Da Redação
Presidente iraniano exige resposta do Sul Global contra ataques de EUA e Israel e convoca BRICS a assumir papel independente na defesa da soberania.
A guerra contra o Irã atingiu um novo patamar político neste 21 de março de 2026 com a cobrança direta do presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, para que o BRICS atue de forma concreta e independente contra a ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel. A declaração marca uma inflexão estratégica: o conflito deixa de ser apenas militar e passa a ser também uma disputa explícita pelo posicionamento do Sul Global diante de uma agressão internacional.
Durante conversa com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, Pezeshkian foi direto ao ponto ao afirmar que é necessária uma “cessação imediata” daquilo que classificou como agressão EUA-Israel para evitar a ampliação da guerra regional.
Mas o elemento mais relevante de sua fala foi o apelo ao BRICS. O presidente iraniano pediu que o bloco — que reúne algumas das principais economias emergentes do mundo — atue de forma autônoma para conter a ofensiva e impedir novas ações militares contra o país.
Esse movimento não é casual. Ele revela uma leitura estratégica clara por parte de Teerã: a de que a guerra não pode ser enfrentada apenas no campo militar, mas precisa ser disputada também no terreno geopolítico e institucional. Ao acionar o BRICS, o Irã busca transformar o conflito em uma questão global, deslocando-o da lógica unilateral imposta por Washington e Tel Aviv.
O apelo ganha ainda mais peso diante da própria configuração do BRICS. O bloco, que hoje inclui países como Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul e novos membros como o próprio Irã, representa uma parcela significativa da população mundial e uma crescente força econômica e política no sistema internacional.
Nos últimos anos, o BRICS tem se consolidado como um dos principais polos de contestação à ordem internacional dominada pelo Ocidente. Em encontros recentes, o grupo já expressou preocupação com ataques ao Irã e com o uso de força militar sem respaldo do direito internacional, reforçando uma agenda baseada no multilateralismo e na soberania dos Estados.
É exatamente nesse contexto que a cobrança de Pezeshkian deve ser interpretada. Ao exigir ação do BRICS, o Irã não está apenas pedindo apoio diplomático. Está convocando o bloco a assumir um papel ativo na reorganização da ordem internacional.
O pano de fundo dessa movimentação é a escalada militar em curso. Desde o final de fevereiro, ataques coordenados de Estados Unidos e Israel atingem infraestrutura estratégica iraniana, incluindo instalações energéticas, centros militares e lideranças políticas. Em resposta, o Irã lançou mísseis contra alvos israelenses e norte-americanos, ampliando o conflito para uma dimensão regional.
Nesse cenário, a posição do BRICS se torna decisiva. Se o bloco optar por uma atuação mais assertiva, poderá pressionar por cessar-fogo, reorganizar canais diplomáticos e até redefinir o equilíbrio político internacional. Se permanecer fragmentado, abre espaço para a continuidade de uma guerra conduzida sob lógica unilateral.
Há, no entanto, um desafio estrutural. O BRICS não é uma aliança militar e não possui mecanismos formais de defesa coletiva.
Isso significa que sua atuação depende fundamentalmente de coordenação política entre países com interesses distintos — o que, historicamente, tem sido um dos principais limites do bloco.
Mesmo assim, o momento atual pressiona por uma definição. A guerra no Irã expõe uma contradição central: enquanto o Sul Global reivindica maior protagonismo internacional, conflitos dessa magnitude colocam à prova sua capacidade de agir de forma coordenada.
Sob a perspectiva do Sul Global, o apelo de Pezeshkian tem um significado que vai além do Irã. Ele coloca em pauta uma questão estrutural: se países emergentes aceitarão passivamente intervenções militares unilaterais ou se irão construir mecanismos próprios de resposta e contenção.
Essa disputa é, em essência, sobre soberania. A ofensiva contra o Irã, realizada sem autorização do Conselho de Segurança da ONU e sem evidência pública de ameaça iminente, é interpretada por diversos países como uma violação direta do direito internacional. Nesse contexto, a resposta iraniana — tanto militar quanto diplomática — aparece como tentativa de preservar sua autonomia diante de uma agressão externa.
Ao convocar o BRICS, o Irã busca ampliar essa narrativa e transformá-la em ação coletiva. Trata-se de uma tentativa de deslocar o eixo do poder global, reforçando a ideia de que a segurança internacional não pode ser definida unilateralmente por grandes potências.
No limite, o que está em jogo é o futuro da ordem mundial. A guerra no Irã não é apenas um conflito regional. É um teste para o sistema internacional e, especialmente, para o papel do Sul Global nesse sistema.
Se o BRICS responder à altura, poderá consolidar-se como um polo real de poder e mediação. Se não, corre o risco de confirmar as limitações que historicamente marcaram sua atuação.
E é exatamente por isso que a cobrança de Pezeshkian ganha dimensão histórica: ela transforma a guerra em um ponto de inflexão para o próprio Sul Global.


