A inteligência artificial construída a partir da experiência da reforma agrária brasileira acaba de dar um salto internacional. Entre os dias 16 e 21 de abril de 2026, foi criado o Polo de Gana da IAraa (Inteligência Artificial para a Reforma Agrária e Agroecologia), iniciativa articulada pela Baobab (Associação Internacional para a Cooperação Popular) em parceria com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), a Marcha Mundial das Mulheres e o Movimento Socialista de Gana (SMG).
A expansão marca um novo estágio do projeto: aquilo que nasceu nos assentamentos brasileiros como resposta à dependência tecnológica e ao domínio das Big Techs passa agora a operar como ferramenta internacional de cooperação entre povos do Sul Global. Não se trata de exportação de tecnologia no molde tradicional, mas da construção compartilhada de um sistema baseado na troca de saberes, experiências produtivas e organização popular.
Da demonstração pública à circulação internacional
Antes de atravessar o Atlântico, a IAraa já havia dado sinais concretos de maturidade no Brasil. No dia 20 de abril de 2026, durante o programa Bancos da Democracia, da TV Atitude Popular, a ferramenta foi demonstrada ao vivo pelo engenheiro florestal Matheus Mendes, integrante da equipe técnica do projeto.
Na ocasião, Mendes apresentou como o sistema processa informações complexas para responder às necessidades do campo, articulando dados agronômicos, condições climáticas e práticas de manejo agroecológico. A demonstração evidenciou que a IAraa não é um experimento abstrato, mas uma tecnologia em operação, construída a partir da realidade dos territórios.
Esse momento público não apenas validou a ferramenta como também consolidou sua dimensão política: a inteligência artificial como instrumento de comunicação popular, capaz de traduzir conhecimento técnico em linguagem acessível e útil para quem está na base.
Um polo africano com base militante
O Polo de Gana já nasce com um núcleo definido. Cinco jovens militantes do Movimento Socialista de Gana assumem a responsabilidade pela implementação e desenvolvimento local da IAraa.
Mais do que operadores técnicos, eles são parte ativa de um processo político que articula tecnologia, formação e organização social. A aposta na juventude aponta para uma estratégia de longo prazo: formar quadros capazes de adaptar a ferramenta às realidades locais e garantir sua autonomia.
Da experiência brasileira à construção internacional
A chegada da IAraa a Gana é resultado direto do acúmulo construído no Brasil, onde a ferramenta foi desenvolvida a partir da prática concreta da agroecologia nos assentamentos do MST.
Agora, esse conhecimento começa a dialogar com outras realidades. Em vez de replicar modelos prontos, o projeto propõe um intercâmbio vivo. A inteligência artificial passa a aprender também com as práticas agrícolas africanas, com os sistemas locais de cultivo e com as formas comunitárias de organização.
Tecnologia como instrumento de internacionalismo
A criação do polo em Gana revela uma dimensão estratégica da IAraa. A tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta produtiva e assume um papel político na construção de alianças internacionais.
A parceria com a Marcha Mundial das Mulheres incorpora a perspectiva feminista na organização da produção e no uso da tecnologia. Já o envolvimento do Movimento Socialista de Gana reforça o caráter de base e a conexão com as lutas populares locais.
Nesse sentido, a IAraa se posiciona como uma alternativa concreta ao modelo dominante de inovação tecnológica, geralmente controlado por grandes corporações e orientado pelo lucro. Aqui, a lógica é outra: tecnologia como bem comum, construída coletivamente e voltada para a autonomia dos povos.
Um novo território de disputa
A expansão para Gana evidencia que a disputa tecnológica não respeita fronteiras nacionais. O controle sobre dados, algoritmos e infraestrutura digital se tornou um dos principais campos de conflito no século XXI.
Ao criar um polo africano, a IAraa afirma que essa disputa também pode ser feita a partir de baixo, com protagonismo dos movimentos populares. Trata-se de ocupar o território digital com a mesma lógica que orienta a luta pela terra: organização coletiva, autonomia e soberania.
O desafio da enraização
O próximo passo não é apenas expandir, mas enraizar. Em Gana, isso significa garantir que a ferramenta seja apropriada pelas comunidades, integrada às práticas locais e capaz de responder às necessidades concretas da produção agrícola.
Se conseguir consolidar essa presença, a IAraa pode se transformar em uma rede internacional de inteligência popular, conectando territórios distintos por meio de uma mesma lógica de cooperação e resistência.
O que começou como resposta ao avanço do agronegócio digital no Brasil agora se projeta como experimento global. E, ao atravessar o Atlântico, a IAraa leva consigo mais do que tecnologia: leva um projeto político de mundo.









