Muito antes do termo virar símbolo político nacional, expressão já tinha outro significado no humor popular cearense
Da Redação
Celebrado em 18 de maio, o Dia da Coxinha voltou a movimentar padarias, cafeterias e lanchonetes em Fortaleza. Com recheios tradicionais e versões cada vez mais elaboradas, o salgado segue entre os preferidos dos brasileiros e ganhou destaque em listas gastronômicas e promoções especiais pela cidade.
Reportagem publicada pelo jornal O Povo reuniu alguns dos locais de Fortaleza que apostam em sabores diferentes para a data, mostrando como a coxinha continua ocupando um espaço quase afetivo na culinária popular brasileira.

Mas há alguns anos, a palavra “coxinha” deixou de remeter apenas ao salgado. Principalmente após as manifestações políticas de 2013 e o período que antecedeu o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, o termo passou a ser usado nacionalmente como apelido pejorativo para setores conservadores da classe média urbana. Em diferentes contextos, “coxinha” virou sinônimo de alguém considerado alienado politicamente, excessivamente moralista, “isentão”, antipetista, defensor da meritocracia ou alinhado à direita tradicional. Mais tarde, parte desse arquétipo acabaria sendo absorvida pela figura do chamado “bolsominion”.
A origem exata desse uso nacional é disputada, mas ele se espalhou rapidamente pelas redes sociais, programas de humor e debates políticos da década passada.

No Ceará, porém, a palavra já carregava outro significado muito antes disso. Para gerações que cresceram acompanhando os programas “Nas Garras da Patrulha” e “Autarquias do Humor”, o nome imediatamente remete ao personagem Coxinha, criado pelo humorista e bonequeiro cearense Hiran Delmar. Ao lado de Doquinha, o personagem se tornou um dos maiores fenômenos do humor popular nrasileiro. Com topete marcante, voz estridente e personalidade carregada de fofocas, intrigas e comentários atravessados, Coxinha acabou influenciando a linguagem popular cearense.
Durante muito tempo, chamar alguém de “coxinha” no Ceará significava definir uma pessoa falsa, fofoqueira ou que falava mal pelas costas enquanto elogiava na frente. Era uma referência direta ao comportamento do personagem nas esquetes humorísticas.
O detalhe mostra como uma mesma palavra pode assumir sentidos completamente diferentes dependendo da memória cultural de cada região. Enquanto o Brasil politizou a expressão na última década, o Ceará já convivia havia muito tempo com um “Coxinha” vindo do rádio e da televisão popular.
No fim das contas, o Dia da Coxinha acabou virando também uma pequena lembrança de como humor, linguagem e cultura regional continuam moldando o significado das palavras no país.
