.
A antecipação busca evitar dificuldades logísticas como as enfrentadas em secas anteriores, quando o rebaixamento dos rios obrigou o transporte aéreo de alimentos e água para comunidades isoladas.
Combate aos incêndios
O plano federal prevê a mobilização de mais de 4.400 brigadistas ligados ao Ibama e ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Estados e municípios apoiados com recursos do Fundo Amazônia deverão capacitar outros 5 mil profissionais.
A estrutura também inclui a entrega de cerca de 500 veículos, quase 34 mil equipamentos de proteção individual e a recuperação de 30 bases operacionais nos estados da Amazônia Legal, do Cerrado e do Pantanal.
O governo identificou áreas de maior risco de incêndio no Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Tocantins. Esses territórios deverão receber reforço de equipes, veículos, helicópteros e aviões utilizados no transporte de brigadistas e no lançamento de água.
De acordo com a apresentação da Casa Civil, sete aeronaves já estão permanentemente contratadas pelo Ibama e pelo ICMBio. Os contratos permitem o acionamento de outras 31 unidades. A Polícia Rodoviária Federal mantém dez aeronaves, enquanto a Funai dispõe de horas de voo contratadas para atender comunidades indígenas.
O governo também criou uma ata de registro de preços que permite contratar imediatamente até 130 mil horas adicionais de voo em situações emergenciais, sem a necessidade de iniciar uma nova licitação.
Nas rodovias federais, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes e a Polícia Rodoviária Federal deverão intensificar a limpeza da vegetação, a abertura de faixas de contenção e a fiscalização de queimadas criminosas. A fumaça nas estradas também exige controle do tráfego para reduzir o risco de acidentes.
Vinte assentamentos rurais considerados mais vulneráveis receberão ações de prevenção. Entre as medidas estão a formação de agentes locais, elaboração de planos territoriais e fornecimento de máquinas para substituir a queima da vegetação por roçagem e gradagem.
Água no semiárido e nas comunidades amazônicas
A Casa Civil apresentou uma série de obras que, segundo o governo, ampliaram a capacidade de resposta aos períodos de estiagem. Na integração do Rio São Francisco, os investimentos recentes se aproximam de R$ 5 bilhões e incluem ramais e estruturas complementares destinadas ao abastecimento de aproximadamente 12 milhões de pessoas.
Outros R$ 10 bilhões estão sendo investidos em obras de segurança hídrica no Nordeste. O conjunto inclui cerca de 2.800 quilômetros de canais e adutoras, novos reservatórios, recuperação de 162 barragens e construção de mais de 172 mil cisternas.
A Operação Carro-Pipa recebeu R$ 2,1 bilhões nos últimos três anos e meio. O programa atende mensalmente cerca de 1,6 milhão de pessoas que vivem em localidades sem abastecimento regular.
Na Região Norte, aproximadamente R$ 600 milhões estão sendo destinados a sistemas de captação, tratamento e distribuição de água para pequenas comunidades rurais e territórios indígenas. Algumas estruturas utilizam energia solar para bombear a água e incluem a instalação de banheiros e sistemas individuais de saneamento.
A proposta é reduzir a dependência de operações emergenciais durante secas severas. Em 2023 e 2024, comunidades isoladas precisaram receber água por meio de aeronaves devido à redução extrema dos rios.
Monitoramento climático ampliado
O governo afirma ter ampliado a rede de equipamentos utilizados para acompanhar chuvas, temperatura e nível dos rios. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, o Cemaden, instalou novos pontos de medição e pretende alcançar mais de 1.800 municípios até julho de 2027.
O Instituto Nacional de Meteorologia também modernizou suas estações. Além da ampliação da rede, os novos equipamentos transmitem informações à distância, permitindo que os técnicos acompanhem as condições meteorológicas sem precisar se deslocar até cada unidade.
Os dados são reunidos em uma sala de situação formada por 24 ministérios e nove grupos operacionais. As equipes trabalham com temas como saúde, incêndios, estiagem, energia, combustíveis, agricultura, segurança alimentar e resposta a desastres.
Relatórios mensais serão utilizados para definir áreas de maior risco, antecipar medidas e orientar estados e municípios. Participam do monitoramento órgãos como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inmet, o Cemaden, a Agência Nacional de Águas, o Serviço Geológico do Brasil e a Defesa Civil Nacional.
O sistema Defesa Civil Alerta, que envia mensagens diretamente aos celulares localizados em áreas de risco, já funciona em todo o país. Segundo os dados apresentados na reunião, mais de 2.500 alertas foram emitidos desde agosto de 2024.
Saúde prepara bases regionais
O Ministério da Saúde anunciou a criação de oito centros de informação sobre saúde e clima nas cinco regiões do país. As unidades deverão analisar a relação entre eventos climáticos e problemas de saúde, incluindo doenças respiratórias, efeitos da fumaça, desidratação, agravamento de doenças cardiovasculares e impactos provocados pelas ondas de calor.
A Força Nacional do Sistema Único de Saúde também está sendo descentralizada. Antes concentrada em Brasília, a estrutura terá nove bases regionais para acelerar a chegada de profissionais, medicamentos e equipamentos aos locais atingidos por desastres.
Os centros deverão trabalhar permanentemente com as secretarias estaduais e municipais de saúde. A orientação é que hospitais e unidades básicas preparem planos para situações que envolvam calor extremo, fumaça, enchentes e deslocamento de comunidades.
Investimentos contra enchentes
O Novo PAC reserva aproximadamente R$ 19 bilhões para obras de drenagem urbana e contenção de encostas em diferentes regiões. Os recursos são repassados a estados e municípios responsáveis pela execução dos projetos.
No Rio Grande do Sul, o governo federal autorizou a suspensão do pagamento da dívida estadual por três anos e dos juros correspondentes ao período. Os recursos foram direcionados ao Fundo do Plano Rio Grande, criado para financiar medidas de adaptação climática.
A previsão é que o fundo receba R$ 15 bilhões até 2027. Até junho de 2026, segundo a apresentação, R$ 9,4 bilhões haviam sido transferidos, dos quais R$ 5,8 bilhões já tinham sido utilizados pelo governo estadual.
Outros R$ 6 bilhões foram destinados a um fundo voltado à reconstrução e ao reforço de diques, barragens e sistemas de proteção contra enchentes.
Lula cobra participação de prefeitos
Ao final da apresentação, o presidente Lula defendeu a realização de uma videoconferência com prefeitos de todo o país. Para ele, a preparação federal só produzirá os resultados esperados se as administrações locais conhecerem as áreas de risco e organizarem equipes próprias.
“Se o prefeito estiver envolvido, a chance da gente evitar desgraça é muito maior, porque ele está no território, porque ele sabe onde é o problema, ele sabe onde pode faltar algo, ele sabe onde pode pegar fogo”, declarou.
Lula afirmou que o governo não pode controlar a formação do fenômeno, mas tem a obrigação de preparar estruturas para enfrentar seus possíveis efeitos.
“Se ele vai acontecer de forma grave, nós estamos preparados. Se ele não acontecer, valeu a intenção de se preparar para enfrentar alguma coisa grave. O que é duro é quando acontece alguma coisa e ninguém está preparado”, disse.
O presidente recordou uma visita ao Amapá durante um incêndio e relatou a dificuldade de controlar o fogo apenas com ações realizadas depois do início das chamas.
“Eu já fui uma vez ao Amapá apagar fogo. Eu fiquei batendo folha de mato no fogo, e ele apaga no segundo e volta mais forte. Parecia que a gente estava soprando para ele crescer mais”, afirmou.
Lula também relacionou a intensidade dos eventos extremos às mudanças provocadas pela atividade humana e disse que a experiência brasileira poderá ser compartilhada com outros países.
“O que posso dizer é que nunca antes na história do Brasil a gente esteve tão preparado para enfrentar uma possível adversidade que se apresenta pela natureza”, declarou.
O vice-presidente Geraldo Alckmin destacou a redução do desmatamento na Amazônia e a utilização de biocombustíveis. Ele elogiou a coordenação da Casa Civil e a integração entre ministérios, estados e municípios.
Apesar da estrutura apresentada, o próprio presidente reconheceu que não é possível calcular antecipadamente toda a dimensão de uma crise climática. A capacidade de resposta dependerá da intensidade e da duração do fenômeno, além da participação de governos estaduais, prefeituras, produtores rurais e comunidades localizadas nas regiões mais vulneráveis.
